É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

Wednesday, March 15, 2006

FILOSOFIA

"SE ESTIVÉSSEMOS REALMENTE AQUI"

O contacto com o Presente - reflexões sobre a Arte a propósito das entrevistas a Allen Ginsberg em "Spontaneous Mind. Selected Interviews 1958-1996"

A tragédia do homem moderno provém do facto de se ter vindo paulatinamente a separar de qualquer realidade que não fosse a dos seus próprios processos e determinações mentais. O mundo foi assim constrangido até se reduzir a eles, numa total ausência de cumplicidade com a realidade exterior. As coisas mesmas, naquilo que nelas é irredutível a objecto para uma mente, foram esquecidas. O homem tornou-se incapaz de conceber mais do que a sua própria existência - tornou-se o centro e tudo quanto há é esse centro. Ao reduzir tudo a si, ao negar radicalmente a sua estrutura de mesmo-outro, confinou as suas palavras e gestos a um sentido unívoco, esterilizou-as ao arrancá-las do mundo. Desenraizado, rodopia sobre si mesmo. Contudo, o puro mesmo, por não poder ter mais do que um sentido, não tem sentido absolutamente nenhum. Isto porque o verdadeiro sentido retira-se sempre para o outro. É o outro que é o sentido; é no outro que o mesmo se ganha.
A recusa da Diferença determina no homem moderno a incapacidade de celebrar um acordo com a vida e consigo próprio. Tanto assim é que, refém de si mesmo, chega ao ponto de classificar os seus actos de desumanos, inumanos, sub-humanos, em total alienação com o seu próprio ser. Conclui-se então que o centramento paranóico em si corresponde, na verdade, ao seu completo descentramento - à ausência de si próprio, testemunha da sua morte espiritual. Não possuindo, todavia, a capacidade de o reconhecer, projecta essa ausência no Outro e afirma a Sua morte. Desviado do seu Centro, supõe que Ele o abandonou. Além disso, preenche o vazio do Outro multiplicando-se em intenções, isto é, vivendo obcecado pelo futuro e condicionado pelo passado. Ora, por muito paradoxal que pareça, a vida repleta de intenção não tem conteúdo nem significado. O homem apressa-se para diante e tudo deixa escapar, nada consegue sentir. Não consegue sentir o Presente (1).
De modo inverso, a vida sem intenção, sem alvo a atingir, não se apressa, logo, nada deixa escapar. Apenas quando não há alvo nem pressa há espaço em nós para receber o mundo. Para sentir o Presente. Para isso, é necessário que caiam todos os muros, todas as obstruções mentais. O terreno seguro da intelectualidade deve ser abandonado e penetrar-se no domínio da vivência. Então é possível viver no mundo, não numa sua mera representação, objecto e construção do pensamento (2).
Nestas entrevistas, que percorrem quase todos os grandes temas místicos, Ginsberg descreve o momento em que a sua mente se desobstruiu e nele se despoletou uma radical mudança na maneira de ver o mundo. Vários factores interessantes de analisar concorreram para que tivesse a sua primeira percepção daquilo a que chama Realidade Suprema naquele preciso momento: encontrava-se num estado de alma negro, isolado, deprimido, em coita de amor; ruíam as suas idealizações do amor; na vida activa, situava-se num ponto de viragem, sem saber para onde ir. Além disso, dera-se uma quebra no controle do ego (sexo) e acabara de ler poesia profundamente significativa. Em suma, experimentava uma pequena morte, a sua antiga pele (os seus limites e protecções) desfazendo-se. O passado evaporara-se; o futuro era imprevisível. Tal vazio era um espaço receptivo a que algo maior do que ele - o Presente - o avassalasse. Quando há vazio, a Realidade sempre presente, o que está aí, o famoso "aqui e agora", acha lugar para se manifestar em nós.

Allen Ginsberg


O Presente é presença, testemunho eficaz do pulsar da vida. E, livre de constrangimentos espácio-temporais, a visão do Presente é absolutamente coincidente consigo mesma (3). Ao sentir-se no Presente, Ginsberg afirma ter estado vivo pela primeira vez, "...being alive unto myself, alive myself unto the Creator" (4). Percebeu que estivera dantes ausente de si próprio, ausente de si como mesmo-outro, nem aqui nem agora, como que meio morto; e que a maior parte do tempo estávamos todos meio-mortos e que isso se encontra inscrito nos corpos, corpos em defesa, bloqueados, de gestos condicionados, inexpressivos, maquinais, numa palavra, corpos rígidos e sem graça como na morte (experiência na livraria) (5). Eis o retrato do homem moderno, o homem de vida pálida, ausente de si, isto é, cheio de "eu".
A captação da Realidade a que se refere Ginsberg só é passível de ser conseguida através da supressão do pensamento lógico. A atitude lógica e analítica decompõe, divide, autonomiza as partes de um todo, realçando nelas aquilo que as diferencia umas das outras, tornando-as antagónicas e irreconciliáveis. Contudo, a Realidade mostra-se irredutível a dados informativos, formulações lógicas, profusão de leis científicas, conceitos claros e distintos (6). A atitude eminentemente espiritual é sobretudo participação, vivência no próprio interior do Cosmos, uma disposição não passiva, mas atenta e cônscia, apta a integrar tensões e contradições, isto é, a levar a cabo sínteses. Contradições e diferenças não se fundem, o que equivaleria a negá-las, mas antes se albergam numa unidade que o é porque é tensional, "com-posta" dessas contradições e diferenças. São aceites de modo a apontar-se para além delas. Participa-se no seio da verdade, não numa mera informação sobre ela. É uma atitude que não se dirige em primeiro lugar ao intelecto, não visa contribuir para a actividade especulativa ou acumulação de conhecimento - é a experiência de se ser si próprio, quer dizer, de voltar para junto do Outro, do seu centro, do irrecusável.
O resíduo inacessível à ciência e às suas explicações ou mesmo a explicações de qualquer tipo - filosóficas, religiosas - e que é, a um tempo, aquilo que as funda e fundamenta, escapa por isso mesmo a qualquer tipo de comunicação. A existência da comunicação tem como condição necessária a divisão sujeito/objecto. A experiência da participação remete para uma identidade que torna artificial qualquer partição rígida entre a multiplicidade de coisas e seres.A existência é percebida como estrutura de totalização, passível de ser dada apenas através de uma postura e posição no mundo, não um sentido meramente espacial, mas de concomitância. O "aqui e agora" é o topos de confluência dos paradoxos, da co-pertença originária dos contrários (visível e invisível, sensível e inteligível, silêncio e palavra, pluralidade e unidade...), um concentrado de vida. A experiência do Presente é, pois, um "estar junto", uma experiência de comunhão.
Ginsberg irá procurar reiterar essa experiência do Presente - a sensação de vibração da Realidade - e toma como missão transmiti-la em obra. Para isso nasceu, sente ("Will I spend my life in praise of the idea of God?"). No entanto, apenas por conseguirem exprimir de algum modo o Presente - quanto melhor forem capazes de o exprimir numa obra, mais qualidade terão - os artistas não podem ser considerados especialmente dotados para as coisas do Espírito, e muito menos, erro perigoso, iniciados ou uma espécie de sacerdotes laicos do mundo moderno, como parecia Ginsberg ambicionar como estatuto (7).



Allen Ginsberg


Qualquer actividade humana pode ser uma via espiritual - não é tanto aquilo que se faz quanto a maneira como se faz - o que equivale a dizer que não há via. Isto porque o homem é, por natureza, espiritual. Apesar da nossa civilização moderna, nem mesmo para o homem ocidental comum é algo de extraordinário pressentir, ao contemplar o sol poente, os anjos de Blake cantando "Sagrado!". O que distingue os artistas é possuirem a capacidade e a necessidade de exprimirem sensivelmente através de palavras, sons, formas, etc. essa percepção inexprimível dessa maneira para a maioria de nós. Outros exprimi-la-ão pela cura, pelo ensino, pela conservação da Natureza, pela dedicação à paz mundial ou pelo humor (essa saudável, maravilhosa actividade de rir do seu eu e do eu dos outros), etc. (8)
Esse tipo de percepção, que pode com justeza chamar-se simbólica e que é a percepção natural ao homem - o homem é o animal de símbolos; ele próprio é símbolo - difere da visão contra-natura, pretensamente objectiva, que é sem empatia, artificial, requer esforço de abstracção e talvez mesmo um coração que secou. Como diz Ginsberg, consegue ver apenas o sol, sol - pouco mais do que uma sigla, uma etiqueta sobre o astro (9). Apesar de tudo, continua a ser muito mais difícil, a requerer um distanciamento muito maior, olhar para o céu estrelado e ver pedregulhos, do que ver revoadas "de anjos a cantar sagrado, sagrado, sagrado". Tanto assim é que a nossa civilização ocidental moderna foi a única a tentar fazê-lo. Esse esforço é mesmo a sua característica principal.
Nesta ordem de ideias, os artistas não podem ser considerados mais "iniciados" do que o anónimo jardineiro que vê "o céu num grão de areia" (o próprio Ginsberg depressa descobre que todos sabem, mas que não querem, ou melhor, não podem, não conseguem viver isso). São experiências demasiado comuns para poderem ser consideradas sinais de verdadeira iniciação. Muitos seres humanos, num momento ou outro, passam por elas.
A verdadeira iniciação não se dá apenas em momentos de contacto com o Presente - a demasiados de nós é facultado esse vislumbre, essas, concedamo-lo, pequenas iniciações - mas quando esse contacto é tão assíduo e avassalador que implica uma transformação radical de todo o ser. Quando fica inscrito de forma indelével na nossa maneira de ser, nas nossas acções. O que equivale a não deixar esmorecer a experiência do Presente, a evitar retomar hábitos antigos, a saber utilizar na vida quotidiana a compreensão adquirida durante essa experiência. Além disso, existem seres humanos - muitas vezes humildes - que, sem terem passado por tal tipo de experiência súbita de contacto, se acham sintonizados com a Realidade, como se algo neles nunca tivesse sido corrompido.
Muitos artistas, pelo contrário, bastas vezes adoptam um comportamento notoriamente mesquinho, que evidencia o seu baixíssimo nível de consciência (10). Aniquilar as barreiras do eu mais do que apenas momentaneamente, equivaleria a pulverizar a hipocrisia e a inautenticidade, o interesse e a perfídia, a cobardia e a vingança, o melindre e o ressentimento, a vaidade e a obsessão. Por grandes artistas que sejam, jamais deverão ser consideradas pessoas espiritualmente evoluídas se apresentam semelhantes fraquezas de carácter, verdadeiros sinais do mal.
Singulares e especiais, eis como muitos artistas gostam de se fazer parecer, o que aliás é patente nas próprias entrevistas a Ginsberg, tão cheias de "eu", de um "eu" que se faz passar por tão único. Ora, o eu é precisamente aquilo que menos interessante há em nós e, como já foi dito, é o maior obstáculo para o contacto com o Presente (11). Na verdade, somos todos muito mais parecidos uns com os outros do que julga ou deseja a nossa vaidade pessoal. As nossas diferenças são pouco mais do que circunstanciais. O verdadeiro sábio, esse, não deseja salientar-se (12).
Apenas aqueles que, para além do momento da execução da obra ou do usufruto dela, ou mesmo sem qualquer capacidade artística, conseguem permanecer na esfera do esquecimento do eu - o estado de "com-paixão" dos budistas, de sofrer com os outros - podem ser considerados iniciados (13).
O contacto com a Realidade Suprema, de empatia com o mundo, traduz-se numa sensação de vida e alegria (da raíz latina al-, que significa "asa"; ser alegre é ser alado, dirigir-se à luz e escapar ao peso e sua inércia mortal, escapar a Thanatos. Ginsberg: "...it was a lightness in my body... my body suddenly felt light..."). Essa sensação não nos deve servir apenas a nós próprios, mas servir sobretudo os outros e o seu desenvolvimento espiritual (após anos de aturada dedicação à expansão da consciência, Ginsberg descobre que Buber o ultrapassara: "Buber said that he was interested in man-to-man relationships, human-to-human - that he thought it was a human universe that we were destined to inhabit. And so therefore human relationships rather than relations between the human and the nonhuman".)
O maior sinal de iniciação é a bondade, a qualidade mais rara e mais difícil, que é também a mais discreta, aquela que prefere não assinar a sua obra, que opta pelo anonimato uma vez que prescinde de reconhecimento. Nem sequer questiona sobre se houve gratidão. A bondade (isto é, a acção desinteressada em prol do bem estar físico e desenvolvimento espiritual dos outros) traduz real elevação espiritual, real personificação de iluminação. Não a capacidade artística ou o discernimento filosófico (ressalve-se que, para o filósofo da Antiguidade, a filosofia era acima de tudo uma maneira de ser, uma adequação entre a teoria - etimologicamente, "visão" - e a prática, não simplesmente uma interpretação do mundo).
A arte é o sentido configurado sensivelmente e é provável que esse nível sensível, livre de qualquer tipo de subserviência em relação ao inteligível, lhe empreste uma capacidade de interpelação superior à da linguagem conceptual, filosófica, amiúde descarnada em demasia. Assim, os filósofos modernos, se acreditavam na existência de Deus, esforçavam-se por o provar nos seus escritos (necessitando de prova humana, usurpavam-Lhe toda a divindade...); a arte manifestava-O. É no sensível que está patente o supra-sensível, nele habita. O in-visível habita no visível. (14).
Mas há que distinguir claramente entre artistas e obras de arte. As mais das vezes, o despertar da visão interior requer um contacto estreito com uma doutrina tradicional ou com um guru, ou seja, com alguém que torna os outros capazes de escolher o seu próprio caminho, sem indicar qual o caminho a seguir. Não os artistas, meros veículos ou mensageiros, mas as obras de arte, essas sim, podem ser consideradas uma espécie de gurus não humanos, porque conseguem despertar a consciência espiritual, como tudo quanto afirma a dimensão simbólica: mitos, doutrinas tradicionais, os belos gestos...(15)
A obra de arte é o testemunho dessa visão participativa, onde a matéria, os sons, as palavras, se tornam advertência sobre uma verdade mais alta, e para ser a própria experiência aonde essa verdade se dá. Na obra-de-arte, nesse pequeno lugar em que tudo está ao pé, a comunhão presentifica-se e, para quem souber escutar, ou ler, ou olhar (olhar com empatia, que é mais do que apenas observar, é olhar de tal maneira que na verdade quase se dispensa o sentido da visão) realiza-se (16). As obras de arte proporcionam muitas vezes uma satisfação profunda e induzem a uma abertura de espírito, reflectindo-se mesmo em qualquer tipo de transformação interior (caso de Ginsberg com Blake). A Realidade pulsa na arte e sussurra ao espírito (17). A obra de arte é também uma prece, porque, ao exprimir o Presente, se re-descobre, se re-conhece que todo o universo é oração feita matéria (18).
Re-conhecemos, re-descobrimos porque, na verdade, já o sabíamos. O conhecimento é trazer à consciência aquilo que o subconsciente sabe de antemão. (Ginsberg: "Our version of expanded consciousness is as much as unconscious information - awarness comes up to the surface") Como é bem sabido, para Jung essa sabedoria é colectiva e herdada. O subconsciente sabe quem somos realmente. Uma das tarefas principais e essenciais no processo de desenvolvimento espiritual é o trabalho contínuo de ajustar progressivamente o conceito que temos de nós próprios à realidade (19). Quando uma grande parte dessa tarefa da vida inteira se desencadeia subitamente, como um relâmpago (caso de Ginsberg em Harlem), a mudança dramática de consciência produz o sentimento de que se estava cego e de que se passou a ver. Em termos de auto-conhecimento e auto-revelação, o subconsciente é uma parte mais sábia do que nós, mais sábia do que a consciência que temos de nós próprios.

Allen Ginsberg


Procurando reviver o Presente, Ginsberg percorreu também o caminho do desregramento de todos os sentidos, excessos e drogas. Sexo e drogas, no entanto, não podem por si abrir a porta do desenvolvimento espiritual (20). O desregramento de sentidos implica perda do eu mas a perda do eu é uma faca de dois gumes. O eu fica à mercê de todas as forças poderosas, sobretudo das maléficas e vampirescas. É certo que, como diz um velho fado, "Na lama das ruas sujas brilham os astros do céu". Na verdade, os astros dos céus brilham por toda a parte, a lama suja é que, por contraste, lhes dá um brilho mais intenso. Embora no excesso e nas drogas (recordemos o percurso de Sto. Agostinho) se possa também achar a Realidade (21), o risco dos homens de virem a servir de repasto a vampiros é muito maior. Além disso, grande parte dos que enveredam por esse caminho encontram-se já espiritualmente degradados e muitas vezes não buscam mais do que a morte. O desregramento dos sentidos num ego doente e enfraquecido pela negação e repressão do inconsciente tornado monstruoso (22), originando a queda das suas defesas e controle, conduz à dependência, à obsessão e ao vício, sinais inegáveis de miséria espiritual (Ginsberg: "I don't renounce drugs but I suddenly didn't want to be dominated by that nonhuman anymore, or even be dominated by the moral obligation to enlarge my consciousness anymore."). As drogas, por exemplo, assemelham-se a certas doenças mentais, que aparentam a princípio grande riqueza criativa ou sensitiva, mas que acabam por revelar que, além de uma única visão obsidiante nada mais se cria, só há deserto estéril, caso da esquizofrenia (23). Poderão abrir portas apenas a seres já de si espiritualmente em expansão, cujo ego não se desgasta em lutas vãs contra o inconsciente, mas que sabem mover-se com facilidade entre um e outro. Seres que, provavelmente, chegariam lá de outro modo. Talvez mais devagar mas, como já foi visto, em assuntos do espírito a pressa pode ser fatal. Todavia, à mulher e ao homem verdadeiramente criativos a Realidade consegue fazer delirar e alucinar sem ajuda de substâncias exteriores. Os seus paraísos não são artificiais. O seu delírio vem de dentro para fora, não de fora para dentro (24).
A solução, pois, não é procurar - a procura assemelha-se sempre demasiado a uma fuga, além de que é um eu que não se esquece de si próprio em acção - porque é esvaziar-se e não encher-se (25). Na procura, o próprio espírito pode tornar-se um vício. Ora, esclarecimento intelectual quanto à natureza da Realidade ou o desejo de a apreender, são, provavelmente, os maiores obstáculos para a encontrar (26). Ginsberg apercebeu-se, na Ásia, de que caíra nessa armadilha, de que afinal buscava o coração e não a mente (27). Por fim, completou um percurso espiritual circular, regressou, de certa forma, ao mesmo sítio, a Harlem, onde sentira que "God was in front of my eyes - existence itself was God". Não é preciso ir ao outro lado do mundo em busca da Realidade Suprema - ela está em nós (28). Mas, ao mesmo tempo, é muitas vezes realmente preciso ir até ao outro lado do mundo - ao outro, à diferença - para a reconhecer em nós (29). É que o outro somos nós.
A sintonia com o Presente - a perda do "eu" - não deve ser deliberadamente procurada. A procura é fruto de um "eu", projecta o futuro, esquece o Presente. Ginsberg não procurou o seu primeiro contacto com o Presente. Foi tomado por ele inadvertidamente (30). A capacidade de encontrar tesouros não procurados está disponível para todos mas apenas alguns dela usufruem (31). Encontram-nos porque não oferecem resistência a eles. Outros não apreciam o valor do que lhes é dado. Olham-nos como coisas banais, passando-lhes assim de lado (Ginsberg: "...this place would be everything that one would refer to as divine, if one were really here."). Por isso, o contacto com o Presente é uma graça, um estado de graça. A origem última da graça provém de uma força poderosa exterior à nossa conciência que acalenta o desenvolvimento espiritual dos seres humanos. Essa força reside no subconsciente - é o divino em nós - e sobretudo para além das fronteiras dos indivíduos. Os cristãos chamam-lhe Amor ou Bondade Divina.
Cinzelemos, pois, com amor, as cornijas dos nossos edifícios ou, como Cândido, cuidemos do nosso jardim.



Notas

(1) "O passado e o futuro travam o efeito salutar do sofrimento, fornecendo um campo ilimitado para evasões imaginárias. É por isso que a renúncia ao passado e ao futuro é a primeira das renúncias." Simone Weil, Le pesanteur et la grace.
(2) "Dao Xin, que viria a ser o Quarto Patriarca Zen, quando chegou perto do Terceiro Patriarca, Seng-Can, perguntou-lhe:
- Qual é o caminho para a libertação?
- Quem te amarra? - replicou Seng-Can.
- Ninguém. - respondeu o outro.
- Então - perguntou Seng-Can - porque procuras tu a libertação?
E foi assim o Despertar de Dao Xin."
O mesmo Seng-Can no
Xin Xin Ming: "O homem ignorante ata-se a si próprio... / Se trabalhas a tua mente com a tua mente/ Como podes evitar uma grande confusão?"
(3) Presente - o instantâneo e o eterno feitos um: "Homem, erguendo o teu espírito acima do espaço e do tempo,/Podes estar em cada instante na eternidade." Angelus Silesius.
(4) Daí as palavras "re-nascer" ou despertar para designarem este tipo de experiência e a figura mística do Recém-nascido.
(5) Os corpos espelham as doenças do espírito, de onde a tradicional dicotomia ocidental entre corpo e espírito não terá razão de ser. Aliás, as disciplinas místicas (como o yoga, o tantra, a tradição dos derviches rodopiantes, etc.) exploram ao máximo a intimidade corpo/espírito. A bio-energética tem aí também uma palavra importante a dizer (cf. Alexander Lowen,
Bio-energetics).
(6)
"Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte"
Ruy Belo
(7) E, entre outros, Paul Klee na sua
Teoria da Arte Moderna, que vê o artista como um filósofo, mas um filósofo superior, porque não descobre apenas, realiza, cria, transforma a realidade ao apontá-la no gesto de pintar. Une a dimensão especulativa à dimensão vital. E transformar só é possível àqueles que acederam a essa realidade, àqueles que conseguem vivê-la, que se sabem parte dela e são realidade agindo. Klee conclui, por isso, que a arte é iniciação e o pintor um iniciado. "O iniciado pressente o ponto original da vida", afirma.
(8) Uma definição possível para a neurose, comum na nossa civilização, poderá precisamente ser a negação ou repressão da sensação do Sagrado, que se perverte então sob a forma de fobias, compulsões, etc.; os psicopatas serão antes aqueles que já nem sequer possuem a capacidade de O sentir. Tudo se dessacralizou a seus olhos, excepto a sua própria vontade.
(9)
"La science rationnelle, dite exacte, limitée aux poids et aux nombres, ne peut rien comprendre à l'idée que les étoiles sont des qualités, pas plus qu'elle ne sait quoi faire d'une rose ou d'un lys. Elle analyse la fleur, constate la couleur rouge, et ce qui avait été rose et avait fait le bonheur d'un amant lui reste dans la main sous la forme d'un petit tas de cellules.", Peuckert, L'Astrologie. Son histoire. Ses doctrines. Este empobrecimento em face do mundo de uma certa forma de fazer ciência é vivamente ilustrado pelas palavras do astrofísico Hubert Reeves: "Não acho que a astrologia esteja ligada aos astros. Acho que está mais próxima de uma psicologia. (...) Vou dar-lhe um exemplo: o tipo mercuriano define uma pessoa brilhante, mas instável e fugidia. É verdade que Mercúrio é muito difícil de ver, mas é muito brilhante ao pôr e ao nascer do sol. Contudo, quando é observado de um satélite, Mercúrio não é nem brilhante nem fugidio, não passa de um grande pedregulho!" Logo, Mercúrio é muito mais um pedregulho do que é brilhante e fugidio porque as coisas são apenas o que as máquinas vêem!
(10) "Durante muito tempo tive a falsa ideia que um artista era um ser "muito bonzinho". Tenho contado algumas vezes que quando era advogado tinha a constante nostalgia de me passar para o lado das letras e das artes, farto que estava daquele pequeno mundo à volta dos interesses materiais. Imaginei que a vida dos artistas seria desinteressada e que, lá, as pessoas só ligavam às coisas do "espírito". Foi um engano: vi depois invejas, inimizades, ódios mesquinhos, uma vida de golpes e de traições, de tal modo que cheguei a ter saudades da generosidade dos meus comerciantezinhos a quem eu cobrava as dívidas.
Depois soube muito mais: que muitos artistas estavam marcados, não tanto por uma vida difícil quanto pela maldade e pelo mau carácter." Alçada Baptista, numa crónica de jornal.
E Matthieu Ricard em
O Monge e o Filósofo:
"(...)Na altura ainda não tinha uma ideia precisa sobre o budismo, mas o simples facto de ver esses sábios, através do pouco que pode transparecer num filme, dava-me o pressentimento de uma perfeição profundamente inspiradora. Era uma fonte de esperança. No meio em que cresci, graças a ti encontrei filósofos, pensadores e homens de teatro; graças à mãe, a pintora Yahne Le Toumelin, encontrei artistas e poetas... como André Breton, Maurice Béjart e Pierre Soulages. Graças ao meu tio Jacques-Yves Le Toumelin, encontrei célebres exploradores; graças a François Jacob, os grandes sábios que vinham ao Instituto Pasteur dar conferências. Deste modo fui contactando com personagens fascinantes a muitos títulos. Mas, ao mesmo tempo, o génio que cada um manifestava na sua própria disciplina não era necessariamente acompanhado, digamos... de uma perfeição humana. Não era o seu talento e capacidades intelectuais e artísticas que os tornavam bons seres humanos. Um grande poeta pode ser um malandro, um grande sábio pode ser infeliz e um artista pode ser orgulhoso. (...) Encontrei-me com Igor Stravinsky e com outros grandes músicos. Tive a sorte de caminhar a passo com muitos dos que suscitam admiração no Ocidente e de poder fazer uma ideia, de me perguntar: "É a isso que aspiras? Queres ser como eles?" Ora, tinha a sensação de que isso me sabia a pouco, pois apesar da admiração que tinha por eles, constatava que o génio desses homens num domínio particular não era acompanhado pelas perfeições humanas mais simples, como o altruísmo, a bondade ou a sinceridade. Em contrapartida, esses filmes, essas fotografias, faziam-me descobrir algo mais, algo que me atraía nesses mestres tibetanos; a sua maneira de viver parecia o reflexo exacto daquilo que ensinavam."
(11) "O pecado em mim diz "eu".
Eu sou tudo. Mas este "eu" é Deus. E não é um eu."
Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce.
(12) "Nem se sabe que existe", afirma Lao Tse e "(...) no mundo
sufi do Islão (...) muitas vezes se diz que um pîr, um mestre, e sobretudo o mestre dos mestres, o polo, deve permanecer desconhecido, às vezes até de si próprio. Porque no seio da humanidade são aqueles cuja qualidade interior constitui um campo de forças determinante para o benefício e salvaguarda da vida. Estes seres, que se constituem como centros espirituais, existem para criar à volta deles influências benéficas propícias a manter ou a transformar a tradição secreta." Michel Random, prefácio a Os contos das artes marciais.
(13) "A morte de qualquer homem entristece-me, porque faço parte da humanidade; por isso, não perguntes nunca por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti." escreveu John Donne. Nós somos o morto. Mas somos também o assassino. Somos as vítimas e somos os carrascos. Por isso é que a nossa liberdade só começa quando começa a liberdade dos outros e a nossa felicidade só começa quando começa a felicidade dos outros: "A felicidade perfeita exclui o próprio sentimento de felicidade, porque na alma cheia pelo objecto, nenhum canto fica disponível para dizer "eu"." Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce).
(14) Shitao em
A Pincelada Única: "Mediante a Pincelada Única, o homem pode restituir, em miniatura, uma entidade maior sem diminui-la: se, em primeiro lugar, o espírito nasce de uma mesma e só visão clara, o pincel chegará à raiz das coisas."
(15) Em Edoi Lelia Doura, escreveu Herberto Helder a propósito de Edmundo de Bettencourt: "Foi para alguns de há anos um mestre, no sentido mais que perfeito em que não dizia como era, nem se representava a si próprio como o modo e o modelo, mas como perscrutador do nosso caos interior e estimulador da pessoal riqueza possível em cada um.
A sua dádiva - que não recorria aos métodos brutais da frontalidade, antes nos envolvia furtivamente - não estava à espera de correio. Nenhum deu resposta à altura. Nele, a generosidade não era um investimento, era um sentimento activo apenas, um porque sim."
É precisamente desta maneira que as obras de arte são verdadeiros gurus.
(16) "Saimos do auto e fomos contemplar uma escultura do Cristo crucificado, de tão ingénua divindade e tão ingenuamente martirizada que as suas chagas vermelhas pareciam rir-se do artista que as pintou...
Estava eu numa atitude de crítico ou de idiota, quando me tocaram no braço esquerdo. E logo uma rapariga, de onze anos talvez, apontou-me o Crucifixo, dizendo:
- Aquele é o Senhor...
O seu gesto, o timbre da sua voz, não sei reproduzi-los. Afligem-me, agora, como certas nuances das coisas, que afloram na imaginação mas fogem ao domínio da palavra.
Que significado o daquele gesto! E aquela voz percurtiu-se, na minha memória, de lembrança em lembrança, até à primeira, a que nos abre as portas do mundo. A contar dela é que principiamos a viver. Irrompemos, para a luz da consciência, dum fundo insondável e tenebroso.
A frase "Aquele é o Senhor!" animou de repente a tosca imagem de madeira. Dali ao Cristo vivo de João e das nossas aflições mediou apenas a minha sombra miserável.
Mas aquela frase tinha uma virtude própria: a virtude dos lábios que a pronunciaram (escrita não significa nada) e a virtude da inocência, como essa que transluz numa flor, e é uma energia primaveril que incendeia de vida a morte. Soou nos meus ouvidos como um toque de moeda em que se ouve o oiro a retinir. O oiro é que se ouve, não é a moeda. Assim, nas palavras da rapariga ouvi apenas a verdade. E a verdade divina não se demonstra: afirma-se, que a sua prova real está na sua evidência. Cada forma, espiritual ou material, afirma a sua existência. Existe a luz porque nos fere os olhos. E Deus também nos fere, porque O negamos e afirmamos, injuriamo-Lo e adoramo-Lo, matamo-Lo e morremos por Ele."
Teixeira de Pascoaes,
A Beira num relâmpago.
(17) O que se passa na obra de arte, na sua feitura e no seu usufruto é muito semelhante ao que se passa quando alguém declara o seu amor a outrém, como explicita Simone Weil em
Le pesanteur et la grâce: "As mesmas palavras (ex. um homem diz a uma mulher: eu amo-te) podem ser vulgares ou extraordinárias segundo o modo como são pronuncidas. E este modo depende da profundidade da região do ser de que provêm, sem que a vontade possa aí intervir. E, por um acordo maravilhoso, elas vão tocar, naquele que as escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tem discernimento, o que valem essas palavras."
Eis uma descrição acurada do que sucedeu a Pascoaes (cf. nota anterior).
(18)
"Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas,
louvai nas alturas
Deus das criaturas.
Louvai, arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas."
Gil Vicente
(19)
"La Realization ne consiste pas à acquérir quelque chose de nouveau, et ce n'est pas non plus une faculté nouvelle. C'est tout simplement se débarraser de tout camouflage." Ramana Maharshi, Entretiens.
(20) A menos que o seu usufruto esteja integrado numa disciplina espiritual. Por exemplo, no Tantrismo, o sexo, não pela fuga ou negação, mas no seu próprio seio e com as suas próprias armas, em vez de ser utilizado para a obtenção de prazer físico, é transformado em energia espiritual. Diz um aforismo tântrico "Os mesmos actos capazes de arrastar o ignorante para as profundezas do inferno podem levar o homem sábio à máxima libertação." Prosaica e catolicamente, no intuito de vencer a tentação, não se deveriam pôr frades e freiras com voto de castidade, não em conventos separados, mas a viver nos mesmos edifícios e partilhando os mesmos quartos? Sem a maçã, como obterá Eva o poder de escolha entre colhê-la ou não?
(21)
"O vinho me embriaga. Que se ria
o sufi santo de tão louca orgia.
Talvez se forje em vil metal a chave
da porta a que ele uivou e não se abria."
Omar Khayyam
(22) O mal, intimamente ligado ao poder pessoal, é precisamente fazer tudo quanto se possa para preservar a integridade do seu eu doente. No intuito de escapar à dor do desenvolvimento espiritual, não hesitar em destruir os outros, impondo a vontade própria sobre eles através da coerção aberta ou encoberta.
(23) Os loucos e os iluminados parecem-se (daí a famosa figura do Monge Louco; Ginsberg receou enlouquecer), distinguindo-se porque o iluminado é sempre um criativo, o louco é um "pobre de espírito", rodopia em volta de uma única visão, o extremo do solipsismo.
(24) "É necessário, porém, que no domínio da arte, como sucede com o Destino na História, esteja dissimulado um princípio estranho, baseado, não no "saber prático", mas sobre resvalamentos de terra no interior do ser. Princípio que só é comparável a si próprio: do mesmo modo que os vulcões, por mais semelhantes que sejam a outras montanhas, constituem, apesar disso, uma categoria à parte." Ernst Jünger,
Drogas, embriaguez e outros estados.
(25) "A Deus, cujo prazer é estar em ti presente,/ Agrada visitar-te quando estás ausente." Angelus Silesius
(26)
"Se ela (a Verdade) é já manifesta, para quê a meditação?
E se está oculta, apenas estaremos a medir a escuridão.
Mantras e tantras, meditação e concentração,
Constituem todos causa de auto-ilusão.
Não te vicies no pensamento contemplativo,
que é puro na sua própria natureza,
mas persiste na bem-aventurança de ti próprio
e cessa tais tormentos.
O que quer que vejas, eis o que é,
À frente, atrás, em todas as dez direcções.
Deixa que, já hoje, o teu mestre ponha fim à ilusão!
A natureza do céu é originalmente clara,
Mas mirando-o e voltando a mirá-lo, torna-se obscuro."
Texto tântrico.
(27) No entanto, num estado avançado de consciência, mente e coração são um (os chineses usam a mesma palavra,
xin, e quando dizem "eu penso..." apontam para o coração. O próprio caracter "pensar", xiang, incorpora o caracter xin).
(28) "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formusuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!
Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da Vossa paz."
Sto. Agostinho,
Confissões, 27.
(29) Escreveu Heinrich Zimmer:
"Assim, o verdadeiro tesouro, aquele que põe fim à nossa miséria e às nossas provações, não está nunca muito longe, não é preciso procurá-lo num país distante, ele habita enterrado nos recantos mais íntimos da nossa própria casa, quer dizer, do nosso próprio ser. Ele está por detrás do fogão, no centro dador de vida e de calor que comanda a nossa existência, no coração do nosso coração, mas só se o soubermos escavar. Mas há, então, o facto estranho e constante de ser somente após uma piedosa viagem a uma região, a um país estranho, que o significado desta voz interior, guia da nossa pesquisa, se poderá revelar a nós. E a este facto estranho e constante vem-se juntar outro, a saber, que aquele que nos revela o sentido da nossa misteriosa viagem interior deve ser, ele próprio, um estranho, possuidor de uma outra crença e de uma outra raça."
O tema místico de ir bem longe em busca de um tesouro que se acha afinal bem perto é recorrente em todo o tipo de histórias e parábolas, desde a viagem do rabi Eisik de Cracóvia ao homem que deixou para trás mulher e filho para ir em busca de Deus e sobre o qual Este pergunta "Porque quererá vir até mim, se me abandona?", de Rabindranath Tagore, até às aventuras de Tintin em O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rakham, o Terrível, etc.
(30) "A graça deixa-nos repletos, mas ela não pode entrar senão onde existe um vazio para a receber, e é ela que faz esse vazio." Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce.
(31) Leia-se o
haiku de Bashö - facilmente compreensível se se substituir "ya" por um ponto de exclamação e "a" pelo nosso "Ah" - que exprime o sufoco do poeta ao contemplar a paisagem de Matsushima:
Matsushima ya
a, a, Matsushima ya
Matsushima ya
Não é necessário ter visto Matsushima, essa coisa espantosa, para o entender e captar o seu significado profundo. Matsushima é de certo modo secundária em relação ao "Ah!" mesmo que as coisas são, ao facto de serem espantosas. Bashö devolve-nos Matsushima, não na sua literalidade material, mas com um mínimo de palavras para sugerir a sua inominável e espantosa existência. A recuperação do espanto primordial - ver e haver algo que se dá a ver é só por si um enigma (Ginsberg: "... some hand had placed the whole universe in front of me") - que ao longo dos anos nos homens vai arrefecendo, é a própria experiência do Presente.

Fotos: de diversas proveniências

Maio de 2002

1 comment:

Rafael said...

Texto genial. Termino de ler comovido.