É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

Sunday, October 29, 2006

FICÇÃO

CHINOISERIES


Narração e ilustração de pequenos factos-ficções alusivos às relações luso-chinesas


Retrato do chinês Lili, cantador de fado - Talvez vocês conheçam, para os lados de Belém, aquele painel de azulejos que reproduz a figura de um chinês. O homem reproduzido existiu realmente nas ruas da Lisboa das primeiras décadas do século XX, e chamava-se Li. Os lisboetas de então, com a sua habitual verve, chamavam-no o Lili. Tratava-se de um chinês vendedor de rua, natural da província de Zhejiang. Como é sabido, na Lisboa antiga, a Lisboa dos pregões, dos galegos aguadeiros, das varinas e saloios, das mulheres da fava-rica e dos pretos caiadores, havia ainda um outro tipo de vendedor - os chineses das gravatas. O Lili pertencia a esse grupo, pouco numeroso, mas sempre alvo de muita curiosidade por parte dos transeuntes, que pasmavam para eles, desabituados ainda de extravagâncias. O Lili destacava-se, pois jamais abandonou os seus trajes tipicamente chineses, que trouxera de Zhejiang. Era uma galhofa por essas ruelas abaixo sempre que ele surgia com as suas cabaias coloridas, com a caixa de madeira a tiracolo, cheia de gravatas para mercar. Excepto quanto à sua intransigente recusa em envergar vestes ocidentais o Lili era então, e de longe, o chinês mais bem adaptado à vida portuguesa. Por isso, e porque tinha um temperamento alegre e suportava a troça com jovialidade, com resposta pronta para tudo, foi ganhando o respeito e a estima do povo de Lisboa. Pela manhã, podia topar-se com ele a sorver o seu café de lepes e, em a noite caindo, não dispensava o pratinho de iscas com elas, repugnante para qualquer outro chinês. Amantizado com a dona de um café de camareiras, diz-se que frequentava as meias portas, onde agarrava na banza e soltava o fado com espírito, sempre vestido à chinesa e trocando os erres pelos eles, o que lhe valeu a alcunha de "faia amarelo".
Quando se encomendou o referido painel de azulejos, o artista julgou de gosto exótico, à moda da época, pintar um mandarim. Lembrou-se logo do Lili para fazer de modelo. O chinês aceitou posar com as suas melhores vestes, em troca de umas moedas.
O Lili ainda galgaria as calçadas de Lisboa com as suas gravatas durante mais alguns anos mas, após dura rixa numa viela da Mouraria, acabou por fugir para Moçambique, onde terá eventualmente findado os seus dias. Foi visto pela última vez, já bastante velho, a dançar o merengue em grupo numa rua esconsa da então Lourenço Marques.
O chinês Lili, tal como a famosa preta Fernanda - que serviu de modelo para a figura feminina em bronze que simboliza a África no pedestal da estátua ao Marquês de Sá da Bandeira - é uma das duas personagens populares da cidade de Lisboa reproduzidas numa obra artística.




Lao Tse e o "Verdadeiro Clássico do Inominável" - Na cave do edifício da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, existe uma biblioteca sinológica da maior importância, que permanece todavia desconhecida do público devido à inexistência no país de especialistas na área. A maioria dos livros foi doada pela Embaixada da República Popular da China e pelo Instituto Cultural de Macau. Lá se podem consultar, entre outros tesouros, as obras completas de Ouyang Xiu, a poesia de Li Bai, Du Fu e Bai Ju Yi, os principais romancistas contemporâneos e o Sutra do Diamante.
Nessa biblioteca encontra-se também o único manuscrito existente em todo o mundo da obra atribuída a Lao Tse, Wu Ming Zheng Jing. O Wu Ming Zheng Jing ("Verdadeiro Clássico do Inominável") é a sua única obra conhecida, para além do famoso Dao De Jing (Tao Te King). Alguns sinólogos estrangeiros são de opinião de que o recentemente descoberto Wu Ming Zheng Jing (em geral, abreviado para Wu Jing) é ainda superior ao Dao De Jing.
O manuscrito foi descoberto no túmulo do sábio, no templo de Lou Guan Tai, província de Shanxi. O túmulo foi violado em 1994, durante um ritual secreto praticado por uma seita esotérica de alquimistas taoistas. A seita defende que Lao Tse, tal como sua mãe, cujo túmulo se encontra ao lado, continua vivo, uma vez que se dedicara à prática de lian dan, isto é, ao fabrico de pílulas da Imortalidade. De facto, mais nada, a não ser o Wu Jing, foi encontrado no túmulo. A obra, ainda mais breve e densa do que o Dao De Jing e caligrafada sobre tiras de bambu, foi-se desfazendo à medida que um dos iniciados taoistas a copiava rapidamente para um caderno.
No cap. XX pode ler-se: "Wo du wu si di ye/ wu ming zhi bao/ da dao zhi xuan." ("Apenas em mim nada é mortal/ tesouro do Inominável/ maravilha do Grande Dao!”). Segundo os alquimistas, trata-se, com efeito, de uma obra composta por Lao Tse já depois de se ter tornado um Imortal.
Três meses após a sua inesperada descoberta, o caderno foi vendido ao governo chinês para divulgação, decepado embora num terço das suas páginas. Segundo consta, nessas páginas, Lao Tse descreveria minuciosamente a receita infalível para adquirir a Longevidade e a Imortalidade, em cuja demanda se aplicaram gerações e gerações de seguidores do taoísmo. O grupo de alquimistas mantém absoluto segredo sobre o seu conteúdo e a pressão do governo para resgatar as folhas tem sido vã. A obra foi publicada incompleta pela Editora Xinhua em 1995. Quanto ao manuscrito truncado, foi roubado em 1998 do depósito da Biblioteca de Pequim, onde se encontrava, para ressurgir posteriormente num leilão da Sotheby's. A Fundação "A Leste" adquiriu-o então a peso de ouro após acérrima disputa com o Instituto Ricci. Como foi parar à cave da Biblioteca da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, ninguém o sabe explicar. A Fundação "A Leste" está neste momento em negociações com a dita Reitoria no sentido de reaver o precioso manuscrito.




O incêndio do pavilhão - A cidade de Macau esteve representada na Exposição do Mundo Português em Belém, quando decorria o ano de 1940. Construiu-se a Rua de Macau, cujo maior atractivo era um colossal paquiderme de pedra, de tromba erguida e carregando no dorso um pavilhão de dois andares em estilo chinês. O portal que dava acesso a essa rua pode ainda hoje ser visitado entre a folhagem do ex-Jardim Colonial. No entanto, o elefante com o seu pavilhão desapareceu misteriosamente. O processo relativo ao desaparecimento foi abafado pelo regime de Salazar. Encontra-se na Torre do Tombo e, ainda hoje, não pode ser consultado pelo público em geral.
Segundo consta, a Seita do Dragão Azul, uma seita nacionalista chinesa, mantinha entre os estudantes macaenses residentes em Portugal uma pequena ramificação. Formada ainda sob influência, pelo menos indirecta, do Dr. Sun Yat-sen, enquanto este viveu Macau, nos primeiros anos do século, a seita encontrava-se então activamente empenhada na luta contra o invasor japonês que ocupava toda a China do leste e, por extrapolação, contra qualquer poder colonizador. Os estudantes macaenses em Portugal receberam ordens para queimar toda a área colonial da Exposição, na noite seguinte à da sua abertura oficial. Algo terá, porém, corrido mal e Salazar foi informado a tempo. A vigilância apertou-se em torno da área colonial e os asiáticos, goeses incluídos, passaram a ser discretamente revistados e identificados antes de nela poderem penetrar. Os planos da Seita do Dragão Azul saíram gorados pela máquina salazarista e os portugueses puderam regozijar-se com a vastidão do seu império. No entanto, na última noite da Exposição, um estudante macaense, de nome Xavier Cheong, conseguiu deitar fogo ao símbolo de Macau. No flanco do elefante de pedra pincelou insultos a Portugal em português e chinês. Foi posteriormente capturado pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE.
Na manhã seguinte à do fecho da Exposição, do pavilhão em madeira restavam apenas cinzas. Salazar ordenou que fossem rapidamente removidas e que lançassem ao Tejo o elefante de pedra, onde ainda hoje provavelmente jaz, sob as mesmas águas que as caravelas sulcaram outrora em demanda do Oriente.




A pedra das Mutações - Como é commumente sabido, o Jardim da Fundação Gulbenkian contém, na sua arquitectura, elementos chineses e japoneses. Um dos mais curiosos é a pedra colocada sobre o relvado que desce para o lago dos nenúfares. A pedra foi transportada para Portugal nos princípios do séc. XVII por um fidalgo aventureiro nascido em Lisboa, Nuno Gouveia de Faria. Este, julgando-a altamente decorativa, tê-la-ia usurpado de um jardim que existia então em Liampó (Ningbo), como o comprovam fontes inglesas coevas (veja-se a obra de Sir Colin Ormsby-Gore, The Portuguese Trade and Atrocities at the Port of Macao and Southern China, London, 1602, New Delhi, 1971, reprint.). De facto, a pedra foi outrora profusamente gravada e pintada com os 60 hexagramas do Clássico das Mutações (Yi Jing).
A pedra adornou o parque da mansão da família do fidalgo Nuno Gouveia de Faria até à sua demolição, nos finais do séc. XIX. Durante a construção do jardim da Gulbenkian, nos anos 60, o sinólogo espanhol Pe. Lorenzo Benito Muralles, SJ, que veraneava então por cá, descobriu-a por acaso num descampado, tendo sido ele próprio a sugerir ao arquitecto Ruy Jervis D’Athouguia nova morada para a pedra. Muralles conhecera os pais do arquitecto em Macau, a cidade onde D’Athouguia nascera. Este falou do assunto ao seu colega Ribeiro Telles, encarregado do plano dos jardins do museu. Ribeiro Telles aprovou a ideia.
Muralles julgava mesmo distinguir ainda, no canto direito superior da pedra, a gravação - naturalmente muito desgastada pelo tempo - dos traços contínuos e descontínuos do primeiro dos hexagramas, o hexagrama Pi - em cima, o Céu, por baixo, a Terra.




O Pátio das Flores Rubras - Pouca gente terá conhecimento da história assaz pitoresca que está por detrás da construção da casa típica de Macau do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Durante a concepção desse projecto do Antigo Regime, ficou encarregado do plano da casa de Macau um arquitecto que nunca estivera no Oriente. Para levar a cabo a tarefa, e na impossibilidade de até lá se deslocar, consultou afanosamente arquivos fotográficos respeitantes àquele longínquo território português. A sua escolha, no entanto, não foi feliz. Tomou como inspiração para reproduzir em pedra certa fotografia que mostrava um edifício de estilo acentuadamente chinês. O pobre arquitecto ignorava que se tratava de um famoso lupanar da zona mais libertina da Cidade do Santo Nome de Deus: o Pátio das Flores Rubras (Hong Hua Yuan). Este lupanar, que deliciou gerações de chineses e portugueses, foi incendiado em 1947, como consequência de uma intrincada história de vingança entre duas seitas rivais. Dos seus escombros resta apenas, na rua onde se situara, a pedra fronteira gravada com três caracteres chineses sobre a tradução portuguesa, ainda em grafia antiga: "Páteo das Flores Rubras". No entanto, por ironias do destino, e para que fossem iniciadas de bem cedo as crianças portuguesas nos inefáveis mistérios do Oriente, a reprodução da sua fachada iria sobreviver, fiel, muito longe dali, em Portugal, no Portugal dos Pequenitos.



Retrato da Senhora Jacinta Wok - A Senhora Jacinta Wok (1884~1945), portuguesa nascida no Porto, foi a protagonista de um dos maiores escândalos que alguma vez abalaram Macau. Deveu-se o escândalo ao facto de ela ter vivido trinta e nove anos em regime de concubinato com um rico negociante chinês, Wok Mei Lo, estabelecido no território desde os finais do séc. XIX. Wok Mei Lo tomou-a como sexta concubina quando a dona Jacinta, cujo apelido era ainda Santos da Cruz, servia como ama em casa da família Mendes Couceiro.
Juram versões que a ama terá trocado essa família pela casa Wok por se ter tomado de amores pelo negociante; outras explicam-no por um desejo irreprimível de ascensão social ou desilusões com a comunidade portuguesa. O que é certo é que se submeteu às exigências do negociante a ponto de chegar a enfaixar os pés. Sofreu, por isso, dores atrozes durante todo o resto da vida, uma vez que tal operação, em princípio, se destinaria a meninas com cerca de cinco anos de idade. Além disso, teve de suportar as torturas e vexames que lhe infligiam as outras concubinas do negociante, não só devido à sua insignificante posição na casa - concubina número seis - como devido ao facto de ser estrangeira, pior, estrangeira traidora à sua própria comunidade. Rejeitada por ambas as raças, também no negociante Jacinta não encontrou qualquer apoio, pois Wok Mei Lo nunca a conseguiu apreciar, nem mesmo com os pés enfaixados. Segundo consta, servia-se dela nos seus negócios, cedendo-a a outros chineses ricos e curiosos, e exibia-a perante os portugueses como um troféu humilhante.




Retrato de Wu Sheng Ren em Trás-os-Montes - Na Aldeia da Mó, em Trás-os-Montes, habita, desde 1999, um poeta chinês cujo nome é Wu Sheng Ren. Este poeta, natural da província de Henan e cuja obra bem merecia uma urgente e cuidada edição, habitou muitos anos em Macau, para onde fugiu durante a Revolução Cultural, antes de se estabelecer em Portugal.
Na boa tradição dos poetas chineses, Wu Sheng Ren, depois de se ter dedicado à política e a assuntos mundanos, decidiu retirar-se para longe em busca de contacto com a natureza. Cansado das intrigas de Macau e não desejando então regressar à China, veio para Portugal e escolheu a aldeiazita transmontana para se consagrar ao seu novo estilo de vida. No entanto, como a escola mais próxima da aldeia se situa a catorze quilómetros de distância, o poeta, insensivelmente, foi fazendo as vezes de professor das cinco crianças da aldeia.
Pela manhã, Wu Sheng Ren dá-lhes aulas em chinês, na sua própria casinha de pedra, despojada de haveres. As crianças portuguesas desenham os caracteres, decoram os ensinamentos de Confúcio e recitam poetas da dinastia Tang. Wu Sheng Ren explica que dá as aulas num estilo muito semelhante ao dos primeiros professores que teve, na sua aldeia natal da província de Henan. As cinco crianças, que o estimam e veneram, acompanham-no ainda nos seus longos passeios pelas montanhas e ajudam-no a tratar de uma pequena horta e dos seus três porquinhos. Os pais, camponeses pobres, afirmam preferir que os filhos estudem chinês a que permaneçam analfabetos como eles próprios e mostram-se satisfeitos com este inesperado professor. Aliás, já muitos destes pais conseguem exprimir-se num chinês fluente, embora não o saibam ler nem escrever.



Tartaruga Wenjia - As tartarugas wenjia (à letra, "carapaça escrita") são uma espécie que se encontra apenas em território chinês. Os exemplares desta espécie caracterizam-se por uma particularidade notável: na sua carapaça, apresentam gravados caracteres chineses, alguns deles muito antigos.
A existência destas tartarugas só pode ser explicada à luz da teoria da selecção artificial, num processo em tudo semelhante ao que sucedeu com os caranguejos Heike de Danno-ura, no mar do Japão, que exibem nas suas couraças rostos de samurai. Assim, os cientistas supõem que, originalmente, as tartarugas wenjia seriam semelhantes a todas as outras espécies comuns na China. No entanto, como se sabe, há vários milhares de anos que os chineses praticam a adivinhação com carapaças de tartaruga e também há vários milhares que vêm apreciando a sua carne. Assim, os adivinhos teriam começado por poupar à panela os antepassados das tartarugas wenjia cujas carapaças apresentavam sulcos que se assemelhavam a caracteres chineses. Os chineses acreditam que a origem dos seus caracteres é sagrada. Ao evitar-lhes a morte, e provavelmente sacralizando-as, as tartarugas encetaram um processo evolutivo. Apercebendo-se da vantagem de não apresentar uma carapaça vulgar - a sua morte ficava adiada e havia tempo para procriar - as tartarugas investiram nos caracteres das carapaças, marcas que são hereditárias. Com o fluir das gerações tanto de adivinhos como de tartarugas, aqueles animais cujas carapaças apresentavam caracteres sobreviveram. Hoje em dia, as tartarugas wenjia formam uma comunidade bastante numerosa. Grande coleccionador de carapaças wenjia foi o nosso poeta Camilo Pessanha. Exibiram-se exemplares notáveis no Museu Machado de Castro, em Coimbra. Por ocasião da passagem da administração de Macau para a Rep. Pop. da China, o Museu organizou uma exposição temporária da colecção inteira, infelizmente pouco visitada pelo público. Na loja do Museu, contudo, está ainda à venda o magnífico catálogo (35 euros).




O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) - O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) é o único templo taoista existente em toda a Europa e um motivo de orgulho para o nosso país. Foi inteiramente concebido segundo as normas arquitectónicas dos templos taoistas chineses. A sua estatuária, como, por exemplo, os Oito Imortais no pavilhão do mesmo nome, veio directamente da China. A valiosa figura em folha de ouro do Imperador Amarelo foi oferta do Templo Taoista Zhong Yue Miao, que se ergue na montanha sagrada Song.
De Cantão deslocou-se um célebre especialista em geomancia chinesa (fengshui), Luk Ku Lou, a fim de escolher a localização ideal do templo no cenário da Serra da Estrela. Do Templo Taoista da Nuvem Branca (Bai Yun Guan), em Pequim, chegaram os monges que presidiram à cerimónia religiosa que teve lugar aquando da inauguração, em Outubro de 1998. Alguns permaneceram por ali até se terem formado novos acólitos.
A localização exacta do templo, contudo, é apenas revelada aos iniciados. Diz-se que lhes é ensinada então uma dança oculta destinada a transformar o yang em yin. A dança decorre em cima de um mapa secreto da montanha, cujo reflexo num antigo espelho de bronze que terá pertencido ao próprio Chang Dao Ling - o Mestre Celeste que, no séc. I d.C., converteu o taoísmo numa religião organizada - aponta o local do templo.
Mas como poderá o espelho mágico de Chang Dao Ling ter vindo parar a Portugal?
Chang Dao Ling nasceu no primeiro ou segundo século da nossa era sobre a Montanha do Tigre-Dragão, no Jiangxi. Certo dia, Lao-tse apareceu-lhe sob uma forma espiritual e encarregou-o de encontrar a fórmula pela qual compor o elixir da imortalidade. Chang Dao Ling foi bem sucedido nesse empreendimento. Aos cento e trinta e três anos, subiu aos céus montado no dorso de um tigre e, de seguida, preservou a sua identidade reincarnando sucessivamente num após outro dos seus próprios descendentes. Cada um daqueles a quem coube este privilégio retomou, assim, o nome de Chang Dao Ling. Tais reencarnações continuaram pelo séc. XX adiante. No séc. VIII, um decreto do imperador Xuan Zong deu jurisdição ao Mestre Celeste Chang "sobre todos os templos taoistas no mundo". Isto inclui, obviamente, o Templo Taoista da Serra da Estrela.
Mais curiosa ainda é uma passagem da obra de John Blofeld, Living Taoism. Embora muitos creiam no contrário, Blofeld declara ser altamente improvável que toda uma linhagem de pontífices que se conseguiu perpetuar por quase dois mil anos tenha desaparecido nos nossos dias sem deixar rasto. E refere que alguns estudiosos defendem que foi o governo de Chang Kai-chek quem baniu a última reencarnação do Mestre Celeste, antes dos anos 50 do século findo. Revela ainda que um autor chinês sustém que Chang Dao Ling tem vivido desde então em Macau "como um dragão, entre as volutas de espessas nuvens - o ópio!" Isto explicaria a sua ligação a Portugal e a sua possível implicação na construção e funcionamento do Templo Taoista da Serra da Estrela. Quanto ao ópio, é bem sabido ser um dos componentes essenciais no fabrico das pílulas da longevidade.




Retrato de Joaquim Antunes e família - Joaquim Patrocínio da Silva Antunes, nascido em Gondomar em 1941, é um exemplo feliz do poder de adaptação dos portugueses a alheias terras e gentes.
Entre 1960 e 1963, Joaquim cumpriu o serviço militar em Macau. Ali frequentaria a escola pela primeira vez, terminando a instrução primária.
Cedo deu provas de profunda adaptação à mentalidade asiática, com inexcedível capacidade de miscigenação, conhecendo numerosas senhoras orientais que lhe viriam prestar preciosa ajuda na sua mais notável obra: prolífera procriação luso-chinesa, incontáveis mestiçozinhos que contribuiriam para um aumento sensível da densidade populacional de Macau.
Joaquim Patrocínio da Silva Antunes só regressou à pátria lusa em 1997, já reformado. Aqui permanece, dedicando-se à nobre arte da poesia. Reflecte, nos seus versos, a riqueza das experiências vividas naquele enclave oriental. Eis alguns exemplos, retirados da última obra publicada, "Macau que bi e bibi" (1999):

Numa rua de Macau
eu te abisei sem vulir
ai q' achego-te cum pau
se cum outro eu te bir.

Um português a baler
aonde anda tem mulher
arranja do que comer
cum pauzinhos ou colher.

Sei quem sou e isso canto
desde que cheguei ao cais
de Macau, terra de encanto:

chinólogo, e nada mais!




As curandeiras - Terão reparado numa pequena estatueta portuguesa do princípio do século XX, retratando duas mulheres chinesas que seguram frasquinhos de unguentos, exposta num dos armários da primeira sala do bar-museu "Pavilhão Chinês", no nº 89 da Rua D. Pedro V, em Lisboa? O "Pavilhão Chinês" foi outrora uma farmácia e a estatueta fazia parte do seu espólio, algum do qual adquirido pelo novo dono do espaço.
Essa tosca estatueta é uma humilde homenagem a duas curandeiras chinesas que protagonizaram, em Novembro de 1911, um escândalo de contornos bizarros que abalou a então jovem república portuguesa.
Ajus e Joé, assim as chamavam os jornais da época, numa grafia aportuguesada dos seus nomes originais, eram naturais de Xangai e apresentavam-se como especialistas em devolver a vista a cegos. Os ceguinhos de Lisboa, mais as suas caixinhas de esmolas, guitarras e acordeões, acorreram aos magotes ao humilde hotel onde as chinesas se hospedaram. Naqueles tempos conturbados, o povo sucumbia facilmente à crendice e floresciam as bruxarias.
Todavia, devido talvez ao seu perfume exótico, as chinesas foram tomadas como caso exemplar pelos republicanos, adeptos ferrenhos do positivismo. Resolveram encher-se de brio racionalista e mandaram prender as duas arautas do obscurantismo numa capital que se queria um paradigma do progresso.
A Polícia, porém, deparou com tal resistência por parte dos ceguinhos - que não hesitavam em quebrar as suas guitarras nas cabeças dos agentes - e da populaça em geral, que se tornou impossível evitar um confronto. Rebentou um motim que degenerou em mortes. Estouraram bombas. As redacções de imprensa foram assaltadas. Não fora a pronta acção da cavalaria e Machado Santos teria sido linchado. O caso acaba por ascender ao Parlamento, por iniciativa do ministro do Interior. A prisão das chinesas é usada como mote em comícios e no ataque a adversários políticos. Ninguém consegue manter a serenidade.
A estatueta do "Pavilhão Chinês" é obra de Zeferino Santos, que acompanhava o pai cego nas consultas às curandeiras. O dono da antiga farmácia resolveu adquiri-la para, por graça, a colocar ao lado do anúncio de um medicamento oftálmico.
Quanto a Ajus e Joé, poucos dias depois da sua prisão foram novamente libertadas. Recusaram a extradição para o seu país natal. Algumas semanas antes, a 26 de Outubro desse ano, Sun Yat-sen proclamara a República da China. Receavam ver-se envolvidas com mais republicanos, ainda que chineses. Deixaram Portugal num navio que iria atravessar o Atlântico e nunca mais ninguém soube delas. Tudo quanto resta é uma foto de Joshua Benoliel no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e a estatueta do "Pavilhão Chinês".




Amália em Xangai - Em 1950, o jornal satírico "Os Ridículos" comentava a notícia sobre a actuação de Amália Rodrigues em Xangai, a realizar-se dali a pouco tempo: «(...) A Xangai, à China, achamos francamente fantástico! (...) A verdade, porém, é que achamos a China um país esquisito de mais para o fado (...) Vocês já pensaram, por momentos, no que será um auditório de chineses, todos sentados no chão, a comer arroz com dois pauzinhos e a Amália a cantar-lhes o "Tudo isto é fado" ou "Avé Maria Fadista"?»
Este é o único registo português aludindo à actuação de Amália em Xangai. A notícia foi, de resto, completamente abafada. Nem os jornais da época, nem as biografias de Pavão dos Santos ou Jean-Jacques Lafaye mencionam tal facto. O contrário se passaria em relação ao Japão, duas décadas volvidas, quando o estrondoso êxito de Amália lá obtido alcançou merecido eco no nosso país.
Todavia, Amália actuou de facto em Xangai, decorria o ano de 1950, acompanhada por Jaime Santos à guitarra e Santos Moreira à viola.
A República Popular da China havia sido proclamada no ano anterior e Xangai fora o berço do Partido Comunista. Devido à fama, mas sobretudo devido à modestíssima origem social da fadista, Amália foi escolhida pelos chineses para representar Portugal num espectáculo de folclore internacional.
Ao contrário, porém, do que supunha o jornal "Os Ridículos", Amália não cantou o "Tudo isto é fado" nem o "Avé Maria Fadista". Achou mais graça a, estando na China, cantar o "Grão de Arroz", de Belo Marques ("O meu amor é pequenino como um grão de arroz/ é tão discreto que ninguém sabe onde mora...)
Além disso, com a sua proverbial facilidade para aprender línguas estrangeiras, Amália fez questão de cantar a versão chinesa, levada a cabo de propósito para a ocasião: Wo xin shang de ren er shi duome xiaoxiao de/ ta xiang yili mi side/ ta duome jinshen, mei you ren zhidao ta zhu de difang...
Até aqui, a audiência entusiasmou-se com tal voz e tal mestria do chinês. Mas quando os versos seguintes foram cantados ("Tem um palácio de ouro fino aonde Deus o pôs/ e aonde eu vou falar de amor a toda a hora..."), um dos representantes dos camponeses presentes por entre o público indignou-se e berrou: "Se tem um palácio de ouro fino, não foi Deus que lho deu, mas o sangue e o suor das classes trabalhadoras!"
Foi como um rastilho. A audiência aplaudiu o representante dos camponeses e começou a assobiar e a apupar a nossa pobre Amália que, seguida pelos dois assustados instrumentistas, teve de abandonar o palco lavada em lágrimas. No dia seguinte, partiu precipitadamente para Berlim, onde conheceria um êxito monumental nos espectáculos do Plano Marshall.
Este breve e triste episódio na carreira da grande fadista foi abafado pela própria Amália, que negou sempre ter alguma vez posto os pés na China Popular. No entanto, foi relatado no dia a seguir pelo Diário de Xangai. Esse exemplar do jornal pode facilmente ser consultado na Biblioteca da cidade por quem dominar a leitura dos caracteres chineses. A notícia, de 21 de Setembro, intitula-se "Cantora burguesa é apupada pelo povo trabalhador no Espectáculo de Folclore Internacional".





1997-2000

13 comments:

Ju said...

As ilustrações são uma maravilha! Já tinha lido mas voltei a ler a história da casa "típica" de Macau no Portugal dos Pequeninos e fartei-me de rir... outra vez.

JG said...

Amiga:

Obrigado pela visita e pelos mimos quanto às minhas fotografias.

Agora deixo eu aqui uma perguntinha: de quem são as pinturas que ilustram este post? São suas? Excelentes. Gostaria de as transferir para o meu Século Prodigioso mas, para isso, preciso do seu sim.

Fico à espera.
Entretanto, um beijo e bom domingo

Jorge P.G. said...

Excelentes imagens, belíssimas pinturas ( de quem são? suas?) e textos muito interessantes e narrando factos e pessoas de que nem suspeitava que existissem.
Tudo com um gosto sereno e arrumadamente oriental. Um primor!
Gostaria de publicar um dos seus artigos no meu "O Sino da Aldeia" para divulgação do seu trabalho a mais gente.
Aguardo notícias suas quanto a este pedido.

Jorge G - O Sino da Aldeia
& outros mundos.

MMB said...

Caro:
Gostaria de saber qual a sua fonte relativa ao incêndio no Pavilhão de Macau, ou se se trata só mesmo de imaginação. Muito obrigado.

Okawa Ryuko said...

Obrigada pelo seu comentário.
"Cara" e não "caro".

O meu objectivo é mesmo esse: confundir o leitor, dar-lhe pistas verdadeiras e falsas ao mesmo tempo, sem as destrinçar, pelo que não o farei agora.

MMB said...

Certíssimo Cara. A blogosfera é um lugar livre para todas as "tripes". Obrigado pela informação e pelo esclarecimento. Sou investigador e embora seja adepto da ficção, faço questão que ela não seja incluída nos meus trabalhos científicos. Sou interessado pelos Estudos de Macau e nunca ouvi falar em tal acontecimento. Achei apenas curioso a possibilidade de destrinçá-lo, mas como já vi que não está disponível no momento para ajudar, vou fazer-me à vida - obrigado.«'

Okawa Ryuko said...

Certíssimo Caro. Também sou investigadora. Não sei por que razão julgou que isto se tratasse de um trabalho científico. No topo está escrito 'Ficções'. Não conheço nenhum ficção pura; incluem sempre elementos factuais. Mas chame-lhe trip, a mim agrada-me imenso. Prestar esclarecimentos iria contra o meu objectivo ao escrever isto, compreenda.

MMB said...

Cara:

Como bem sabe, uma das problemáticas mais interessantes com que se debate a historiografia (e sempre debateu, mas apenas agora se discute) são precisamente as ficções incluídas nos relatos históricos. Sou defensor acérrimo da história abrangente (incluindo relatos orais com a carga emocional possível), mas acima de qualquer coisa baseados em provas documentais (mesmo que bem saibamos que estas sejam interpretadas de alguma forma).
Macau é muito pródigo em adaptações livres de evidências históricas que depressa se tornam escola e são incluídas nos livros.
Tendo em conta isso mesmo, e mesmo sabendo que o título do post é "Ficções" poderia eventualmente ter ido buscar inspiração a uma qualquer fonte (dita histórica) onde isso constasse. A única incongruência que encontrei em toda a ficção (mas que mesmo assim fiz questão de relevar por assumir que nada sei, afinal) foi a referência a documentos fechados no Arquivo Salazar. É possível que algumas limpezas tenham sido feitas (a documentos do arquivo), mas em termos formais, e que eu saiba, não há já documentos inacessíveis.

Entretanto, aproveito para lhe chamar a atenção para o facto de que a sua ficção já consta como sendo eventual/possível facto em outro local da blogosfera:

http://macauantigo.blogspot.com/2009/05/o-pavilhao-de-macau-na-exposicao-de.html

Cumprimentos

MMB

Contacto: mariomb@yahoo.com

Okawa Ryuko said...

Sim; e isto não é um relato histórico. Não é sequer uma ficção baseada em relatos históricos.É uma ficção com alguns factos históricos, como costuma acontecer com as ficções. Só que tentei 'puxar' isso ao limite. E vejo que consegui, pelo link que indica. Algo de semelhante já me sucedeu com outra das minhas Chinoiseries, a da ida de Amália à China. Era mesmo esse o meu propósito, lançar confusão. Pois quem neste mundo jurar que sabe com certeza onde acaba a realidade e começa a ficção é o mais confuso entre os homens.

antoniocabeca said...

Bem! só posso demonstrar a minha admiração pelo seu trabalho, de uma ponta à outra, a qualidade é de uma precisão fantástica! uma operação onde o estilete por si manejado, fez o preciso corte sem derramar nem pinga de sangue. O seu trabalho é mais preciso que relógio Suíço!!!!. A qualidade sempre vence, no seu caso matéria dessa, não falta.

cabeça said...

Bem! só posso demonstrar a minha admiração pelo seu trabalho, de uma ponta à outra, a qualidade é de uma precisão fantástica! uma operação onde o estilete por si manejado, fez o preciso corte sem derramar nem pinga de sangue. O seu trabalho é mais preciso que relógio Suíço!!!!. A qualidade sempre vence, no seu caso matéria dessa, não falta.

Okawa Ryuko said...

Obrigada pelas suas palavras, Cabeça!

Okawa Ryuko said...

Estive a ver os seus blogs, Cabeça. Qualidade é coisa que não lhe falta a si! A-R-T-I-S-T-A com todas as letras!Parabéns!