É meu!

É meu!
Pare com o roubo de conteúdo!

Friday, March 09, 2007


POVOS




ÍNDIOS, MARAVILHOSOS ÍNDIOS



Índio "Bravo" Mandan de perfil - Spotted Bull (Touro Manchado)


“Cada parcela deste solo é sagrada, no modo de ver do meu povo. Cada encosta, cada vale, cada planície e bosque foi santificado através de algum acontecimento triste ou alegre em dias há muito desaparecidos. A própria poeira sobre a qual vocês agora se erguem responde mais amorosamente aos seus passos do que aos vossos, porque foi enriquecida com o sangue dos nossos antepassados e os nossos pés nus estão conscientes da empatia do contacto. Até as criancinhas que aqui viveram e se divertiram durante uma breve estação irão amar estas solidões sombrias e, ao cair da noite, saudarão os assombrados espíritos que regressam. E quando o último Pele-Vermelha tiver perecido e a memória da minha tribo se tiver tornado um mito entre o Homem Branco, os mortos invisíveis da minha tribo irão pulular por essas praias; e quando os filhos dos vossos filhos se julgarem sós no campo, no armazém, na loja, na estrada ou no silêncio das florestas sem caminhos, não estarão sós. Pela noite, quando as ruas das vossas cidades e vilas estão silenciosas e vocês as supõem desertas, estarão apinhadas com as hostes que regressam e que outrora encheram e ainda amam esta bela terra.” (Extracto do célebre discurso feito por Seattle, o chefe dos Dwamish, Squamish e das tribos índias do Noroeste, perante Isaac Stevens, governador do território de Washington, em 1854, antes de assinar um tratado no qual a sua tribo se resignava a conceder a colonos brancos as suas terras e a serem confinados a uma “reserva”) .






Dedico este trabalho aos “mortos invisíveis” e às “hostes que regressam”.




Conta-se que Cristóvão Colombo julgou ter chegado à Índia quando, na verdade, avistara o continente que seria baptizado com o nome “América” em honra a Amerigo Vespucci, o explorador italiano. Devido a esse facto, chamou “índios” aos povos que por lá encontrou. Não é um facto histórico. No entanto, presume-se que houvesse então cerca de dez milhões desses "índios", na verdade nações tão diferenciadas quanto os europeus, nos territórios hoje designados por Estados Unidos e Canadá. Vieram para ali, em vagas migratórias da Ásia setentrional através do Estreito de Bering, há vinte ou trinta mil anos. Do meu ponto de vista, fisicamente, assemelham-se bastante aos tibetanos. As mais velhas culturas índias da América do Norte documentadas são a de Sandia (15000 b.C.), Clovis (12000 b.C.) e Folson (8000 b.C.).
Quando os europeus começaram a chegar à América nos sécs. XVI e XVII, encontraram culturas bastante diversificadas: de agricultores, de recolectores, de caçadores; desenvolvidas ou de base tribal. Encontraram também várias línguas e organizações sociais distintas: de nómadas, de sedentários, de gente pacífica, de guerreiros. Este conjunto heteróclito vivia em paralelo, guerreando-se entre si ou coexistindo. Mas os europeus atacaram-nos de imediato e em três frentes, quase em simultâneo – a sudoeste e sueste fizeram-no os espanhóis e a nordeste os ingleses, franceses e holandeses. O que aconteceu depois? Entre a chegada dos europeus e o tristemente célebre Massacre de Wounded Knee, a 29 de Dezembro de 1890, que pôs um ponto final à resistência índia, decorreram duzentos anos de sucessivos genocídios do povo de todo um continente. Uma história de derrotas por parte dos índios.


Guerreiro Piegan



No entanto, deste genocídio raramente se fala; pelo contrário, tem muitas vezes sido alvo de branqueamento. Já se sabe que quem sobrevive para redigir a história são os vencedores e que a versão por estes apresentada tende a desculpar as atrocidades perpetradas em nome dessa vitória. Neste caso, os vencedores acabariam por ser os grandes construtores de uma nova indústria, a indústria cinematográfica. Usaram-na para retratarem os índios, já totalmente incapazes de se defender, através de um espelho deformador, como “os maus da fita”, em numerosos filmes de “coboiadas”. E mesmo num filme como “Dança com Lobos”, que pretende ser politicamente correcto, quem é o herói senão um homem branco? Onde está o filme em que os heróis sejam os índios? Pelo contrário, há sempre o cuidado de mostrar que os índios “não eram nenhuns santos”. É verdade, não eram santos. Eram seres humanos. Bastante mais humanos do que os seus carrascos. Fiéis seguidores de uma sábia ética, o que não sucedia com os caras-pálidas. Ser apenas humano não bastará para se ter direito à Terra? Seriam porventura santos aqueles que os liquidaram? Se só os santos merecessem a Terra, não ficaria ela completamente despovoada? Mas vejamos a quem, de entre todos, pertence a autoria dos actos mais satânicos.
A verdade é que os índios deixaram uma marca indelével no imaginário do homem branco do séc. XX, e isso conclui-se pela profusão de obras (filmes, livros de BD, etc.) em que figuram. Eram simbolicamente tão ricos, o seu estilo de vida tão único e o seu destino foi tão trágico que passaram a constituir uma fonte inesgotável de inspiração. Infelizmente, o despeito e a má-consciência não têm permitido que a imagem oferecida seja a mais isenta. Mas a fascinação está lá.

Apsaroke



Aos índios que restam não foi dado um país como recompensa pelos danos sofridos. Não foi dada qualquer oportunidade de enriquecimento, de modo a criarem filmes e programas de televisão onde apregoassem o horror do seu genocídio e o proclamassem como o pior alguma vez praticado. Não, os índios foram tratados como pobres diabos, como “selvagens”, embebedados, sabendo-se que ofereciam pouca resistência ao álcool e confinados a "reservas" - terras inóspitas que ninguém desejava, onde reinava um frio impiedoso ou um calor infernal e a malária e outras doenças os vitimava mortalmente todos os dias. Os alimentos prometidos pelo governo, assim como agasalhos, muitas vezes não chegavam e ficavam condenados à morte por fome, doença e enregelamento. Embora os 'indios que restavam estivessem "pacificados" e se tivessem rendido, a política foi sempre as de os deixar morrer até à exterminação total. Continuaram a sofrer abusos, muitos anos após o final da sua resistência, como o demonstra a história pungente do marine Ira Hayes, um índio Pima, narrada no filme de Clint Eastwood “Bandeiras dos Nossos Pais” e cantada, entre outros, por Bob Dylan, na “Ballad for Ira Hayes”. Nas escolas, a história dos índios não faz parte dos programas. E, no entanto, que povo maravilhoso eles eram!



QUEM ERAM OS ÍNDIOS?


Altar índio


“No princípio todas as coisas estavam na mente de Wakonda. Todas as criaturas, incluindo o homem, eram espíritos. Moviam-se no espaço entre a terra e as estrelas. Andavam em busca de um lugar onde pudessem tomar uma existência corporal. Ascenderam até ao Sol, mas o Sol não era adequado para nele viver. Mudaram-se para a Lua e viram que também não era boa para fazer dela a sua morada. Então desceram à Terra. Viram que estava coberta de água. Flutuaram pelo ar dirigindo-se para norte, o este, o sul e o oeste e não encontraram terra seca. Sentiram-se sumamente penalizados. Mas logo da água surgiu um grande rochedo. Estalou em chamas e as águas ascenderam pelo ar sob a forma de nuvens. Apareceu a terra seca; cresceram as ervas e as árvores. A multidão de espíritos desceu e converteu-se em seres de carne e osso. Alimentaram-se das sementes das plantas e dos frutos das árvores. E a terra vibrava com as suas expressões de alegria e gratidão para com Wakonda, o criador de todas as coisas.” (ensinamentos da Sociedade do Guijarro, segundo Wakidezhinga, um antigo chefe).

Blackman, Arapaho

Quem eram os índios? Os índios eram grandes estetas. Outorgavam um revestimento estético de uma expressividade insuperável ao jogo perpétuo com o sofrimento e a morte que era a sua vida. Para eles, o valor de um homem media-se segundo a sua estatura moral. Daí a importância da acção, do agir. O índio repousava no fundo de si mesmo e traduzia depois essa rocha secreta numa acção fulgurante. "Na vida do índio havia apenas um dever ineludível – o dever de orar, o reconhecimento diário do Invisível e do Eterno. As suas devoções diárias eram-lhe mais necessárias do que o alimento diário. Desperta ao amanhecer, calça os seus mocassins e baixa-se à beira da água. Ali se deita água clara e fria sobre a cara, ou submerge nela o seu corpo. Depois do banho, permanece de pé perante o amanhecer que ascende, frente ao Sol que baila no horizonte, e oferece a sua oração sem palavras. A sua companheira pode precedê-lo ou segui-lo nas suas devoções, mas nunca o acompanha. Cada alma deve encontrar-se com o sol da manhã, a nova e doce terra e o Grande Silêncio a sós!" (Ohiyeasa, Sioux Santee).


Apache lavando-se à beira-rio

Esse poder, esse domínio de si, não impedia o índio de permanecer humilde perante o Grande Mistério. E Este comunicava com ele através da natureza que o rodeava. A natureza era vista como uma mensagem do Grande Mistério. “Todas as coisas quando se movem, de vez em quando, aqui e ali, detêm-se. O pássaro, quando voa, detém-se num lugar para fazer o ninho e num outro para descansar do seu voo. Um homem, quando caminha, detém-se aonde quiser. Assim se deteve o deus. O Sol, que é tão brilhante e formoso, foi um dos lugares no qual se deteve. A Lua, as estrelas e os ventos são coisas com as quais esteve. As árvores, os animais, são todos lugares onde se deteve. E o índio pensa nesses lugares e envia aí as suas orações para que cheguem ao lugar onde o deus se deteve, a fim de obter ajuda e protecção.” (um chefe dos Sioux Oglala). A terra era a sua mãe. Nascera dela e sobre ela vivera e dela se alimentara. Preferia ter nascido em pleno reino da terra, com as suas montanhas e rios, a ter nascido fechado num palácio de ouro. O seu amor pela terra nunca esmaecia. Pelo contrário, ia-se acentuando com a idade, gostando cada vez mais de se sentir em contacto com a Grande Mãe. Todas as suas maravilhas, animais, plantas, rios, árvores eram vistos como dádivas do Grande Espírito. Daí que não fosse natural ao índio sentir hostilidade perante fosse o que fosse, muito menos perante outros seres humanos, seus irmãos, como ele filhos da mãe terra.
Esta posição em face da natureza é radicalmente diferente da adoptada na cultura ocidental. Nesta, o mundo exterior, reduzido a abstracção, é visto como um mero objecto domável em face de um sujeito “dono e senhor da Natureza” (René Descartes). Estabelece-se uma dicotomia profunda entre o “eu” e o “mundo exterior”. Ora, o universo do índio era sobretudo poético. O seu pensamento funcionava por analogia e as similitudes que encontrava entre si e o mundo proporcionavam-lhe um genuíno gosto pela vida e um frequente sentimento de plenitude. A relação de profunda harmonia com a natureza só foi quebrada com a chegada do homem branco.
Por tudo isto, o índio incorreu num erro de julgamento que se revelaria fatal. Julgou que o homem branco, tal como ele, índio, buscava apenas a utilização das terras e não a posse das mesmas. Daí que estivesse disponível para as partilhar, uma vez que as considerava serem de toda a gente e de ninguém. O índio desconhecia o conceito de propriedade privada da terra. Ora, o homem branco encarava a posse da mesma como uma questão decisiva e estava disposto a massacrar aqueles que via como seus detentores. A natureza era, para ele, um obstáculo e o seu ponto de vista era sempre o do proveito: a floresta servia para conseguir madeira, os animais para se lhes retirar a pele e até os índios só poderiam existir se fossem aproveitados para o Exército do Senhor pelos Jesuítas, Dominicanos e Puritanos.

Menina Umatilla

"Os Lakota de antigamente eram sábios. Sabiam que o coração do homem que se afasta da natureza se torna duro. Sabiam que a falta de respeito pelas coisas vivas e que crescem depressa desemboca numa falta de respeito pelos seres humanos. Por isso, manteve sempre as suas crianças próximas da suavidade da sua influência. "(Luther Standing Bear – Luther Urso Erecto – chefe Sioux Oglala)

Os índios, porém, não aceitavam facilmente a religião que lhes propunham. Red Jacket (Casaca Vermelha, ou Sagoyewatha), o chefe Séneca, esclareceu a razão pela qual recusara a um missionário cristão que permanecesse entre o seu povo: “Dizem-nos que a vossa religião vos foi dada pelos vossos antepassados, e foi transmitida de pai para filho. Nós também temos uma religião que nos foi dada pelos nossos antepassados e que nos foi transmitida a nós, seus filhos. Nós veneramo-la deste modo: ensina-nos a agradecer por todos os favores que recebemos; a amarmo-nos uns aos outros e a ser unidos. Nunca discutimos sobre religião, porque é um assunto que diz respeito a cada homem e ao Grande Espírito. Irmão, nós não desejamos destruir a tua religião ou retirá-la de ti; só queremos fruir da nossa.”



Dança medicinal Arikara


O universo mágico-poético do índio fazia com que ele não estabelecesse uma diferença essencial entre a realidade exterior e os sonhos ou visões. É óbvio que os sabiam distinguir mas não os valorizavam de diverso modo e consideravam que ambos tinham equivalente valor indicativo. “Em certa ocasião, o meu avô, Knife Chief (Chefe Punhal), contou-me uma história da época em que o grande Chefe Crazy Horse (Cavalo Louco) foi em busca de uma visão a Bear Butte, nas Black Hills (Montanhas Negras). Quando Cavalo Louco regressou, disse ter aprendido que um dia haveria guerras terríveis em todo o mundo. Cavalo Louco descreveu fielmente a forma física do mundo falando de onde saía o sol, de como se põe e logo volta a sair. Portanto, devia ter sabido que a Terra era redonda. E disse que um dia haveria combates e grandes fogos por todo o mundo. O povo sofreria e as nossas mulheres chorariam. Por toda a parte os homens seriam brutais para com as mulheres. Mas, no fim, Deus viria à Terra para a julgar.” (Fools Crow, Sioux Teton). Era neles natural o respeito pela terra, pelos rios, pelos animais e pelos outros homens, incluindo os seus inimigos na guerra. Tudo fazia parte de uma única irmandade inserida no mesmo todo profundamente significativo, profundamente sagrado. O Grande Mistério que permeava toda a existência encarnava em diversas entidades, como Wakanda para os Lakotas e Cheyennes e Manitou para os povos do nordeste, todas elas próximas do Homem, palpitando no seu quotidiano e na natureza em redor. Black Elk (Alce Negro) homem-medicina dos Sioux Lakota, dizia: “Devemos compreender bem que todas as coisas são obras do Grande Espírito. Devemos saber que Ele está dentro de todas as coisas: das árvores, das ervas, dos rios, das montanhas e de todos os quadrúpedes e povos alados. E, ainda mais importante, devemos compreender que Ele está também por cima de todas estas coisas e povos. Quando compreendermos tudo isto profundamente nos nossos corações, então respeitaremos, amaremos e conheceremos o Grande Espírito. E então seremos, actuaremos e viveremos como Ele quer.”

Sacerdote Serpente


Os famosos tótemes não representavam animais divinizados, mas animais profundamente estimados com quem os índios se sentiam em irmandade essencial. A comunhão com os animais era também demonstrada através de danças rituais, não para tentar a comunicação com um deus, mas para, por exemplo, facilitar a chegada das manadas de bisontes: “Se os homens procurassem fazer o seu melhor para se tornarem dignos daquilo pelo qual se sentem tão atraídos, poderiam ter sonhos que purificassem as suas vidas. Que um homem decida qual é o seu animal favorito e faça um estudo dele, e aprenda os seus hábitos inocentes. Que aprenda a compreender os seus sons e movimentos. Os animais querem comunicar-se com os homens.” (Bisonte Bravo, Sioux Teton).


Corvo medicinal - Apsaroke


Os planos material, espiritual e poético fundiam-se numa única verdade. A sintonia com o universo tornava os índios adaptáveis, maleáveis, capazes de se comportarem tanto de forma estóica como de forma epicurista, dependendo das circunstâncias. Sabiam ser graves sem se tornarem macambúzios e alegres sem se tornarem alarves.
Aqueles que estavam incumbidos de presidir à relação do mundo visível com o mundo invisível, agindo também por vezes como diplomatas e orientando os rituais e as festas, eram os homens-medicina (erroneamente chamados “feiticeiros”). Alguns utilizavam alucinogénios de modo a interpretar as visões que daí decorriam: “Falamos com Wanka-Tanka e estamos certos de que nos ouve. Todavia, é difícil explicar o que cremos sobre isto. É crença geral entre os índios que, depois da morte de um homem, o seu espírito fica em alguma parte da terra ou do céu. Não sabemos onde exactamente, mas estamos certos de que o seu espírito ainda vive… Mas eles (os espíritos) nunca nos vêm falar, excepto, talvez, nos nossos sonhos, quando dormimos. Também assim sucede com Wanka-Tanka. Cremos que está por toda a parte e, todavia, age para nós como os espíritos dos nossos amigos, cujas vozes não podemos ouvir.” (Mato-Kuwapi – Perseguido-Pelos-Ursos - Sioux Santee-Yanktonai). A inter-penetração do sonho e da realidade, presente no mundo mental dos índios, torná-los-ia extremamente vulneráveis ao álcool, o que depressa seria aproveitado pelos colonos brancos.


Invocação ao Grande-Espírito


Por vezes, em circunstâncias especiais, os homens-medicina tornavam-se chefes. Estes podiam ser de guerra ou civis mas, como era o conselho tribal quem tomava as grandes decisões, na verdade a sua tarefa era a de o representar. Isso garantia-lhe o respeito e a obediência. A sua liderança só era incontestável em caso de batalha. E as batalhas eram limitadas, circunscritas a grupos. Significa que jamais se procurava a extinção dos adversários. A qualidade e não a quantidade decidia o acto guerreiro digno de louvor. E o que conduzia os índios à batalha? A honra, a vingança e o abuso da entrada em territórios de caça. Não que considerassem tais territórios como seus, mas apenas que estavam a ser utilizados por eles. Os índios foram incapazes de perceber, durante demasiado tempo, que os brancos desejavam a posse exclusiva do vasto território que é hoje os Estados Unidos. Era uma ideia que lhes parecia tão demente que nem sequer a consideraram. A terra era encarada como um lugar que partilhavam com os outros homens, os animais, as árvores, os rios e montanhas, os desertos e as tempestades. Não tinha uma carga política. A primeira terra foi cedida pelos índios em 1625, por Samoset, dos Pemaquid, no que é hoje o estado de Nova Inglaterra. Mas Samoset comentou: “Samoset sabia que a terra vem do Grande Espírito, é tão infinda como o céu e não pertence a nenhum homem. Para aplacar o humor destes estranhos com os seus estranhos modos, porém, ele participou numa cerimónia de transferência de terra e deixou a sua marca num papel.”


Homem-Medicina Navajo


OS CARAS-PÁLIDAS

“Era uma grande terra, uma extensa terra como a terra do leste, uma terra sem serpentes, uma terra rica, uma terra doce. Grande-Guerreiro mandava, na direcção do norte. Na fronteira da direita, era o Enamorado do Rio quem era chefe. Enriquecido, era chefe na terra do sassafrás… Afável era chefe, fez as pazes com todos. Todos eram amigos, todos unidos debaixo desse grande chefe. Grande Castor era chefe, permanecendo na terra do sassafrás. Corpo Branco mandava na fronteira. Pacificador era chefe, amistoso com todos. Aquele-que-se-Equivoca era chefe, vinha depressa… O-que-Vem-como-Amigo era chefe; foi a todos os Grandes Lagos, visitando todos os seus filhos, todos os seus amigos. Comedor de Arandos era chefe, amigo dos Ottawas. Marcha-para-o-Norte era chefe; organizou as festas. Convocador Lento era chefe na fronteira… Caranguejo Branco era chefe; um amigo da fronteira. Vigia era chefe; olhava para o mar.
Nesse tempo, do norte e do sul, vieram os brancos. São pacíficos. Possuem imensas coisas. Quem são?”
(Delaware, Algonquinos orientais)


Sentinela

Os ingleses que fundaram Plymouth só conseguiram sobreviver porque os índios os auxiliaram. Os Algonguins forneceram milho aos colonos a quem a fome e o frio matava e ensinaram a cozinhá-lo e a semeá-lo. Reduzidos a metade, mas sobreviventes, os colonos começaram então a expandir-se, isto é, a abater árvores e a expulsar os índios para lá de uma fronteira que se alargou cada vez mais. É que o conceito de terras indígenas dos colonos provinha das monarquias europeias do período da expansão: equivalia ao de terras não ocupadas por população cristã e que podiam, portanto, ser anexadas como se se tratasse de territórios desertos. Ignoravam pura e simplesmente a existência dos não-cristãos. Ou seja, ao invés de construir um verdadeiro Novo Mundo, os colonos transportavam consigo todos os preconceitos, hábitos e modos de vida da terra que os expulsara. Estavam determinados a vencer, como numa vingança contra o passado. E acabaram por fazer, elevado ao máximo expoente, aquilo que lhes haviam feito a eles: a expulsão e marginalização dos inocentes índios. Estes permaneceriam corpos estranhos, a não ser que renunciassem ao seu próprio modo de vida e aceitassem o dos brancos, apesar de todas as suas contradições internas deste último.
Mas os índios não eram domesticáveis. Não estavam dispostos a aceitar a religião que lhes atiravam à cara como uma obrigatoriedade. Poucos e só por desespero, o fizeram. Foi devido ao facto de os índios serem indomáveis que os brancos recorreram à introdução da escravatura negra na América. Os índios recusavam os trabalhos forçados. Por isso, a resposta dos brancos perante eles passou a localizar-se na ponta das espingardas.


Little Siouk- Arikara


Os recém-chegados europeus queriam terras para se instalarem e expandirem. Daí a lentidão inicial do aniquilamento. Ao invés, o rápido aniquilamento de Incas, Aztecas e Mayas, por parte dos espanhóis, deveu-se ao facto de estes últimos pretenderem os seus metais preciosos.
As colonizações inglesa, holandesa, espanhola e francesa diferiram nos seus métodos. O período francês foi o menos nefasto para os índios. Os franceses foram capazes de uma relativa boa vizinhança com eles. Reconheceram que os índios eram seres hospitaleiros, honestos e fiéis amigos. No entanto, também os franceses os atraiçoariam. Afinal, a boa vizinhança acontecia porque a França não possuía interesses tão agudos no Novo Mundo quanto a Inglaterra e a Espanha. Interessava-se ali apenas pelas trocas comerciais e não estava disposta a mobilizar um exército significativo e a enviá-lo para lá.
A dominação espanhola e inglesa, essa, foi desnecessariamente cruel e sanguinária. A febre do ouro e a febre territorial que os dominava justificou a seus olhos toda a acção tomada contra os índios. Panfillo de Nervaez e Vasquez de Coronado, que atravessaram a Carolina, o Arkansas e o Arizona no séc. XVI, costumavam abater gratuitamente índios pacíficos que vinham ver as tropas passar – apenas para praticarem a pontaria. Quanto aos ingleses, exploraram as rivalidades entre tribos, aproveitando-se delas para prosseguir o sujo trabalho de exterminação.
A mentalidade poética dos índios chocava-se amiúde com o fanatismo espanhol e com a frieza anglo-saxónica. Revoltados, os Powatan (Algonquins) atacaram Jamestown, poucos anos após a chegada dos primeiros colonos ingleses. Como retaliação pela “rebelião”, sete mil deles foram mortos nesse ataque e em represálias subsequentes. Em Plymouth, o cenário foi semelhante. Os primeiros contactos foram enganosamente amigáveis mas depressa se desencadeou a ocupação de terras e a assinatura dos primeiros tratados ardilosos de “venda”. Os colonos chegaram a criar um “rei” nativo que, em troca, deveria manter o seu povo tolerante para com os brancos, o “Rei Phillip”, Metacom, da tribo Algonquim dos Wampanoags, filho de Masassoit. Metacom tentou cumprir a sua parte, apesar de, em 1637, John Mason ter matado 600 pessoas – de todos os sexos e idades – de uma aldeia de Pequots.
Em face de mais uma traição, Metacom comandou um levantamento de Wampanoags, Narragansetts e outros grupos Algonquins. Com os seus arcos e flechas, atacaram cerca de 50 acampamentos brancos, tendo destruído doze. A guerra prolongou-se então durante meses. Mas as armas mais poderosas venceram. Os Wampanoags e os Narragansettes foram dizimados pelos colonos. A cabeça de Metacom ficou em exposição pública em Plymouth durante 20 anos.
No princípio do séc. XVII, chegaram os sempre intrometidos holandeses. Por cerca de 24 dólares em anzóis de metal e contas de vidro, compraram a ilha de Manhattan. Em breve nascia Nova Amesterdão, rebaptizada Nova Iorque pelos ingleses quando a conquistaram em 1664. Os holandeses não perderam tempo a armar tribos índias contra os ingleses e a imiscuírem-se nas disputas entre Algonquins Moicanos e os seus inimigos tradicionais, os Mohawks Iroqueses. Os jogos de guerra, portanto, levaram a que os índios começassem a receber armas de fogo.
O governador Willem Kieft, como represália pela morte de 4 soldados holandeses, ataca duas aldeias índias, pela calada da noite, quando a população dormia, e assassinou-os a tiro, baioneta e fio de espada. E, “civilizadamente”, leva para Manhattan, como troféu, 80 cabeças de homens, mulheres e crianças, além de fazer torturar até à morte um prisioneiro, que foi esfolado vivo, arrastado pelas ruas e, por fim, decapitado. Os índios desconheciam a prática da escalpelização e era impensável, para eles, assassinar mulheres e crianças. Um verdadeiro homem nunca poderia descer tão baixo.



Chefe de guerra- Atsina


Os franceses conseguiram que os Algonquins se tornassem seus aliados até ao fim. Em troca, auxiliaram-nos na luta contra os Iroqueses. Em consequência, estes últimos aliaram-se aos ingleses. Na década de 1760, Pontiac, chefe dos Algonquins Ottawas, uniu as tribos da região dos Grandes Lagos e tentou repelir os ingleses para leste. Os franceses auxiliaram-nos, visto que os colonos se aproveitavam das lutas intestinas entre tribos índias para, por sua vez, se combaterem uns aos outros. No entanto, os “amigos” franceses abandonaram os Ottawas em Detroit. Os Ottawas acabaram por ser totalmente esmagados. E os “civilizados” ingleses também em nada alteraram a sorte mofina dos índios da região.
A má fama dos rostos-pálidos começa a espalhar-se por todo o leste da América do Norte.
Os Iroqueses, aliados dos ingleses, não tiveram melhor sorte, e isto apesar de serem leais ao ponto de se porem a seu lado contra as tropas britânicas, aquando da Revolução Americana. A Confederação Iroquesa assinou um tratado, em 1784, pelo qual concordava em ceder terras a oeste do estado de Nova Iorque, na Pensilvânia e no Ohio. Mas, mais uma vez, a traição aguardava-os. A expansão branca extravasou os limites fixados e sucederam-se os massacres de índios. Estes, por sua vez, responderam com a chacina de brancos. O mais importante chefe iroquês foi Red Coat (Casaca Vermelha). Mas acabou como os seus antecessores, contemporâneos e sucessores: vencido. Os poucos Iroqueses que sobreviveram fugiram para norte, sul ou oeste ou foram culturalmente destruídos, “assimilados” ou internados em “reservas”, longe do seu território ancestral.



Antilope Cap (Gorro de Antílope)



“AS 5 TRIBOS CIVILIZADAS”


“Quando eu era rapaz, vi o homem branco lá longe e disseram-me que era meu inimigo. Não poderia disparar contra ele como contra um lobo ou um urso e, no entanto, veio ele até mim. Tirou-me o meu cavalo e os meus campos. Disse que era meu amigo. Deu-me a sua mão em sinal de amizade. Eu segurei-a, mas ele trazia uma serpente na outra. A sua língua bifurcava-se. Mentiu-me e ferrou-me. Supliquei por apenas uma pequena parcela desta terra, suficiente para cultivar e viver no sul – um local onde pudesse espalhar as cinzas dos meus familiares – um local onde a minha mulher e filho pudessem viver. Mas isso não me foi dado. “ (Wild Cat – Gato Selvagem – chefe Seminola, após a sua rendição, em 1858.)


“As 5 tribos civilizadas” eram os Seminolas, Creeks, Chickasaws, Choctaws e Cherokees. Esse epíteto não se devia, obviamente, ao facto de lhes ser reconhecido qualquer grau que fosse de civilização mas, sim, ao facto de se terem facilmente adaptado à “única” civilização, a dos brancos. Foram tribos que concluíram que não poderiam defrontar os brancos com êxito e, portanto, tentaram adoptar alguns dos seus costumes sem, contudo, perderem as raízes culturais. Mas isso não impediu o seu extermínio quase completo. Num esforço de adaptação, os Cherokees criaram uma Constituição, um alfabeto, escolas e jornais – mas de nada lhes serviu. Contrariando um tratado de 1794, foram obrigados a ceder terras, a recuar para oeste e a ficarem confinados a cerca de 28 mil quilómetros quadrados de solo montanhoso, na convergência da Geórgia, Carolina do Norte e Tenessee.
Em 1829, Andrew Jackson foi eleito presidente. Não demorou a fazer aprovar a Lei de Remoção dos Índios que foi aplicada mal se descobriu ouro nas terras dos Cherokees. 14 mil membros deste povo foram então “transferidos” para o Oklahoma. Percorreram milhares de quilómetros de distância a pé em pleno Inverno, durante meses. 4000 pessoas morreram então de fome, frio, exaustão e epidemias de cólera. Uma em cada quatro. Essa caminhada forçada ficou conhecida como “A Pista das Lágrimas”. Todavia, o presidente Van Burren afirmou no Congresso que “Os Cherokees emigram sem relutância aparente.”
As outras tribos “civilizadas” tiveram sorte idêntica. Após meses de luta, os Creeks foram aniquilados em 1814 pelas tropas comandadas por Andrew Jackson. Os Choctaws emigraram para o oeste, no Inverno, numa segunda “Pista das Lágrimas”. Os Chickasaws acabaram também por se submeter.


Menino Flathead (Cabeça Achatada)


Os Seminolas, esses, ofereceram maior resistência na Florida, que a Espanha cedeu aos EUA em 1819. O seu líder era o jovem Osceola (Asiyahola). Em 1835, mergulhou a sua faca no tratado que lhe era pedido para assinar e que obrigaria o seu povo a mover-se das terras pantanosas do sudeste para o território a oeste do Mississipi. Essa sua acção desencadeou uma guerra de sete anos nos pântanos da Florida contra as tropas federais. Os brancos acabaram por capturar Osceola à traição – quando ele empunhava uma bandeira branca da paz –, durante “conversações de tréguas”, em 1837. Foi preso no Forte Moultrie, na Carolina do Sul. Disseram a seu respeito: “Este homem galante está atormentado por um coração partido e preparado para morrer, amaldiçoando o homem branco, sem dúvida até ao seu último suspiro.” Pouco tempo depois, a malária matava Osceola. Mas a sua prisão e morte não afectou a resistência dos Seminolas. A guerra só terminaria em 1842, custando 1500 mortos às tropas. Algumas famílias Seminolas aceitaram a transferência para lá do Mississipi, mas a maior parte permaneceu nas suas terras, na Florida. Ainda hoje lá estão e são conhecidos como “a tribo que nunca se rendeu”.
Terminada a guerra aos Seminolas, a questão índia estava “resolvida” desde o Wisconsin, no norte, até à fronteira com o Texas. Mas as provações dos índios estavam longe do seu epílogo.



A CONQUISTA DO OESTE


“Nunca pensámos que as nossas vastas planícies abertas, as formosas colinas ondulantes e as sinuosas correntes com emaranhada vegetação fossem “selvagens”. Apenas para o homem branco a natureza era “selvagem”, e apenas para ele a Terra estava “infestada” de animais “ferozes” e gentes “selvagens”. Para nós era mansa. A terra era generosa e estávamos rodeados das bênçãos do Grande Mistério. Não foi “selvagem” para nós até que veio do leste o homem branco coberto de pêlos e com brutal delírio amontoou injustiças sobre nós e sobre as famílias que amávamos. Quando até os animais do bosque começaram a fugir ao seu avanço é que começou para nós o “Oeste Selvagem”. (Chefe Sitting Bear - Urso Sentado -, Sioux Oglala.)




Chefe Sitting Bear (Urso Sentado)


Após a meia-vitória contra os Seminolas, a cobiça dos brancos volta-se para a vasta área a oeste do Mississipi. A sua devassa não é, no entanto, linear, sobretudo devido à guerra entre o México e a América do Norte, que acaba com a vitória desta última em 1847. Desde o Texas à Califórnia, através do Novo México e do Arizona, abriam-se novos territórios. Começa a Grande Corrida ao Ouro. Descobrem-se os primeiros filões auríferos na Califórnia. Vagas humanas dirigem-se de imediato para lá e depois para norte – era o início da chamada “Conquista do Oeste”. Do México ao Canadá, da Serra Nevada e das Montanhas Rochosas aos limites ocidentais das Louisiana, Arkansas, Missouri, Iowa e Minesota, os pioneiros vão então defrontar-se com as mais célebres e aguerridas tribos do país: os Sioux, os Apaches, os Comanches, os Navajos, os Shoshones. Demonstravam inatas qualidades guerreiras e eram senhores dos grandes espaços, de savanas e desertos. Aí imperava o colossal bisonte e de tal modo que os nativos viviam naquilo que se chamou “a civilização do bisonte”. Aproveitavam tudo do formidável animal: a carne, a gordura, a pele, os ossos, os tendões.
Os Apaches, Navajos, Comanches e Sioux depressa se revelariam também exímios cavaleiros, deitando a mão aos cavalos abandonados pelos espanhóis que tinham trazido consigo esse animal havia muito extinto no continente. O cavalo tornar-se-ia uma das armas de guerra dos índios. Os brancos encontrariam adversários terríveis montados a cavalo. Mas o destino dos índios estava traçado e, por mais belicosos que se mostrassem, esperava-os a derrota.



Rapaz Navajo


Pés Negros, Cheyenne e Arapaho (Algonquinos ocidentais) – Na área oeste setentrional, desde Alberta até às Montanhas Rochosas, viviam os Pés Negros. Por volta de 1820, um inimigo trazido pelos caras-pálidas, mais letal do que as suas armas, começou a alarmá-los. Tratava-se da varíola. Os novos habitantes da América perceberam então que os índios sucumbiam a doenças para eles relativamente benignas. Mais tarde, os arautos da “civilização” aproveitar-se-ão desse conhecimento e disseminarão deliberadamente várias doenças por entre as tribos. Não lhes bastando a ininterrupta cadeia de promessas quebradas, de assassínios, de massacres, de venda de crianças como escravas, de negociações injustas e traição, os novos senhores, num estranho gesto para quem apregoava a caridade cristã, enviariam deliberadamente cobertores contaminados com varíola para os índios presos numa “reserva”, que os haviam pedido, queixando-se de demasiado frio. Uma verdadeira arma bacteriológica.
Em 1836, a primeira grande epidemia de varíola matou 75% da população dos Pés Negros, originalmente constituída por umas 15 mil almas. Em 1845 e 1857, repete-se o flagelo. Dos 25% restantes escapou um terço. Destes, uma parte rumou ao Canadá e outra foi confinada a uma “reserva”, a norte do estado de Montana. Mas, mesmo aqui, uma força militar atacou-os. Os sobreviventes, passado um ano, foram outra vez varridos pela varíola. Considerou-se que os Pés Negros estavam “pacificados”.
Na confluência do Wyoming, Colorado e Nebraska, viviam os Arapaho e os Cheyenne, do ramo Sioux. A sua maior desgraça chegou em 1848-49, com as caravanas de famílias pobres, aventureiros e criminosos fugidos à justiça – todos em busca de fortuna na Califórnia, onde se havia descoberto as minas de ouro. As terras onde viviam foram ocupadas e devassadas. Tentaram retaliar, atacando as caravanas, mas o Exército interveio com a costumeira brutalidade.


Guerreiro Cheyenne


Em 1864, um destacamento surpreendeu uma aldeia Cheyenne. Assassinou cerca de 150 pessoas de entre as quais uma centena eram mulheres e crianças. Não contentes com a chacina, as vítimas foram escalpeladas e o que delas restou foi exibido num teatro de Denver. Nesse Inverno de 1864, as tribos Piegan e Cheyenne perderam 1780 membros. Um agente índio relatou: “Só os Blood deixaram em pé no seu acampamento varrido pela peste 500 moradas da morte como monumentos silenciosos da devastação do Inverno.”
No ano seguinte, o chefe Cheyenne assinou um tratado com o general William Selby Harney que garantia às tribos um território vasto e fértil, longe da via-férrea em construção. Mas as caravanas de colonos atravessavam impunemente esse território, pondo os bisontes em debandada. Os índios protestaram. Resposta dos americanos? A anulação pura e simples do tratado assinado. Cheyennes e Arapaho não tiveram outro remédio se não desenterrar mais uma vez o “machado de guerra”. Lobo Pequeno e Faca Embotada comandaram os Cheyenne por mais de uma década. Vergados, porém, pelo indizível sofrimento do seu povo, tiveram de aceitar a paz. Impuseram-lhes nova transferência, para sul. Tendo recusado, foram internados e privados de alimentos, até aceitarem as condições. Dois dias depois, revoltados, os índios amotinaram-se no campo de concentração. Muitos foram os mortos mas alguns conseguiram fugir. Os soldados capturaram 61 prisioneiros e mais de uma vintena de fugitivos esfomeados e esgotados. Lobo Pequeno e um grupo de guerreiros conseguiram refugiar-se nas Montanhas Negras. Certo dia, um batedor índio comunicou-lhe que um oficial branco desejava falar-lhe. Tratava-se de B.W. Clark. Este disse-lhe que o Governo de Washington tinha acedido ao desejo dos Cheyenne de permanecerem nas terras dos seus antepassados. Naquela altura, porém, já não restava à face da Terra senão pouco mais de uma centena de Cheyenne. Até o jornal Daily Herald, de Omaha, no Nebraska, comentou: “Este caso dos Cheyenne é uma vergonha para os Estados Unidos.”

Velho Cheyenne já encerrado numa "reserva", usando uma camisa ocidental


Nez Perces - Os Nez Perces (Narizes Furados - alguns usavam um anel no nariz) eram índios pacíficos que habitavam no Idaho ocidental. Tiveram também a pouca sorte de existir ouro no seu território, cuja posse lhes havia sido garantida pelos caras-pálidas. Mal isso se soube, o Governo ordenou a transferência dos habitantes. O chefe dos Nez Perces, Joseph, recusou. Seguiu-se a guerra. E a derrota. Os Nez Perces – que eram então 200 guerreiros e 600 mulheres e crianças – foram exilados para o Canadá. Mas a sua provação não terminara. No Canadá recusaram-lhes asilo e tiveram de recuar em direcção às armas das forças do governo. Joseph acabou por capitular, declarando: “Digam ao general Howard que eu conheço o seu coração. Estou cansado de combater. Os nossos chefes foram mortos. Looking Glass está morto. Toohulhulzote está morto. Os velhos homens estão todos mortos. Faz frio e não temos cobertores. As crianças enregelam até à morte. O meu povo, alguns deles fugiram para as montanhas e não têm cobertores nem comida. Ninguém sabe onde param – talvez gelando até à morte. Quero ter tempo para olhar pelos meus filhos e ver quantos consigo encontrar. Talvez os encontre entre os mortos. Escutem-me, meus chefes. Eu estou cansado. O meu coração está doente e triste. Em nome do Sol que brilha, juro que não me baterei mais.” O chefe Joseph cumpriu a sua palavra. Não se bateu, nem mesmo quando, após a rendição, ele e o seu povo foram enviados para Indian Territory, onde cinco dos seus filhos e muitos membros da tribo morreram de doença.



Chefe Joseph


Joseph também foi um dia a Washington e falou com o “Grande Chefe Branco”, o então Presidente Hayes. A sua declaração, como a de outros chefes índios, passou à posteridade: “Estou cansado de lutar. Todos dizem que são meus amigos e que eu terei justiça, mas enquanto todas essas bocas falam verdade, não compreendo por que é que nada se faz pelo meu povo. Ouvi falar e falar, mas nada foi feito. As boas palavras não servem para nada se não conduzirem a qualquer coisa. As palavras não pagam o meu povo morto. Não pagam o meu país agora percorrido pelos brancos. Não pagam os meus cavalos e o meu gado.
As boas palavras não me devolvem os meus filhos. As boas palavras não farão boas as promessas do vosso chefe de guerra, o general Miles. As boas palavras não darão saúde ao meu povo nem evitarão que morra. As boas palavras não darão ao meu povo uma casa onde ele possa viver em paz e tomar conta dele próprio. Estou cansado de palavras que não conduzem a nada. O meu coração adoece quando recordo as boas palavras e todas as promessas quebradas. (…) Houve demasiada conversa por parte de homens que não tinham o direito de falar. Fizeram-se demasiadas tergiversações; surgiram demasiados mal-entendidos acerca dos índios entre os homens brancos.
Se o branco quer viver em paz com os índios, pode viver em paz. Não é preciso haver complicações. Tratem todos os homens da mesma forma. Dai-lhes a todos a mesma lei. Dai-lhe a todos igual possibilidade de viver e crescer… Podeis esperar que os rios corram para trás tanto como que qualquer homem nascido livre se sinta contente preso, e com a liberdade de ir onde quiser negada. Se atam um cavalo a uma estaca, esperam que ele engorde? Se encerram um índio num pequeno troço de terra e o obrigam a ficar ali, não ficará contente nem crescerá ou prosperará. (…) Todos os homens foram feitos pelo mesmo Grande Espírito. São todos irmãos. A terra é a mãe de toda a gente e toda a gente deve ter os mesmos direitos sobre ela. (…) Apenas peço ao governo para ser tratado como todos os outros homens. Se eu não posso ir para a minha própria casa, deixem-me ter uma casa onde o meu povo não morra tão depressa. (…) Apenas pedimos uma oportunidade de viver como os outros homens vivem. Pedimos para ser reconhecidos como homens. (…) Deixem-me ser um homem livre, livre para andar, livre para trabalhar, livre para estar onde eu escolher, livre para escolher os meus próprios professores, livre para seguir a religião dos meus pais, livre para falar, pensar e agir por mim próprio – e eu obedecerei a todas as leis e submeter-me-ei a todas as penalidades. (…)”



Guerreiro Nez Perce



Guerreiro Nez Perce



Guerreiro Nez Perce


Sioux-Teton - A guerra chegou mais tarde ou mais cedo para todos os ramos da família Sioux (ou Lakota ou Dakota). Os Teton, ramo principal dos Sioux, aceitaram, em 1849, um tratado com as autoridades americanas, ao qual aderiram, dois anos depois, os restantes grupos Sioux. Aceitavam ceder as terras no Minnesotta e, em troca, o governo comprometia-se a que os brancos não tocariam no seu novo território, nem o retalhariam com os trilhos do “cavalo de ferro”. Mas seguiu-se, como sempre, o velho itinerário: violação dos acordos por parte dos brancos, provocações contra os índios e aumento da violência de parte a parte de modo a que a Cavalaria julgasse a intervenção inevitável.
Os Sioux passaram então à ofensiva no rio Minnesotta, alargando-a depois até ao Nebraska. O chefe Nuvem Vermelha reuniu cerca de três mil guerreiros para atacarem o caminho-de-ferro. Os generais Sibley e Sully ficaram encarregados da “pacificação”. A “pacificação”, mais uma vez, fez-se com artilharia, espingardas de tiro rápido e metralhadoras, a estreia desta então nova arma. Não há dúvida que, liquidando tudo em volta, se consegue imensa paz. Basta ir a um cemitério para o comprovar: reina um silêncio de morte.


Standing Bear (Urso Erecto), chefe Ponca

Sobre a retirada forçada das suas terras no Nebraska: “Dissemos-lhes que preferíamos morrer a abandonar as nossas terras. Mas nada pudemos fazer. Eles levaram-nos para baixo. Muitos morreram pelo caminho. Dois dos meus filhos morreram. Depois de termos alcançado a nova terra, todos os meus cavalos morreram. A água era péssima. Todo o nosso gado morreu. Então fugi com trinta membros do meu povo, homens, mulheres e crianças. Algumas crianças eram órfãs. Andámos na estrada durante três meses. Ficámos doentes e esfomeados. Quando alcançámos a Reserva Omaha, os Omaha deram-nos um pedaço de terra e nós despachámo-nos a cultivá-lo com trigo. Enquanto trabalhávamos, vieram os soldados e prenderam-nos. Metade de nós estava doente. Preferíamos ter morrido a ser levados de volta. Mas nada pudemos fazer."



Sete anos depois, desesperado, Nuvem Vermelha vê-se obrigado a aceitar novo acordo de paz. Desloca-se a Washington e avista-se com o presidente Ulisses Grant. Chega a ser homenageado, em 1870, com uma recepção no Cooper Institute. Nessa ocasião, pronunciou um célebre discurso, um dos célebres, belos e profundamente humanos discursos dos chefes índios: “O Bom Espírito fez-nos a ambos. Ele deu-vos terras e deu-nos terras. Vocês vieram para aqui e nós respeitámo-vos como irmãos. (…) Quando vieram, ao princípio, nós éramos muitos e vocês eram poucos, agora vocês são muitos e nós estamos a tornar-nos muito poucos, e nós somos pobres. Vocês não sabem quem aparece hoje aqui para vos falar. Eu sou um representante da raça americana original, o primeiro povo desta terra. (…) Eu represento a nação Sioux. (…) Olhem para mim. Sou pobre e nu, mas sou o chefe da Nação. Nós não queremos riquezas, mas queremos os nossos filhos ensinados e criados convenientemente. Procuramos a vossa compreensão. As riquezas não nos farão qualquer bem: não podemos levar para o outro mundo nada do que temos – nós queremos ter amor e paz. (…) Vocês têm filhos; nós temos filhos. Vocês querem criar os vossos filhos e fazê-los felizes e prósperos; nós queremos criar os nossos e fazê-los felizes e prósperos. Pedimos que nos ajudeis a fazê-lo.”
No entanto, as dignas palavras de Nuvem Vermelha em nada modificaram o modo de agir do governo. Começou a construção de uma via-férrea no território dos Sioux. O velho guerreiro “selvagem”, porém, manteve-se fiel ao tratado de paz e retirou-se com as suas tribos para uma “reserva” no Dakota do Sul.


Chefe Red Cloud (Nuvem Vermelha) na velhice

Mas novos chefes surgiam já no horizonte: Cavalo Louco (Crazy Horse), Lua Dura (Hard Moon), Cauda Manchada (Spotted Tail) e Touro Sentado (Sitting Bull). Com eles, as “guerras índias” atingiriam o auge. O lendário Cavalo Louco, belo e destemido Sioux Oglala, declarou: “Nós não vos pedimos, homens brancos, que viésseis para aqui. O Grande espírito deu-nos este país como morada. Nós não interferimos com os vossos assuntos. O Grande Espírito deu-nos terra suficiente para nela viver, e bisontes, veados, antílopes e outros animais de caça. Mas vós chegastes. Estais a tirar-me a minha terra, estais exterminando a nossa caça, de maneira que resulta para nós ser difícil viver. Agora dizeis que trabalhemos para viver, mas o Grande Espírito não nos fez trabalhar mas viver da caça. Vós, homens brancos, podeis trabalhar se o quiserdes fazer. Não vos impedimos e de novo dizeis: “Por que é que não se tornam civilizados?” Nós não queremos a vossa civilização! Viveremos como o fizeram os nossos pais e os seus pais antes deles”.

Spotted Tail (Cauda Manchada)


Sitting Bull

Sitting Bull (Touro Sentado), um dos maiores chefes índios de sempre, conduziu 900 seguidores até ao Canadá. Quando a caça começou a rarear nas planícies canadianas, centenas de Dakotas regressaram aos Estados Unidos. Restavam apenas cerca de 200 deles e Touro Sentado rendeu-se às autoridades americanas no Fort Buford, Dakota Territory, a 20 de Julho de 1881, pois o governo canadiano recusava-se a ajudá-lo. Ficou prisioneiro de guerra durante dois anos e regressou ao seu povo, na Reserva de Standing Rock em 1883. Ressurgiu então o culto da Dança dos Fantasmas - que preconizava o regresso dos índios assassinados e a sua reconquista da terra - e as autoridades recearam que fosse ele quem estivesse a incitar o povo. Mandaram-no prender. Dizendo que tentara escapar, assassinaram-no a 15 de Dezembro de 1890. O seu povo espalhou-se e alguns fugiram da “reserva”. Big Foot (Pé Grande), que também residia na mesma "reserva" - e que deveria suceder Touro Sentado no comando dos índios - e o seu bando de 350 Miniconju Lakota, foram rodeados por soldados da 7ª Cavalaria a 29 de Dezembro de 1890, e assassinados no Massacre de Wounded Knee.





(1875) Em pé: Red Bear (Urso Vermelho), Young Man Afraid of His Horse (Jovem Homem com Medo do seu Cavalo), Good Voice (Boa Voz), Ring Thunder (Trovão), Iron Crow (Corvo de Ferro), White Tail (Cauda Branca), Young Spotted Tail (Jovem Cauda Manchada). Sentados: Yellow Bear (Urso Amarelo), Jack Red Cloud (Jack Nuvem Vermelha), Big Road (Grande Estrada), Black Crow (Corvo Negro).

Apaches - No Arizona e no Novo México a guerra prolongar-se-ia. Os Apaches, os Navajos e os Comanches constituiram um sério obstáculo ao avanço americano para oeste. Eram tribos semi-nómadas, adeptas da deambulação e da rapina, sobretudo os Apaches. No México, em 1837, pagava-se um prémio a quem conseguisse o escalpe de um Apache.


Bebé Apache - 'pappoose'


Os índios do Texas e do Novo México depressa descobriram que os recém-chegados colonos americanos não diferiam muito dos odiados mexicanos. De facto, americanos e mexicanos uniram-se contra eles. Em 1871, o general George Crook consegue “pacificar” (já sabemos agora o real significado desta palavra) três mil Apaches, encerrando-os em “reservas”. Os que escaparam juntaram-se em torno do chefe Victorio e fizeram a vida negra aos americanos durante quase uma década, guerreando a norte e a sul do Rio Grande. Em 1880, porém, o exército mexicano matou Victorio. O comando passou então para as mãos do famoso Geronimo. Este era tão temido que o chamavam “o tigre de rosto humano”. Três anos depois, o General Crook capturou Geronimo e aprisionou-o numa “reserva”. Mas o bravo Apache conseguiu fugir e retomar a guerra. Miles sucede então a Crook e organiza cinco mil homens para tentarem vencer um número já muito reduzido de indomáveis índios. Em 1886, Geronimo acabou por render-se. De novo se viu numa “reserva”, na Florida, e depois numa outra, no Oklahoma.


Chefe Geronimo, "O Tigre de Rosto Humano"


Em 1887, promulgou-se o Dawes Act, o decreto de adjudicação geral de terras indígenas: os territórios reservados às tribos eram parcelados em propriedades privadas, cuja espoliação seria muito fácil por parte dos colonos. No ano seguinte, ante o Congresso, o senador Pendleton, do Ohio, emitiu um execrável ultimato aos índios através do qual exigia a sua assimilação: “Eles devem mudar o seu modo de vida ou então devem morrer. Nós podemos lamentá-lo, podemos desejar que seja de outra maneira, os nossos sentimentos humanitários podem chocar com esta alternativa, mas não podemos ocultar o facto de que se trata de uma alternativa e que esses índios devem mudar o seu modo de vida ou ser exterminados”. Eis aqui uma interpretação muito discutível, mas infelizmente muito seguida, do princípio “Todos os homens nascem iguais”. Parece significar “há que obrigar todos os homens a ser iguais a nós”! A prossecução deste objectivo corresponde a um empobrecimento alarmante da figura humana, uma figura cuja riqueza e cuja força é a plasticidade e a busca criativa. A pretensão de superioridade dos caras-pálidas é completamente desmentida através desta atitude de quem julga nada ter a aprender, mas tudo a ensinar! E nem sequer ensinar verdadeiramente, mas ensinar interesseiramente apenas para melhor poder domesticar.
Até tribos pacíficas Apaches, como os Chiricahua, foram aprisionadas, dispersas e internadas em “reservas”. Distantes das suas terras originais. A mortalidade entre estes Apaches nas “reservas” atingia o dobro do normal. A única acção tomada foi transferir os internados da Florida para o Oklahoma, quatro anos depois. E aí permaneceriam até 1914. O seu estatuto era o de “prisioneiros de guerra”, mesmo o dos bebés nascidos entretanto. Até um jovem Apache que se alistou no exército Americano e serviu nas fileiras regressou à sua reserva, já licenciado, como “prisioneiro de guerra”. O ridículo foi, portanto, levado muito longe.


Guerrreiro Apache



Em 1881, o Presidente Chester Arthur comentou: “Devemos enfrentar esta realidade terrível que é a de que milhões de vidas foram sacrificadas e centenas de milhões de dólares gastos para tentar resolver o problema índio e ainda não estamos mais perto de uma solução do que há meio século.” Alguma lucidez, por fim? Não me parece. A proximidade das expressões “milhões de vidas” e “centenas de milhões de dólares” desagrada-me, pois não são equiparáveis. Além disso, nunca houve um “problema índio”. Houve, sim, um “problema branco”, a cupidez doentia do homem ocidental hipocritamente mascarada de desejo de evangelizar e “civilizar”, abrindo caminho através da arrogância e do desrespeito.



Velho Apache encerrado numa "reserva"



O MASSACRE DE WOUNDED KNEE


Eu nasci na pradaria onde o vento soprava livre e nada havia que quebrasse a luz do sol. Eu nasci onde não havia cercas e onde tudo exalava um sopro livre. Quero morrer lá e não entre paredes. (Ten Bears – Dez Ursos)
Nas Badlands

O “problema índio” seria “resolvido”, se alargarmos o significado de “resolver” até ao absurdo. A vitória índia mais espectacular deu-se em 25 de Junho de 1876, quando o general George Custer e o seu 7º Regimento de Cavalaria se lançou sobre um vasto acampamento Cheyenne, Oglala e de outros Sioux. Eram 10 000 a 15 000 pessoas acampadas junto do rio Little Bighorn. Atraído a uma emboscada, o batalhão de Custer foi completamente destroçado por índios munidos apenas com arcos, flechas, machados de guerra e umas poucas espingardas. Comandava-os o indomável Cavalo Louco, estratega genial e o mais resistente opositor do domínio americano que os colonos encontraram. Mas essa resistência não podia manter-se. Furioso, outro general, Phillip Sheridan, profere uma frase infame que se tornaria célebre: “Os únicos índios bons que já vi estavam mortos.” Os “bons” dos caras-pálidas transformaram então essa frase num dito popular: “O único índio bom é um índio morto” frase que, muitas décadas depois, seria adaptada para “O único vietcong bom é um vietcong morto”. É comovente, a bondade destes juízes de almas. É de fazer chorar as pedrinhas da calçada.
O “bom” general Sheridan – herói da guerra civil – teve então uma ideia brilhante. Acabar com índios, “para deixar que a civilização avance”, exterminando o seu meio de subsistência: o bisonte. Chama-se a isto matar dois coelhos de uma cajadada. E eis que se afirma o famoso Buffalo Bill. Só ele, ao serviço das companhias rodoviárias, matou 4280 bisontes. Billy Tilgham abateu 3330 bisontes em sete meses. Vic Smith liquidou 5000, com um recorde de 107 mortos em apenas uma hora no mesmo local. A previsível consequência não se fez esperar. O declínio dos índios da planície acentuou-se de forma dramática.

Índio "bravo" Nambe
"Nada mais somos do que pequenos rebanhos espalhados de bisontes. As grandes hordas que outrora cobriram a planície já não existem. Vejam – o homem branco assemelha-se a gafanhotos quando voam em enxames tão densos que todo o céu é uma tempestade de neve. Podem matar um, dois, dez. Sim, tantos quantos as folhas daquela floresta, que os seus irmãos não sentirão a sua falta. Matem um, dois, dez, e dez vezes virão matar-te a ti. "Braves", vocês são crianças – vocês são tontos. Morrerão como coelhos quando os lobos esfomeados os caçam em Hard Moon. Taoyateduta não é um cobarde. Ele morrerá com vocês.”( Little Crow – Pequeno Corvo, ou Taoyatedula – chefe Dakota Sioux) Após a insurreição, 392 homens Dakota foram julgados e 307 condenados à forca como vingança pelos brancos que haviam sido mortos. Acabaram por enforcar 38, sem julgamento, a maior parte dos quais aleatoriamente - um deles havia ajudado uma mulher branca a esconder-se - mas os que escaparam à forca morreram de doença na cadeia. Little Crow e o seu bando fugiram para oeste. Regressou depois ao Minnesota com um pequeno destacamento. A 3 de Julho de 1863, enquanto colhia bagas com o seu filho, foi assassinado pelo fazendeiro Nathan Lamson e o seu filho Chauncey que receberam um prémio pelo escalpe de 75 dólares mais um bónus de 500 dólares por terem livrado o Minnesota de Little Crow.


Os Sioux sucumbiram. Em 29 de Dezembro de 1890, na sequência do assassinato de Sitting Bull (Touro Sentado) devido ao ressurgimento da Dança dos Fantasmas, Big Foot (Pé Grande), outro chefe confinado na mesma "reserva", tentou fugir com umas escassas centenas de índios, sobretudo mulheres e crianças, para ir ter com Red Cloud (Nuvem Vermelha) e pedir-lhe conselho. Num acto gratuito, pois o declínio dos Sioux era evidente, o mesmo 7º Regimento de Cavalaria, então comandado pelo major Samuel Whitside, aprisiona-os, fracos e à beira da rendição. O chefe Big Foot (Pé Grande) era velho e estava extremamente doente, com pneumonia. O frio era tanto que o sangue que lhe pingava do nariz enregelava imediatamente. Mas tiveram de empreender a viagem até ao forte. Por incrível que pareça, porém, já no campo de internamento, quando os índios entregavam as suas armas, os soldados americanos abriram fogo. Primeiro um tiro, depois outro e, num ápice, uma chuva de tiros espalhou o pânico entre os índios. Durante uma hora, o massacre prosseguiu. Então, reinou um enorme silêncio. Trezentas pessoas, homens, mulheres e crianças haviam sido assassinadas. Rapazinhos que os soldados haviam visto a esconder-se foram instigados a mostrarem-se para sobreviver. Os rapazinhos sairam dos seus esconderijos. Foram todos mortos. Depois, os soldados abriram uma grande vala e atiraram para lá os cadáveres enregelados, entre os quais se encontrava o do chefe Big Foot (Pé Grande). Este foi o Massacre de Wounded Knee, pois aconteceu junto a um riacho chamado Wounded Knee, no Dakota do Sul. E foi o fim da resistência dos índios, outrora habitantes de todo um continente.
Black Elk (Alce Negro), que se tornaria o homem-medicina dos Sioux Oglala, contava apenas treze anos na altura da batalha de Little Bigorn. Muitos anos depois, encerrado numa “reserva”, comentaria sobre o Massacre de Wounded Knee: “Eu estava então de pé sobre a montanha mais alta de todas e, por debaixo de mim, em meu redor, estava todo o aro do mundo. E enquanto ali estava vi mais do que posso expressar. Porque via de maneira sagrada a forma de todas as coisas no espírito, e a forma de todas as formas tal como devem viver juntas como um só ser. E vi que o aro sagrado do meu povo era um de muitos arcos que formavam um círculo, amplo como a luz do dia e o resplendor das estrelas, e que no centro crescia uma imensa árvore florida que abrigava todos os filhos de uma mãe e um pai. E vi que era sagrado. (…)
Tudo o que faz o Poder do Universo fá-lo em forma de círculo. O céu é circular e ouvi dizer que a Terra é redonda como uma bola e que também as estrelas são redondas. O vento, na sua força máxima, forma um remoinho. Os pássaros fazem os seus ninhos em forma de círculos, pois têm a mesma religião do que nós. O sol sai e põe-se em círculo, como a lua, e ambos são redondos. Até as estações formam um círculo enorme na sua mutação e voltam sempre para onde estiveram. A vida de um homem é um círculo de infância a infância e o mesmo ocorre com todas as coisas onde o poder reside. Os nossos tipis eram redondos como ninhos de pássaros e dispunham-se sempre em círculo, o aro da nação, ninho de múltiplos ninhos, no qual o Grande Espírito desejava que nós chocássemos os nossos filhos. (…)

Homem-medicina Sioux (Dakota)

Os Wasichus (homens brancos) puseram-nos nestas casas quadradas. O nosso poder foi-se e estamos a morrer, porque o poder já não está em nós. Podeis olhar para os nossos rapazes e ver o que nos está a suceder. Quando vivíamos sob o poder do círculo na forma devida, os rapazes tornavam-se homens aos doze ou treze anos. Mas agora precisam de muito mais tempo para amadurecer. Bem, é como é. Somos prisioneiros de guerra enquanto aguardamos aqui. Mas existe um outro mundo. (…)
Não sabia então o quanto morreu então (em Wounded Knee). Quando olho para trás agora a partir desta alta colina da minha velhice, ainda posso ver as mulheres esquartejadas e as crianças jazendo empilhadas e espalhadas ao longo da curva da ravina, tão claramente como as vi com olhos ainda jovens. E posso ver que uma outra coisa morreu lá na lama ensanguentada, e foi enterrada na neve. O sonho de um povo morreu lá. Era um belo sonho... Vêem-me agora, um velho lamentável que nada faz, pois o aro da nação foi quebrado e espalhado. Já não há centro e a árvore sagrada morreu.”


Black Elk (Alce Negro), homem-medicina dos Sioux Lakota, na sua juventude



O QUE RESTA DOS ÍNDIOS?

“Sou agora um obscuro membro de uma nação que outrora honrou e respeitou as minhas opiniões. O caminho para a glória é duro e muitas horas sombrias obscurecem-no. Que o Grande Espírito vos ilumine – e que vocês nunca experimentem a humilhação a que o poder do governo americano me reduziu. Eis o desejo daquele que, nas florestas onde nasceu, foi outrora tão orgulhoso e audaz quanto vocês.” (Black Hawk- Falcão Negro - chefe Sauk e Fox)

Chefe Arikara


O que aqui contei não é senão uma ínfima parte de toda a desgraça que o homem branco infligiu aos índios. Houve inúmeros massacres terríveis, nos quais se matava indiscriminadamente homens, mulheres e crianças e se mutilava os seus corpos. Comportamentos indignos de seres humanos que deixavam os índios atónitos. Inúmeros tratados de paz que eram traídos pelos brancos. Armadilhas mesquinhas para liquidar o pele-vermelha. Provocações contra índios nas "reservas", de modo a fazê-los reagir e ter justificação para os matar. Recusa de fazer a paz com índios que a solicitavam porque os americanos não queriam a paz com eles, queriam exterminá-los. Por exemplo, replicando, perante índios submetidos que já nada mais desejavam a não ser a paz, que havia uma denúncia de que eles, na verdade, se haviam aliado secretamente com outra tribo para combater os caras-pálidas. Deste modo, havia sempre um argumento a favor da guerra até fazê-los desaparecer para sempre. "Eu não desejo a paz com os índios. Os meus soldados foram treinados para os exterminar e é isso que lhes vou dar!", declarou um general. Até uma tribo que acampava pacificamente sob uma bandeira americana que lhes fora doada pelo próprio presidente dos Estados Unidos, como garantia de que nenhum soldado lhes faria mal, foi cercada e impiedosamente liquidada. As mulheres, crianças, velhos e doentes que correram em pânico para debaixo da protecção da bandeira foram todos mortos e horrivelmente mutilados. Após Wounded Knee, as crianças índias sobreviventes eram arrancadas aos braços das mães, por vezes com apenas seis anos e encerradas em colégios internos. Aí submetiam-nas a uma disciplina militar e proibiam-nas de falar a sua língua ou recordar fosse o que fosse da sua cultura e das suas tradições. A fúria assassina que o homem branco demonstrou perante os índios trai, de alguma maneira, um sentimento de culpa. Nem uma testemunha deveria sobreviver para contar todo o horror praticado, a ignomínia de tantos actos, a vileza de tantas decisões. De certo modo, conseguiram-no. Ainda hoje, a voz dos índios não se ouve. O que se passou com eles não é "pequena história", mas uma das mais negras e pungentes páginas de toda a história da humanidade. E, no entanto, quanto silêncio em torno dela! Porque será que a querem folhear tão apressadamente, como se não existisse sequer?

Durante todo este horrível processo, a superioridade ética dos índios foi evidente. Eram fiéis à sua palavra. Amigos da verdade. Desprezavam a traição. Amavam a vida e a paz e nunca começavam nenhuma guerra contra o branco. Há inúmeras histórias sobre a nobreza da sua conduta, como quando índios feitos prisioneiros se lançaram a um rio para salvar da morte os soldados que os guardavam. Ou o grande chefe Sitting Bull (Touro Sentado), que costumava dar todo o pouco dinheiro que possuía a miúdos brancos pobres quando ia à cidade, comentando: "Os brancos sabem fazer tanta coisa mas não sabem distribuir." Os índios, a quem a dádiva e a partilha eram ensinadas desde a mais tenra idade, não compreendiam a pobreza, a crueldade do homem branco para com o seu póprio povo.
No princípio do séc. XX, os índios estavam reduzidos a umas meras 250 000 mil almas. Hoje, a população índia é de cerca de 2 milhões, menos de um por cento da totalidade dos habitantes dos Estados Unidos. Mas a cultura índia foi ferida de morte. A nação índia desapareceu para sempre, irrevogavelmente. O que restou foi algum sangue índio, folclore, alguns hábitos e costumes. O espírito índio, porém, já moribundo, extinguiu-se para sempre, lá na neve de Wounded Knee. A maior parte dos descendentes dos índios vive ainda acantonada em “reservas”, em terras inóspitas, estranhos no seu próprio país e marginalizados por ele. São territórios onde o nível de vida se assemelha a um país do terceiro mundo, onde a esperança de vida não ultrapassa os 47 anos, onde a água está contaminada e onde, muitas vezes, nem uma biblioteca existe. O alcoól e a droga são problemas graves nas comunidades. Geralmente, sobrevivem através de uma agricultura pobre, porque as terras que lhes dispensaram não frutificam, e à custa do turismo, oferecendo tristemente em espectáculo as suas danças outrora sagradas e a sua olaria outrora significativa. O local mais pobre dos Estados Unidos é uma "reserva" índia. Basta ir à Wikipédia e ler o artigo sobre a reserva de Pine Ridge, no Dakota do Sul, onde se situa o ribeiro Wounded Knee, para percebermos a gravidade da situação. Todavia, como tudo o que diz respeito aos índios, é uma face da América que está escondida do grande público. Claro que, sobretudo nos últimos trinta anos, alguns "prosperaram", se se considerar que "prosperar" significa alcançar prestígio social e uma profissão bem remunerada. Alguns viciaram-se no jogo e estão ligados ao negócio dos casinos. Mas continuam a ser vítimas de abuso, estas pálidas sombras dos índios de outrora, por parte do governo americano. Em pleno território Lakota, por exemplo, erguem-se empreendimentos turísticos e residenciais, como dantes se construíam caminhos-de-ferro. Em território Navajo, procede-se à exploração petrolífera e mineral.
No séc. XX, o momento culminante da luta índia contra a política do governo americano deu-se em 1969. O American Indian Movement aprovou uma constituição e ocupou a ilhota de Alcatruz, na Baía de São Francisco. Durante a ocupação, os índios reivindicaram a lembrança das formas de vida indígenas e o direito dos índios sobre as terras de que foram os primeiros habitantes. Proclamaram então ironicamente: “Desejamos ser leais e justos para com os brancos que habitam esta terra. (…) Guiá-los-emos até às formas de vida convenientes. Oferecemos-lhes a nossa religião, a nossa educação, os nossos costumes, para ajudá-los a elevarem-se até ao nosso nível de civilização, a fim de que eles, e todos os seus irmãos brancos, possam escapar ao estado de selvajaria e de desgraça em que se encontram. Oferecemos este tratado com toda a boa-fé e desejamos ser justos e leais em todas as nossas negociações com os homens brancos.”


CONCLUSÃO


Índios, maravilhosos índios! Gosto que se chamem índios. Ao contrário do que muitos defendem, com base no argumento de que são vocês os verdadeiros nativos do continente, desagradar-me-ia que lhes chamassem americanos. Que têm vocês a ver com Amerigo Vespucci? Índios, gosto que se chamem índios, porque o í traz uma pena na cabeça. Obrigada pelos vossos macios mocassins, que pisavam a terra com ternura. Por usarem arcos e flechas, belo instrumento digno do melhor engenho humano. Pelos vossos tipis, cónica e leve morada de nómadas. Pelas vossas incríveis indumentárias, de franjas aladas. Pelas penas na cabeça que vos tornam semelhantes a pássaros. Pelos vossos nomes repletos de significado. Por terem sido cavaleiros magníficos. Por serem guerreiros-poetas, como só os samurais souberam ser. Pela vossa presença cheia de casta. Os majestosos rostos solares, o porte sacerdotal. Os vossos perfis de aristocracia antiga. Quem poderá rivalizar convosco em beleza e refinamento natural? Pelo vosso grande amor à verdadeira liberdade. Aquela que não precisava de vir consignada na Lei, porque residia no interior de cada um de vós. Por darem valor à palavra, de tal maneira que dispensavam que ela ficasse escrita. Por o vosso fascínio secreto ter povoado o imaginário das crianças de todo o séc. XX. E como a criança que fui me deixa contente por me ter posto sempre ao vosso lado. Por preferir os fracos aos fortes (no sentido - e apenas nesse - em que a força considerada é equiparada à força bruta), os humilhados aos vencedores. Os amantes da liberdade aos amantes do medo. Por ter desejado ser um de vós. Por vos ter desenhado tantas, tantas vezes em longas tardes africanas, como um acto de magia que vos fizesse reviver. Por ter sido em brincadeiras um índio chamado Cavalo Forte, o melhor guerreiro e o melhor caçador do acampamento. Por ter sido o homem de confiança do feiticeiro e o braço-direito do chefe Touro Sentado. Por ter descido o desfiladeiro, só, em busca do bisonte, e regressado com a presa ao círculo dos tipis em volta da fogueira, quando já a noite caíra.


Guerreiro Piegan

Não há muitos motivos que justifiquem a arrogância dos ocidentais quanto à sua civilização que tende a globalizar-se. Alegremo-nos por aquilo que alcançou em certos aspectos mas não esqueçamos que muito foi conseguido espezinhando inutilmente parte da humanidade, através da falta de escrúpulos e do atropelo da ética. Ora, será o progresso técnico, como comumente se leva a acreditar, o melhor critério para se medir o índice de civilização? Não deveremos mudar esse critério e medir antes o grau de exigência ética? Se o medirmos dessa maneira, quem foram, nesta história, “os selvagens”? Quem foram “os civilizados”? E não me venham com a desculpa de que "era a época!". Tudo isto se passava há cerca de 150 anos. Ontem. Ou antes, "há um segundo", em termos da história da humanidade. E Jesus Cristo, de quem os colonos eram devotos, nascera há quase dois mil anos. Além disso, os índios, apesar da época, souberam reconhecer seres humanos nos brancos. Que doença atacava a civilização ocidental que impedia que os seus filhos reconhecessem os outros seres humanos como tal?
Não esqueçamos que muito do mal praticado foi irreversível e que, para se afirmar, a civilização ocidental silenciou para sempre culturas que muito lhe tinham a ensinar. Que a civilização ocidental foi erguida sobre sangue, suor e lágrimas de inocentes. A nossa liberdade foi conseguida à custa da negação da liberdade dos outros. Logo, a nossa liberdade não pode ser a verdadeira. O facto de os ocidentais não se sentirem verdadeiramente livres provém daí.
A nação índia, nobre e orgulhosa águia que pairava sobre as planícies, as florestas, as montanhas e os rios da América, desapareceu para sempre. Não é senão uma recordação, visto o seu modo de vida – comunhão entre o Homem e a Natureza – se ter extinguido. Hoje em dia, os estudos sobre os índios são estudos históricos, estudos sobre o passado. Deles restam apenas vestígios, como estas comoventes fotografias, testemunho da grandeza e declínio de uma extraordinária estirpe de homens que existiu outrora sobre a Terra. Atentem nestes nobres rostos amargurados, que espelham o horror de ter visto ruir todo o edifício da sua cultura. “Cerro os olhos e sei de novo que toda esta gente morreu. Mas o que mais me perturba é pensar que o rasto de toda essa gente está suspenso de mim. Porque eu ainda tenho uma pequena notícia da sua vida, o eco apagado do que foi a massa complexa do seu ser e sentir. (…) Mas de muitos retratos já nada sei. São esses que fito com mais angústia. (…) Mas vós estais mortos e ninguém vos julga e ninguém vos ouve.(…) Mas agora ainda estais vivos, ainda alguém, eu, aqui, silencioso nesta casa solitária, vos liga à vida que freme para lá destes muros na Primavera anunciada, nas primeiras andorinhas que me buscam o beiral, na planície aberta de esperança. Sede vivos neste instante infinitesimal em que vos fito e vos sei um nada do vosso convulso e rico e inverosímil milagre.” (Vergílio Ferreira, Aparição)


"Bravo" Hollowhorn

Bibl: Dee Brown, Bury My Heart at Wounded Knee ( este é o livro, editado em 1971, que veio repor muita da verdade sobre os índios norte-americanos.) Existe tradução brasileira, Enterrem meu coração na curva do rio.
Kent Nerburn, The Wisdom of the Native Americans.
Nicolau Sião, O Índio e o Ocidente. Reflexos de duas visões diferentes sobre o mundo., 1997.
Edward S. Curtis, The North American Indian. The Complete Portfolio.


Janeiro/Fevereiro 2007



POEMAS DOS ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS



Caçador Mandan com esqueleto de búfalo


O dia levantou-se por entre uma chuva suave.
O lugar chamado “onde fica a água do relâmpago”,
O lugar chamado “ali onde surge a alba”,
Quatro lugares denominados “a alba da vida”,
Ali é onde toco a terra.
Os filhos do céu, vou por entre eles.
Chegou até mim com uma longa vida.
Quando fala por cima do meu corpo com a mais longa vida,
A voz do trovão falou quatro vezes
Falou-me quatro vezes com vida.
O santo jovem celeste falou-me quatro vezes.
Quando me falou, chegou o meu alento.
(Apache)




Índio com cachimbo


Era digno de se ver,
esse mundo novamente criado.
Sobre toda a largura e amplidão
da terra, nossa avó,
estendia-se o reflexo verde
da sua cobertura
e os perfumes que ascendiam
eram doces de respirar.
(Winnebago)




Índio Jicarilla


Às vezes
Sucede que me compadeço
Enquanto que, levado pelo vento,
Atravesso o céu.
(Chippewa)




Acampamento Sioux



Esse vento, esse vento
Sacode a minha tenda. Sacode a minha tenda
E canta uma canção para mim
Canta uma canção para mim.
(Kiowa)



Lobo - Apsaroke

Ao entardecer
Chove.
Além, nos confins da terra
Há um ruído como um ranger,
Há um ruído como o de uma queda.
Além, abaixo, continua a bramir
Continua a tremer.
(Papago)




Jovem mulher Sioux



Por mais que me esforce por te esquecer,
Voltas sempre aos meus pensamentos.
E é quando me ouves cantar,
Que te choro.
(Makah)





Índio Crow



Cada vez que como, como a pena do teu amor,
amada.
Cada vez que tenho sono, sonho com o meu amor,
minha amada.
Cada vez que estou deitado de costas em casa,
estou deitado sobre a pena do teu amor, amada.
Porque, cada vez que caminho,
ponho o pé sobre a pena do teu amor, amada.
(Kwakiutl)





Vigilância na noite- Nez Percé


Como desejaria vaguear na noite
Contra os ventos.
Vaguear na noite
Quando a coruja ulula.
Como desejaria vaguear.

Como desejaria vaguear na alba
Contra os ventos.
Vaguear na alba
Quando a gralha grita.
Como desejaria vaguear.
(Sioux)



Guerreiros Atsina



Surgirão – podes vê-los!
Surgirão – podes vê-los!
Uma nação a cavalo surgirá.
Uma nação estrondosa surgirá.
Surgirão, olha!
Surgirão, olha!
(Sioux)





Aguardando um sinal - Nez Percé


Por cima da cabana de terra mítica que nos domina
Os espíritos depositados deixam-se cair ao longo do telhado.
Os espíritos depositados deixam-se cair pelo umbral
As flores curvam-se pesadamente sobre os seus caules.
(Wintu)




Chefes Atsina

Os nossos grandes antepassados falavam em conjunto. Levantaram-se e olharam-se, caminhando. Inclinaram-se e saíram do quarto mundo, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo de espuma, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo de barro, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo da beira, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram. Vieram até ao seu Pai, o Sol, e respiraram o alento sagrado da luz do dia. (Zuni)

Yellow Kidney - Piegan


Canto do sonho

Ali onde a montanha se acaba,
Lá em cima, nem eu mesmo sei aonde,
Vagueei por ali, por onde a minha cabeça

e o meu coração pareciam perdidos.
Vagueei lá longe.
(Papago)




Head Carry



Canto do veado de cauda negra

Do alto das moradas da magia,
Do alto da moradas da magia,
Sopram os ventos. Nos meus cornos,
Nas minhas orelhas, juntos, sopram ainda mais forte.

Lá longe, corria tremendo,
Lá longe, corria tremendo:
Arcos e flechas perseguindo-me.
Quantos arcos havia na minha pista!
(Pima)

Mulher índia


A minha casa lá longe, a minha casa lá longe!
A minha casa lá longe, agora me recordo!
E quando vejo essa montanha lá longe,
Pois bem, choro. Ai! Que posso fazer?
Que posso fazer? Ai! Que posso fazer?
A minha casa lá longe, agora me recordo.
(Tewa)


Homem Sioux (Dakota)

Cobre a terra minha mãe quatro vezes de flores inumeráveis.
Que os céus se cubram de nuvens acumuladas.
Que a terra se cubra de névoa; cobre a terra de chuvas.
Grandes águas, chuvas, cubram a terra. Relâmpago, cobre a terra.
Que se oiça o trovão por cima de toda a terra; que se oiça o trovão.
Que se oiça o trovão por cima das seis regiões da terra.
(Zuni)


Chefe e sua comitiva - Apasaroke

17 comments:

Anonymous said...

Um trabalho exaustivo, interessante, bem elaborado, referindo nãoi só os aspectos sicio-historicos do tema, mas também seguindo um caminho da exploração do EU, do sentir daqueles povos, da sua magia e ensinamentos.Adorei.Eu, não conheço nada sobre os indios dessa região, conheço um pouco sobre a cultura india do interior da Venezuela, Colombia, e devo dizer que, duma curta estadia que fiz na Montaña de Sorte, perto da cidade de Barquisimeto,Venezuela onde fui cantar (há lá muitos madeirenses!), trouxe uma mania, tradição ou escape, cha,mem o que quizerem: Osd indios de lá fumam charutos feitos à mão, para abrirem os caminhos para a sorte, a saude, o contacto com os seus mortos.E eu, é rara a semana, em que não me isole e fumo um charuto, que previamente foi rezado, com uma especie de mantra que lá aprendi. Trata-se duma oração à india Maria Lionza, que na Venezuela possui honras de estatua em praças publicas, e onde se pode ver inumeras pessoas colocando-lhe velas, flores, e fumando "sus puros"...

O seu blog é uma preciosidade.Não tenho cá vindo muito porque estou no Porto por algum tempo, e tenho sempre que me deslocar a um ciber cafe para ter netcontacto.

Um abraço!

P.S.E por falar em charutos, ontem sentei-me num pequeno jardim onde está o Ramalho Ortigão, perto dos Clerigos, e fumei o meu "puro"!Só queria que visse as caras das pessoas que passavam!!! eh eh eh

Valeria Mendez, do blog
fadista-valeria-mendez.weblog.com.pt

jlf said...

Foi o Jorge G que um dia me trouxe cá.
Fiquei visita frequente.

Claro que desta vez não se trata de um apontamento.
É um tratado.
Longo. Mas bom. Muito.

Claro que não li de uma assentada...
Antes por três ou quatro vezes.

Mas gostei.
ciao
jlf

Anonymous said...

Os Índios da minha infância, os dos filmes de cowboys. Os Índios que continuam lutando pelo direito de serem como são. Os NOBRES ÍNDIOS que me fascinam, retratados neste seu trabalho sério, com a QUALIDADE a que nos habituou. Continuo na minha- este blog merece um livro.
Um beijo
OP

Okawa Ryuko said...

Obrigada pelo comentário. Fico feliz por haver quem leia este post - não por mim, mas pelos índios.

gdec said...

Há já vários dias que tento dizer-lhe o que penso sobre estes textos. Mas não consigo . Até o mail falhou ao que parece.
Veremos hoje.
Nada de original -o que eu penso- Que a minha amiga mantém os padrões de qualidade a que nos habituou e confirmámos que os "valorosos" conquistadores da América do Norte não passaram de um um bando de patifes asselvajados. Muito infelizmente é a regra com a humanidade. Somos uma doença deste belo planeta.
Bem...também já li os seus textos dedicados à China. Têm muito que se lhes diga. Voltarei a eles.
Um abraço -se me permite-.

gdec

Ju said...

Gostei muito do teu belo trabalho sobre os índios - o que eu tenho andado a perder por ser preguiçosa!
Um abraço
Jaleco

berenice said...

Que lindo trabalho sobre os índios. Estava olhando este e os outros blogues seus e está de parabéns. Um trabalho muito amplo sobre várias áreas. Espero conseguir, um dia, dar conta de todos este material. Nem consegui terminar ainda o dos índios!! Como gosto muito da cultura oriental, coloquei seu blog Japão Japan na minha lista de blogs favoritos. Tudo bem? Se houver algum problema, por favor, me avise. Abraços.

Milton said...

Parabéns pelo trabalho. Que espetáculo de documentos. Que pena que nossa civilização para conquistar fez tantas barbaridades com eles. Recomendo a leitura do livro "Enterrem meu coração na curva do rio" para entendermos como foi a colonização americana.

Okawa Ryuko said...

Obrigada, Milton! Gosto que tenha gostado. Jamais devemos esquecer os o destino dos índios.

Cristiana Fonseca said...

Olá,
Estou encantada com o teu blog, encantei-me com tua publicação, tens um artigo excelente, uma jóia rara.
Sou desenhista e estou fazendo um trabalho sobre os índios.
Gostaria se for possivel que vc me sedesse algumas de suas imagens, para que eu possa estar utilizando nos trabalhos, se for possível vc as tem em tamanho grande.
Parabéns pelo espaço.
CrisFonseca

Okawa Ryuko said...

Olá, Cristiana. Obrigada pelas tuas palavras. Podes ter acesso às fotografias de índios em vários sites na internet. Procura no google pelas fotos de Edward S. Curtis.Há imensas online!

Lis said...

ola...adorei seu conteúdo...é explicativo e extenso porém nao é cansativo...é interessante, muito bem organizado e elaborado.
parabéns...
Abraços Liss.

Okawa Ryuko said...

Muito obrigada pelas suas palavras!
Okawa Ryuko

JCConect said...

lie este blog eu confesso que sabia de algumas verdades sobre maudade que eram feita com os

indios, mas não sabia que era tanto fiquei estarrecido com tudo o quanto sofrerão e quanto

seus olhos são triste pelo sofrimento do seu povo, fiquei revoltado em sabe que inocentes

sofrerão, palavras forão ditas e nada foi ouvido, chorei por eles em imagina que e veridico,

mesmo sem sabe o passado perverso do homem branco faz-me ter vergonha de esta na faixa

desses cara-palidas fico sem enteder o quanto o limite da maudade humana eles sem ter culpa

fora tirada a liberdade, isto tudo era pra ser escritos nos livros da historia americana pra

que todos subecem a maudade humana que esta em pratos limpos existem, e existe ate hoje o

que estou sentindo agora e o mesmo que os irmão indios estão no olhar perdido do seu

passado, muitas tragedias acontecem todos os dias e não sei imagina se dia isso vai ter um

fim mas fica aqui meu comentario para sempre, e o tempo de um dia que tambem existiu da

memoria indgena.

Okawa Ryuko said...

Obrigada pelo seu comentário, JCConect. Concordo inteiramente com o que diz. O destino dos índios é dos episódios mais tristes da história da humanidade. But we shall never forget you, American Indians!

victorias said...

Excelente seu trabalho... Hoje tenho 63 anos, mas lembro bem das dezenas de filmes de índios que vi quando era menina e o que mais me impressionou, você deve saber, eu não lembro o nome, foi aquele que foi feito um acordo com eles e o General Custer dizimou mulheres e crianças indefesas entrando na aldeia e massacrando o que se mexesse... e simplesmente não lembro, de ter acontecido nada com ele... Daí pra frente os nativos de uma terra me interessam, inclusive os daqui do BR, acompanhei todas as expedições dos Villas Boas, na época, e eles não foram os herois como se descrevem não... Resumindo... Depois de viver tanto... aprendi uma coisa... justiça, não existe... utopia pura... Um abraço... Victoria

Okawa Ryuko said...

Victorias, obrigada pelo seu comentário e pelo seu testemunho. Restamos nós, pessoas que os amamos, para lembrar o triste destino dos índios. É preciso não o deixar esquecer. Sobretudo frente à hipocrisia dos povos ocidentais que se vangloriam dos seus valores de liberdade, fraternidade e igualdade!