Wednesday, November 08, 2006

CHINA

A PEREGRINAÇÃO DO MONGE XUAN ZANG


A dinastia Tang foi uma época gloriosa no que diz respeito à história do budismo na Ásia Oriental. Tal glória deveu-se, em grande parte, à acção desenvolvida por peregrinos e tradutores. De entre eles, o mais célebre é o monge Xuan Zang.
O nome leigo de Xuan Zang era Chen Wei e nascera em Yanshi, na província de Henan, no segundo ano de Ren Shou (602 d.C.), durante o reinado do imperador Sui Wen Di. Desde os treze anos (outras fontes dizem onze), altura em que foi admitido num mosteiro budista, começou a aplicar-se no estudo dos sutras. Sabe-se também que cedo viajou por muitos lugares da China como Luo-yang, Xi’an, Sichuan e Hubei, com o fito de conversar com os monges mais eminentes. Aos trinta anos, tendo lido já numerosos textos canónicos budistas, era conhecido em todo o país. A sua aspiração mais profunda era ir à Índia, berço da religião que abraçara, para aprofundar os seus conhecimentos e eliminar as contradições existentes entre as diversas escolas budistas. Desejava também encontrar o manuscrito de um grande tratado de metafísica, o Yogâcaryâbhûtmìçâstra (“Tratado dos Mestres do Yoga”). A viagem foi possível quando Xuan Zang tinha trinta e dois anos, em 627 (outras fontes afirmam 629). Por essa época, sob o governo do imperador Tai Zong (de 626 a 649), o país vivia num clima de prosperidade e estabilidade. Para além disso, abrira-se então uma rota que se dirigia para o oeste, atravessando a zona do actual Xinjiang (Turquestão chinês). Naqueles tempos recuados, porém, essa viagem desde a capital Tang -Chang’an (a actual Xi’an) - até à Índia remota era, não é difícil imaginar, muito demorada e, sobretudo, extremamente perigosa. Havia que cruzar desertos imensos e vencer gigantescas montanhas. A vida achava-se em permanente risco. A prova mais dura consistia na travessia do deserto de Gobi onde, se fazia vento, a poeira cobria tudo; se o vento cessava, a areia caía do alto e acumulava-se formando montes - bastas vezes a sepultura dos viajantes. De dia, sem vento, o calor era sufocante; de noite, tiritava-se de frio.

Xuan Zang


Xuan Zang venceria todos os percalços da viagem e alcançou a Índia volvido um ano. Em Cachemira, deteve-se dois anos. Daí, partiu para os lugares santos do budismo primitivo, em Magadha (região de Gaya e Patna, Bihâr). Permaneceu depois cinco anos no mosteiro sagrado de Nâlânda, no actual Râjgir, sob orientação do mestre Sâstra Silabhadra. Consagrou-se ao estudo dos cânones do brahmanismo e às doutrinas das distintas escolas da Índia, sem descurar o estudo das várias línguas locais. Viajou também por todo o país, em busca de relíquias budistas e de antigos templos, ao mesmo tempo que procurava os grandes mestres budistas indianos no intuito de com eles trocar ideias. Pelo caminho, converteu almas em cento e trinta e oito reinos. Xuan Zang tornou-se conhecido em toda a Índia.

Painel no templo Wenwu, em Taiwan, ilustrando as viagens de Xuan Zang


Quando decorria o ano de 642, foi organizado em Kanyâkubja um grandioso festival budista no qual participaram reis e monges de dezoito países, num total de mais de três mil pessoas, sem contar com a enorme multidão de ouvintes. O festival, cujo propósito era discutir as doutrinas do budismo, durou dezoito dias. Xuan Zang fora convidado pelo rei Silâditya para presidir à assembleia quinquenal de debates livres. Não houve ninguém que, nas polémicas organizadas, conseguisse deitar por terra os argumentos apresentados por Xuan Zang, que refutavam as doutrinas não budistas e da corrente Hinayâna (ou “Pequeno Veículo”). A turba, no intento de demonstrar o seu respeito e afecto, rodeou então o monge e fê-lo montar num elefante luxuosamente enfeitado. Numa cerimónia especial o rei Silâditya tornou-se seu discípulo.
O monge regressou à pátria dezasseis anos depois de ter partido, em 645, levando consigo mais de seiscentos livros budistas. Nem todos chegariam incólumes ao seu destino. No rio Rawalpindi, no actual Paquistão, o vento arrebatou-lhe cerca de cinquenta para lançá-los nas ondas.

Mapa da viagem de ida e de volta de Xuan Zang


Perfazendo um total de várias dezenas de milhar de pessoas, uma imensa multidão de civis, oficiais militares, monges budistas, mestres taoistas e leigos invadiu a capital, Chang’an, e os seus subúrbios para o acolher. O imperador Tai Zong, seu profundo admirador, deu-lhe audiência em Luoyang, capital provisória em viagem imperial. Tentou convencer o monge a regressar à vida laica e aceitar um cargo governamental. A oferta foi gentilmente recusada. A ambição de Xuan Zang era outra: propagar o budismo e traduzir os sutras.
A velhice de Xuan Zang foi toda passada em Chang’an, dirigindo durante dezanove anos consecutivos equipas de tradução que verteram para chinês os sutras transportados da Índia. Em 646, começou a traduzir o Yogâçaryâbhûmiçâstra, a obra que mais desejara encontrar ao partir do seu país. No ano seguinte, traduziu para o sânscrito o Dao De Jing (Tao Te King), atribuído a Lao Zi (Lao Tse). A tradução foi dedicada ao rei de Kâmarûpa, no actual Assam. Até à véspera da sua morte, no dia cinco do segundo mês lunar do primeiro ano de Lin De (664), aos sessenta e três anos, havia traduzido um total de setenta e cinco obras, com mil trezentos e trinta e cinco volumes e mais de treze milhões de caracteres, Trata-se da quarta parte do conjunto das traduções para chinês de textos indianos. Tornara-se no maior tradutor da História da tradução dos sutras budistas. A sua sede de rigor filológico era tão intensa que instituiu toda uma série de regras de tradução de uma extrema exigência. Graças a este monge excepcional, grande mestre budista, notável conhecedor do sânscrito e da cultura indiana, a China pode contactar com a complexa filosofia da escola epistemológica Vijnânavâdâ. Foi, com muita probabilidade, o único chinês que alguma vez conheceu a filosofia budista indiana em toda a sua imensidão e profundidade. Ao tomar conhecimento da sua morte, o imperador Gao Zong, em lágrimas, exclamou: “Acabámos de perder um tesouro nacional!”. Ordenou que a corte imperial fosse fechada durante três dias e decretou um funeral de estado para o mestre Xuan Zang. Toda a nação chorou a sua morte.

Templo Xingjiao,arredores de Xi'an, China, onde se encontra a maior parte dos restos mortais de Xuan Zang

As notas de viagem que Xuan Zang tomara serviram de ponto de partida para a obra Datang Xiyu Ji (“Memória sobre as Regiões Ocidentais na Época dos Grandes Tang”), composta por um discípulo seu. Nela se descrevem todas as regiões por ele percorridas, informando sobre o clima, usos e costumes, produções, história, política e, claro, sobre a situação do budismo. Um ano após a sua partida deste mundo, começou a escrever-se a sua biografia, dando especial atenção às suas viagens. É o Daci’en San Zang Fa Shi. Xuan Zang viria a tornar-se na personagem principal do famoso romance fantástico Xì You Ji (“Peregrinação a Oeste”, séc.XVI), de Wu Cheng En, onde se narra que viajava com um discípulo muito singular: Sun Wu Kong, o Rei dos Macacos, Mestre das Flores e dos Frutos, versado na arte da metamorfose e herói de todas as crianças chinesas. Na realidade, Xuan Zang teve um discípulo chamado Shi Pantao que fora, a princípio, um fiel protector do monge mas que, vencido pelo medo dos constantes perigos da viagem acabou, não só por o abandonar, como chegou mesmo a tentar matá-lo. Neste romance extremamente popular, Sun Wu Kong cria distúrbios no Reino Celeste e autoproclama-se Par do Imperador do Céu. Buda, como castigo, aprisiona-o numa montanha. Ao passar por ali na sua viagem em direcção à Índia, Xuan Zang, moído pela compaixão, liberta-o. O Rei dos Macacos torna-se seu discípulo e, valendo-se dos seus poderes sobrenaturais, enfrentará inúmeros demónios e espíritos para proteger o mestre.



1995

1 comments:

Anonymous said...

encantatorias estas narrações...
simplesmente magnifico!
Valeria Mendez