É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

Wednesday, March 15, 2006

FILOSOFIA

"SE ESTIVÉSSEMOS REALMENTE AQUI"

O contacto com o Presente - reflexões sobre a Arte a propósito das entrevistas a Allen Ginsberg em "Spontaneous Mind. Selected Interviews 1958-1996"

A tragédia do homem moderno provém do facto de se ter vindo paulatinamente a separar de qualquer realidade que não fosse a dos seus próprios processos e determinações mentais. O mundo foi assim constrangido até se reduzir a eles, numa total ausência de cumplicidade com a realidade exterior. As coisas mesmas, naquilo que nelas é irredutível a objecto para uma mente, foram esquecidas. O homem tornou-se incapaz de conceber mais do que a sua própria existência - tornou-se o centro e tudo quanto há é esse centro. Ao reduzir tudo a si, ao negar radicalmente a sua estrutura de mesmo-outro, confinou as suas palavras e gestos a um sentido unívoco, esterilizou-as ao arrancá-las do mundo. Desenraizado, rodopia sobre si mesmo. Contudo, o puro mesmo, por não poder ter mais do que um sentido, não tem sentido absolutamente nenhum. Isto porque o verdadeiro sentido retira-se sempre para o outro. É o outro que é o sentido; é no outro que o mesmo se ganha.
A recusa da Diferença determina no homem moderno a incapacidade de celebrar um acordo com a vida e consigo próprio. Tanto assim é que, refém de si mesmo, chega ao ponto de classificar os seus actos de desumanos, inumanos, sub-humanos, em total alienação com o seu próprio ser. Conclui-se então que o centramento paranóico em si corresponde, na verdade, ao seu completo descentramento - à ausência de si próprio, testemunha da sua morte espiritual. Não possuindo, todavia, a capacidade de o reconhecer, projecta essa ausência no Outro e afirma a Sua morte. Desviado do seu Centro, supõe que Ele o abandonou. Além disso, preenche o vazio do Outro multiplicando-se em intenções, isto é, vivendo obcecado pelo futuro e condicionado pelo passado. Ora, por muito paradoxal que pareça, a vida repleta de intenção não tem conteúdo nem significado. O homem apressa-se para diante e tudo deixa escapar, nada consegue sentir. Não consegue sentir o Presente (1).
De modo inverso, a vida sem intenção, sem alvo a atingir, não se apressa, logo, nada deixa escapar. Apenas quando não há alvo nem pressa há espaço em nós para receber o mundo. Para sentir o Presente. Para isso, é necessário que caiam todos os muros, todas as obstruções mentais. O terreno seguro da intelectualidade deve ser abandonado e penetrar-se no domínio da vivência. Então é possível viver no mundo, não numa sua mera representação, objecto e construção do pensamento (2).
Nestas entrevistas, que percorrem quase todos os grandes temas místicos, Ginsberg descreve o momento em que a sua mente se desobstruiu e nele se despoletou uma radical mudança na maneira de ver o mundo. Vários factores interessantes de analisar concorreram para que tivesse a sua primeira percepção daquilo a que chama Realidade Suprema naquele preciso momento: encontrava-se num estado de alma negro, isolado, deprimido, em coita de amor; ruíam as suas idealizações do amor; na vida activa, situava-se num ponto de viragem, sem saber para onde ir. Além disso, dera-se uma quebra no controle do ego (sexo) e acabara de ler poesia profundamente significativa. Em suma, experimentava uma pequena morte, a sua antiga pele (os seus limites e protecções) desfazendo-se. O passado evaporara-se; o futuro era imprevisível. Tal vazio era um espaço receptivo a que algo maior do que ele - o Presente - o avassalasse. Quando há vazio, a Realidade sempre presente, o que está aí, o famoso "aqui e agora", acha lugar para se manifestar em nós.

Allen Ginsberg


O Presente é presença, testemunho eficaz do pulsar da vida. E, livre de constrangimentos espácio-temporais, a visão do Presente é absolutamente coincidente consigo mesma (3). Ao sentir-se no Presente, Ginsberg afirma ter estado vivo pela primeira vez, "...being alive unto myself, alive myself unto the Creator" (4). Percebeu que estivera dantes ausente de si próprio, ausente de si como mesmo-outro, nem aqui nem agora, como que meio morto; e que a maior parte do tempo estávamos todos meio-mortos e que isso se encontra inscrito nos corpos, corpos em defesa, bloqueados, de gestos condicionados, inexpressivos, maquinais, numa palavra, corpos rígidos e sem graça como na morte (experiência na livraria) (5). Eis o retrato do homem moderno, o homem de vida pálida, ausente de si, isto é, cheio de "eu".
A captação da Realidade a que se refere Ginsberg só é passível de ser conseguida através da supressão do pensamento lógico. A atitude lógica e analítica decompõe, divide, autonomiza as partes de um todo, realçando nelas aquilo que as diferencia umas das outras, tornando-as antagónicas e irreconciliáveis. Contudo, a Realidade mostra-se irredutível a dados informativos, formulações lógicas, profusão de leis científicas, conceitos claros e distintos (6). A atitude eminentemente espiritual é sobretudo participação, vivência no próprio interior do Cosmos, uma disposição não passiva, mas atenta e cônscia, apta a integrar tensões e contradições, isto é, a levar a cabo sínteses. Contradições e diferenças não se fundem, o que equivaleria a negá-las, mas antes se albergam numa unidade que o é porque é tensional, "com-posta" dessas contradições e diferenças. São aceites de modo a apontar-se para além delas. Participa-se no seio da verdade, não numa mera informação sobre ela. É uma atitude que não se dirige em primeiro lugar ao intelecto, não visa contribuir para a actividade especulativa ou acumulação de conhecimento - é a experiência de se ser si próprio, quer dizer, de voltar para junto do Outro, do seu centro, do irrecusável.
O resíduo inacessível à ciência e às suas explicações ou mesmo a explicações de qualquer tipo - filosóficas, religiosas - e que é, a um tempo, aquilo que as funda e fundamenta, escapa por isso mesmo a qualquer tipo de comunicação. A existência da comunicação tem como condição necessária a divisão sujeito/objecto. A experiência da participação remete para uma identidade que torna artificial qualquer partição rígida entre a multiplicidade de coisas e seres.A existência é percebida como estrutura de totalização, passível de ser dada apenas através de uma postura e posição no mundo, não um sentido meramente espacial, mas de concomitância. O "aqui e agora" é o topos de confluência dos paradoxos, da co-pertença originária dos contrários (visível e invisível, sensível e inteligível, silêncio e palavra, pluralidade e unidade...), um concentrado de vida. A experiência do Presente é, pois, um "estar junto", uma experiência de comunhão.
Ginsberg irá procurar reiterar essa experiência do Presente - a sensação de vibração da Realidade - e toma como missão transmiti-la em obra. Para isso nasceu, sente ("Will I spend my life in praise of the idea of God?"). No entanto, apenas por conseguirem exprimir de algum modo o Presente - quanto melhor forem capazes de o exprimir numa obra, mais qualidade terão - os artistas não podem ser considerados especialmente dotados para as coisas do Espírito, e muito menos, erro perigoso, iniciados ou uma espécie de sacerdotes laicos do mundo moderno, como parecia Ginsberg ambicionar como estatuto (7).



Allen Ginsberg


Qualquer actividade humana pode ser uma via espiritual - não é tanto aquilo que se faz quanto a maneira como se faz - o que equivale a dizer que não há via. Isto porque o homem é, por natureza, espiritual. Apesar da nossa civilização moderna, nem mesmo para o homem ocidental comum é algo de extraordinário pressentir, ao contemplar o sol poente, os anjos de Blake cantando "Sagrado!". O que distingue os artistas é possuirem a capacidade e a necessidade de exprimirem sensivelmente através de palavras, sons, formas, etc. essa percepção inexprimível dessa maneira para a maioria de nós. Outros exprimi-la-ão pela cura, pelo ensino, pela conservação da Natureza, pela dedicação à paz mundial ou pelo humor (essa saudável, maravilhosa actividade de rir do seu eu e do eu dos outros), etc. (8)
Esse tipo de percepção, que pode com justeza chamar-se simbólica e que é a percepção natural ao homem - o homem é o animal de símbolos; ele próprio é símbolo - difere da visão contra-natura, pretensamente objectiva, que é sem empatia, artificial, requer esforço de abstracção e talvez mesmo um coração que secou. Como diz Ginsberg, consegue ver apenas o sol, sol - pouco mais do que uma sigla, uma etiqueta sobre o astro (9). Apesar de tudo, continua a ser muito mais difícil, a requerer um distanciamento muito maior, olhar para o céu estrelado e ver pedregulhos, do que ver revoadas "de anjos a cantar sagrado, sagrado, sagrado". Tanto assim é que a nossa civilização ocidental moderna foi a única a tentar fazê-lo. Esse esforço é mesmo a sua característica principal.
Nesta ordem de ideias, os artistas não podem ser considerados mais "iniciados" do que o anónimo jardineiro que vê "o céu num grão de areia" (o próprio Ginsberg depressa descobre que todos sabem, mas que não querem, ou melhor, não podem, não conseguem viver isso). São experiências demasiado comuns para poderem ser consideradas sinais de verdadeira iniciação. Muitos seres humanos, num momento ou outro, passam por elas.
A verdadeira iniciação não se dá apenas em momentos de contacto com o Presente - a demasiados de nós é facultado esse vislumbre, essas, concedamo-lo, pequenas iniciações - mas quando esse contacto é tão assíduo e avassalador que implica uma transformação radical de todo o ser. Quando fica inscrito de forma indelével na nossa maneira de ser, nas nossas acções. O que equivale a não deixar esmorecer a experiência do Presente, a evitar retomar hábitos antigos, a saber utilizar na vida quotidiana a compreensão adquirida durante essa experiência. Além disso, existem seres humanos - muitas vezes humildes - que, sem terem passado por tal tipo de experiência súbita de contacto, se acham sintonizados com a Realidade, como se algo neles nunca tivesse sido corrompido.
Muitos artistas, pelo contrário, bastas vezes adoptam um comportamento notoriamente mesquinho, que evidencia o seu baixíssimo nível de consciência (10). Aniquilar as barreiras do eu mais do que apenas momentaneamente, equivaleria a pulverizar a hipocrisia e a inautenticidade, o interesse e a perfídia, a cobardia e a vingança, o melindre e o ressentimento, a vaidade e a obsessão. Por grandes artistas que sejam, jamais deverão ser consideradas pessoas espiritualmente evoluídas se apresentam semelhantes fraquezas de carácter, verdadeiros sinais do mal.
Singulares e especiais, eis como muitos artistas gostam de se fazer parecer, o que aliás é patente nas próprias entrevistas a Ginsberg, tão cheias de "eu", de um "eu" que se faz passar por tão único. Ora, o eu é precisamente aquilo que menos interessante há em nós e, como já foi dito, é o maior obstáculo para o contacto com o Presente (11). Na verdade, somos todos muito mais parecidos uns com os outros do que julga ou deseja a nossa vaidade pessoal. As nossas diferenças são pouco mais do que circunstanciais. O verdadeiro sábio, esse, não deseja salientar-se (12).
Apenas aqueles que, para além do momento da execução da obra ou do usufruto dela, ou mesmo sem qualquer capacidade artística, conseguem permanecer na esfera do esquecimento do eu - o estado de "com-paixão" dos budistas, de sofrer com os outros - podem ser considerados iniciados (13).
O contacto com a Realidade Suprema, de empatia com o mundo, traduz-se numa sensação de vida e alegria (da raíz latina al-, que significa "asa"; ser alegre é ser alado, dirigir-se à luz e escapar ao peso e sua inércia mortal, escapar a Thanatos. Ginsberg: "...it was a lightness in my body... my body suddenly felt light..."). Essa sensação não nos deve servir apenas a nós próprios, mas servir sobretudo os outros e o seu desenvolvimento espiritual (após anos de aturada dedicação à expansão da consciência, Ginsberg descobre que Buber o ultrapassara: "Buber said that he was interested in man-to-man relationships, human-to-human - that he thought it was a human universe that we were destined to inhabit. And so therefore human relationships rather than relations between the human and the nonhuman".)
O maior sinal de iniciação é a bondade, a qualidade mais rara e mais difícil, que é também a mais discreta, aquela que prefere não assinar a sua obra, que opta pelo anonimato uma vez que prescinde de reconhecimento. Nem sequer questiona sobre se houve gratidão. A bondade (isto é, a acção desinteressada em prol do bem estar físico e desenvolvimento espiritual dos outros) traduz real elevação espiritual, real personificação de iluminação. Não a capacidade artística ou o discernimento filosófico (ressalve-se que, para o filósofo da Antiguidade, a filosofia era acima de tudo uma maneira de ser, uma adequação entre a teoria - etimologicamente, "visão" - e a prática, não simplesmente uma interpretação do mundo).
A arte é o sentido configurado sensivelmente e é provável que esse nível sensível, livre de qualquer tipo de subserviência em relação ao inteligível, lhe empreste uma capacidade de interpelação superior à da linguagem conceptual, filosófica, amiúde descarnada em demasia. Assim, os filósofos modernos, se acreditavam na existência de Deus, esforçavam-se por o provar nos seus escritos (necessitando de prova humana, usurpavam-Lhe toda a divindade...); a arte manifestava-O. É no sensível que está patente o supra-sensível, nele habita. O in-visível habita no visível. (14).
Mas há que distinguir claramente entre artistas e obras de arte. As mais das vezes, o despertar da visão interior requer um contacto estreito com uma doutrina tradicional ou com um guru, ou seja, com alguém que torna os outros capazes de escolher o seu próprio caminho, sem indicar qual o caminho a seguir. Não os artistas, meros veículos ou mensageiros, mas as obras de arte, essas sim, podem ser consideradas uma espécie de gurus não humanos, porque conseguem despertar a consciência espiritual, como tudo quanto afirma a dimensão simbólica: mitos, doutrinas tradicionais, os belos gestos...(15)
A obra de arte é o testemunho dessa visão participativa, onde a matéria, os sons, as palavras, se tornam advertência sobre uma verdade mais alta, e para ser a própria experiência aonde essa verdade se dá. Na obra-de-arte, nesse pequeno lugar em que tudo está ao pé, a comunhão presentifica-se e, para quem souber escutar, ou ler, ou olhar (olhar com empatia, que é mais do que apenas observar, é olhar de tal maneira que na verdade quase se dispensa o sentido da visão) realiza-se (16). As obras de arte proporcionam muitas vezes uma satisfação profunda e induzem a uma abertura de espírito, reflectindo-se mesmo em qualquer tipo de transformação interior (caso de Ginsberg com Blake). A Realidade pulsa na arte e sussurra ao espírito (17). A obra de arte é também uma prece, porque, ao exprimir o Presente, se re-descobre, se re-conhece que todo o universo é oração feita matéria (18).
Re-conhecemos, re-descobrimos porque, na verdade, já o sabíamos. O conhecimento é trazer à consciência aquilo que o subconsciente sabe de antemão. (Ginsberg: "Our version of expanded consciousness is as much as unconscious information - awarness comes up to the surface") Como é bem sabido, para Jung essa sabedoria é colectiva e herdada. O subconsciente sabe quem somos realmente. Uma das tarefas principais e essenciais no processo de desenvolvimento espiritual é o trabalho contínuo de ajustar progressivamente o conceito que temos de nós próprios à realidade (19). Quando uma grande parte dessa tarefa da vida inteira se desencadeia subitamente, como um relâmpago (caso de Ginsberg em Harlem), a mudança dramática de consciência produz o sentimento de que se estava cego e de que se passou a ver. Em termos de auto-conhecimento e auto-revelação, o subconsciente é uma parte mais sábia do que nós, mais sábia do que a consciência que temos de nós próprios.

Allen Ginsberg


Procurando reviver o Presente, Ginsberg percorreu também o caminho do desregramento de todos os sentidos, excessos e drogas. Sexo e drogas, no entanto, não podem por si abrir a porta do desenvolvimento espiritual (20). O desregramento de sentidos implica perda do eu mas a perda do eu é uma faca de dois gumes. O eu fica à mercê de todas as forças poderosas, sobretudo das maléficas e vampirescas. É certo que, como diz um velho fado, "Na lama das ruas sujas brilham os astros do céu". Na verdade, os astros dos céus brilham por toda a parte, a lama suja é que, por contraste, lhes dá um brilho mais intenso. Embora no excesso e nas drogas (recordemos o percurso de Sto. Agostinho) se possa também achar a Realidade (21), o risco dos homens de virem a servir de repasto a vampiros é muito maior. Além disso, grande parte dos que enveredam por esse caminho encontram-se já espiritualmente degradados e muitas vezes não buscam mais do que a morte. O desregramento dos sentidos num ego doente e enfraquecido pela negação e repressão do inconsciente tornado monstruoso (22), originando a queda das suas defesas e controle, conduz à dependência, à obsessão e ao vício, sinais inegáveis de miséria espiritual (Ginsberg: "I don't renounce drugs but I suddenly didn't want to be dominated by that nonhuman anymore, or even be dominated by the moral obligation to enlarge my consciousness anymore."). As drogas, por exemplo, assemelham-se a certas doenças mentais, que aparentam a princípio grande riqueza criativa ou sensitiva, mas que acabam por revelar que, além de uma única visão obsidiante nada mais se cria, só há deserto estéril, caso da esquizofrenia (23). Poderão abrir portas apenas a seres já de si espiritualmente em expansão, cujo ego não se desgasta em lutas vãs contra o inconsciente, mas que sabem mover-se com facilidade entre um e outro. Seres que, provavelmente, chegariam lá de outro modo. Talvez mais devagar mas, como já foi visto, em assuntos do espírito a pressa pode ser fatal. Todavia, à mulher e ao homem verdadeiramente criativos a Realidade consegue fazer delirar e alucinar sem ajuda de substâncias exteriores. Os seus paraísos não são artificiais. O seu delírio vem de dentro para fora, não de fora para dentro (24).
A solução, pois, não é procurar - a procura assemelha-se sempre demasiado a uma fuga, além de que é um eu que não se esquece de si próprio em acção - porque é esvaziar-se e não encher-se (25). Na procura, o próprio espírito pode tornar-se um vício. Ora, esclarecimento intelectual quanto à natureza da Realidade ou o desejo de a apreender, são, provavelmente, os maiores obstáculos para a encontrar (26). Ginsberg apercebeu-se, na Ásia, de que caíra nessa armadilha, de que afinal buscava o coração e não a mente (27). Por fim, completou um percurso espiritual circular, regressou, de certa forma, ao mesmo sítio, a Harlem, onde sentira que "God was in front of my eyes - existence itself was God". Não é preciso ir ao outro lado do mundo em busca da Realidade Suprema - ela está em nós (28). Mas, ao mesmo tempo, é muitas vezes realmente preciso ir até ao outro lado do mundo - ao outro, à diferença - para a reconhecer em nós (29). É que o outro somos nós.
A sintonia com o Presente - a perda do "eu" - não deve ser deliberadamente procurada. A procura é fruto de um "eu", projecta o futuro, esquece o Presente. Ginsberg não procurou o seu primeiro contacto com o Presente. Foi tomado por ele inadvertidamente (30). A capacidade de encontrar tesouros não procurados está disponível para todos mas apenas alguns dela usufruem (31). Encontram-nos porque não oferecem resistência a eles. Outros não apreciam o valor do que lhes é dado. Olham-nos como coisas banais, passando-lhes assim de lado (Ginsberg: "...this place would be everything that one would refer to as divine, if one were really here."). Por isso, o contacto com o Presente é uma graça, um estado de graça. A origem última da graça provém de uma força poderosa exterior à nossa conciência que acalenta o desenvolvimento espiritual dos seres humanos. Essa força reside no subconsciente - é o divino em nós - e sobretudo para além das fronteiras dos indivíduos. Os cristãos chamam-lhe Amor ou Bondade Divina.
Cinzelemos, pois, com amor, as cornijas dos nossos edifícios ou, como Cândido, cuidemos do nosso jardim.



Notas

(1) "O passado e o futuro travam o efeito salutar do sofrimento, fornecendo um campo ilimitado para evasões imaginárias. É por isso que a renúncia ao passado e ao futuro é a primeira das renúncias." Simone Weil, Le pesanteur et la grace.
(2) "Dao Xin, que viria a ser o Quarto Patriarca Zen, quando chegou perto do Terceiro Patriarca, Seng-Can, perguntou-lhe:
- Qual é o caminho para a libertação?
- Quem te amarra? - replicou Seng-Can.
- Ninguém. - respondeu o outro.
- Então - perguntou Seng-Can - porque procuras tu a libertação?
E foi assim o Despertar de Dao Xin."
O mesmo Seng-Can no
Xin Xin Ming: "O homem ignorante ata-se a si próprio... / Se trabalhas a tua mente com a tua mente/ Como podes evitar uma grande confusão?"
(3) Presente - o instantâneo e o eterno feitos um: "Homem, erguendo o teu espírito acima do espaço e do tempo,/Podes estar em cada instante na eternidade." Angelus Silesius.
(4) Daí as palavras "re-nascer" ou despertar para designarem este tipo de experiência e a figura mística do Recém-nascido.
(5) Os corpos espelham as doenças do espírito, de onde a tradicional dicotomia ocidental entre corpo e espírito não terá razão de ser. Aliás, as disciplinas místicas (como o yoga, o tantra, a tradição dos derviches rodopiantes, etc.) exploram ao máximo a intimidade corpo/espírito. A bio-energética tem aí também uma palavra importante a dizer (cf. Alexander Lowen,
Bio-energetics).
(6)
"Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte"
Ruy Belo
(7) E, entre outros, Paul Klee na sua
Teoria da Arte Moderna, que vê o artista como um filósofo, mas um filósofo superior, porque não descobre apenas, realiza, cria, transforma a realidade ao apontá-la no gesto de pintar. Une a dimensão especulativa à dimensão vital. E transformar só é possível àqueles que acederam a essa realidade, àqueles que conseguem vivê-la, que se sabem parte dela e são realidade agindo. Klee conclui, por isso, que a arte é iniciação e o pintor um iniciado. "O iniciado pressente o ponto original da vida", afirma.
(8) Uma definição possível para a neurose, comum na nossa civilização, poderá precisamente ser a negação ou repressão da sensação do Sagrado, que se perverte então sob a forma de fobias, compulsões, etc.; os psicopatas serão antes aqueles que já nem sequer possuem a capacidade de O sentir. Tudo se dessacralizou a seus olhos, excepto a sua própria vontade.
(9)
"La science rationnelle, dite exacte, limitée aux poids et aux nombres, ne peut rien comprendre à l'idée que les étoiles sont des qualités, pas plus qu'elle ne sait quoi faire d'une rose ou d'un lys. Elle analyse la fleur, constate la couleur rouge, et ce qui avait été rose et avait fait le bonheur d'un amant lui reste dans la main sous la forme d'un petit tas de cellules.", Peuckert, L'Astrologie. Son histoire. Ses doctrines. Este empobrecimento em face do mundo de uma certa forma de fazer ciência é vivamente ilustrado pelas palavras do astrofísico Hubert Reeves: "Não acho que a astrologia esteja ligada aos astros. Acho que está mais próxima de uma psicologia. (...) Vou dar-lhe um exemplo: o tipo mercuriano define uma pessoa brilhante, mas instável e fugidia. É verdade que Mercúrio é muito difícil de ver, mas é muito brilhante ao pôr e ao nascer do sol. Contudo, quando é observado de um satélite, Mercúrio não é nem brilhante nem fugidio, não passa de um grande pedregulho!" Logo, Mercúrio é muito mais um pedregulho do que é brilhante e fugidio porque as coisas são apenas o que as máquinas vêem!
(10) "Durante muito tempo tive a falsa ideia que um artista era um ser "muito bonzinho". Tenho contado algumas vezes que quando era advogado tinha a constante nostalgia de me passar para o lado das letras e das artes, farto que estava daquele pequeno mundo à volta dos interesses materiais. Imaginei que a vida dos artistas seria desinteressada e que, lá, as pessoas só ligavam às coisas do "espírito". Foi um engano: vi depois invejas, inimizades, ódios mesquinhos, uma vida de golpes e de traições, de tal modo que cheguei a ter saudades da generosidade dos meus comerciantezinhos a quem eu cobrava as dívidas.
Depois soube muito mais: que muitos artistas estavam marcados, não tanto por uma vida difícil quanto pela maldade e pelo mau carácter." Alçada Baptista, numa crónica de jornal.
E Matthieu Ricard em
O Monge e o Filósofo:
"(...)Na altura ainda não tinha uma ideia precisa sobre o budismo, mas o simples facto de ver esses sábios, através do pouco que pode transparecer num filme, dava-me o pressentimento de uma perfeição profundamente inspiradora. Era uma fonte de esperança. No meio em que cresci, graças a ti encontrei filósofos, pensadores e homens de teatro; graças à mãe, a pintora Yahne Le Toumelin, encontrei artistas e poetas... como André Breton, Maurice Béjart e Pierre Soulages. Graças ao meu tio Jacques-Yves Le Toumelin, encontrei célebres exploradores; graças a François Jacob, os grandes sábios que vinham ao Instituto Pasteur dar conferências. Deste modo fui contactando com personagens fascinantes a muitos títulos. Mas, ao mesmo tempo, o génio que cada um manifestava na sua própria disciplina não era necessariamente acompanhado, digamos... de uma perfeição humana. Não era o seu talento e capacidades intelectuais e artísticas que os tornavam bons seres humanos. Um grande poeta pode ser um malandro, um grande sábio pode ser infeliz e um artista pode ser orgulhoso. (...) Encontrei-me com Igor Stravinsky e com outros grandes músicos. Tive a sorte de caminhar a passo com muitos dos que suscitam admiração no Ocidente e de poder fazer uma ideia, de me perguntar: "É a isso que aspiras? Queres ser como eles?" Ora, tinha a sensação de que isso me sabia a pouco, pois apesar da admiração que tinha por eles, constatava que o génio desses homens num domínio particular não era acompanhado pelas perfeições humanas mais simples, como o altruísmo, a bondade ou a sinceridade. Em contrapartida, esses filmes, essas fotografias, faziam-me descobrir algo mais, algo que me atraía nesses mestres tibetanos; a sua maneira de viver parecia o reflexo exacto daquilo que ensinavam."
(11) "O pecado em mim diz "eu".
Eu sou tudo. Mas este "eu" é Deus. E não é um eu."
Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce.
(12) "Nem se sabe que existe", afirma Lao Tse e "(...) no mundo
sufi do Islão (...) muitas vezes se diz que um pîr, um mestre, e sobretudo o mestre dos mestres, o polo, deve permanecer desconhecido, às vezes até de si próprio. Porque no seio da humanidade são aqueles cuja qualidade interior constitui um campo de forças determinante para o benefício e salvaguarda da vida. Estes seres, que se constituem como centros espirituais, existem para criar à volta deles influências benéficas propícias a manter ou a transformar a tradição secreta." Michel Random, prefácio a Os contos das artes marciais.
(13) "A morte de qualquer homem entristece-me, porque faço parte da humanidade; por isso, não perguntes nunca por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti." escreveu John Donne. Nós somos o morto. Mas somos também o assassino. Somos as vítimas e somos os carrascos. Por isso é que a nossa liberdade só começa quando começa a liberdade dos outros e a nossa felicidade só começa quando começa a felicidade dos outros: "A felicidade perfeita exclui o próprio sentimento de felicidade, porque na alma cheia pelo objecto, nenhum canto fica disponível para dizer "eu"." Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce).
(14) Shitao em
A Pincelada Única: "Mediante a Pincelada Única, o homem pode restituir, em miniatura, uma entidade maior sem diminui-la: se, em primeiro lugar, o espírito nasce de uma mesma e só visão clara, o pincel chegará à raiz das coisas."
(15) Em Edoi Lelia Doura, escreveu Herberto Helder a propósito de Edmundo de Bettencourt: "Foi para alguns de há anos um mestre, no sentido mais que perfeito em que não dizia como era, nem se representava a si próprio como o modo e o modelo, mas como perscrutador do nosso caos interior e estimulador da pessoal riqueza possível em cada um.
A sua dádiva - que não recorria aos métodos brutais da frontalidade, antes nos envolvia furtivamente - não estava à espera de correio. Nenhum deu resposta à altura. Nele, a generosidade não era um investimento, era um sentimento activo apenas, um porque sim."
É precisamente desta maneira que as obras de arte são verdadeiros gurus.
(16) "Saimos do auto e fomos contemplar uma escultura do Cristo crucificado, de tão ingénua divindade e tão ingenuamente martirizada que as suas chagas vermelhas pareciam rir-se do artista que as pintou...
Estava eu numa atitude de crítico ou de idiota, quando me tocaram no braço esquerdo. E logo uma rapariga, de onze anos talvez, apontou-me o Crucifixo, dizendo:
- Aquele é o Senhor...
O seu gesto, o timbre da sua voz, não sei reproduzi-los. Afligem-me, agora, como certas nuances das coisas, que afloram na imaginação mas fogem ao domínio da palavra.
Que significado o daquele gesto! E aquela voz percurtiu-se, na minha memória, de lembrança em lembrança, até à primeira, a que nos abre as portas do mundo. A contar dela é que principiamos a viver. Irrompemos, para a luz da consciência, dum fundo insondável e tenebroso.
A frase "Aquele é o Senhor!" animou de repente a tosca imagem de madeira. Dali ao Cristo vivo de João e das nossas aflições mediou apenas a minha sombra miserável.
Mas aquela frase tinha uma virtude própria: a virtude dos lábios que a pronunciaram (escrita não significa nada) e a virtude da inocência, como essa que transluz numa flor, e é uma energia primaveril que incendeia de vida a morte. Soou nos meus ouvidos como um toque de moeda em que se ouve o oiro a retinir. O oiro é que se ouve, não é a moeda. Assim, nas palavras da rapariga ouvi apenas a verdade. E a verdade divina não se demonstra: afirma-se, que a sua prova real está na sua evidência. Cada forma, espiritual ou material, afirma a sua existência. Existe a luz porque nos fere os olhos. E Deus também nos fere, porque O negamos e afirmamos, injuriamo-Lo e adoramo-Lo, matamo-Lo e morremos por Ele."
Teixeira de Pascoaes,
A Beira num relâmpago.
(17) O que se passa na obra de arte, na sua feitura e no seu usufruto é muito semelhante ao que se passa quando alguém declara o seu amor a outrém, como explicita Simone Weil em
Le pesanteur et la grâce: "As mesmas palavras (ex. um homem diz a uma mulher: eu amo-te) podem ser vulgares ou extraordinárias segundo o modo como são pronuncidas. E este modo depende da profundidade da região do ser de que provêm, sem que a vontade possa aí intervir. E, por um acordo maravilhoso, elas vão tocar, naquele que as escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tem discernimento, o que valem essas palavras."
Eis uma descrição acurada do que sucedeu a Pascoaes (cf. nota anterior).
(18)
"Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas,
louvai nas alturas
Deus das criaturas.
Louvai, arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas."
Gil Vicente
(19)
"La Realization ne consiste pas à acquérir quelque chose de nouveau, et ce n'est pas non plus une faculté nouvelle. C'est tout simplement se débarraser de tout camouflage." Ramana Maharshi, Entretiens.
(20) A menos que o seu usufruto esteja integrado numa disciplina espiritual. Por exemplo, no Tantrismo, o sexo, não pela fuga ou negação, mas no seu próprio seio e com as suas próprias armas, em vez de ser utilizado para a obtenção de prazer físico, é transformado em energia espiritual. Diz um aforismo tântrico "Os mesmos actos capazes de arrastar o ignorante para as profundezas do inferno podem levar o homem sábio à máxima libertação." Prosaica e catolicamente, no intuito de vencer a tentação, não se deveriam pôr frades e freiras com voto de castidade, não em conventos separados, mas a viver nos mesmos edifícios e partilhando os mesmos quartos? Sem a maçã, como obterá Eva o poder de escolha entre colhê-la ou não?
(21)
"O vinho me embriaga. Que se ria
o sufi santo de tão louca orgia.
Talvez se forje em vil metal a chave
da porta a que ele uivou e não se abria."
Omar Khayyam
(22) O mal, intimamente ligado ao poder pessoal, é precisamente fazer tudo quanto se possa para preservar a integridade do seu eu doente. No intuito de escapar à dor do desenvolvimento espiritual, não hesitar em destruir os outros, impondo a vontade própria sobre eles através da coerção aberta ou encoberta.
(23) Os loucos e os iluminados parecem-se (daí a famosa figura do Monge Louco; Ginsberg receou enlouquecer), distinguindo-se porque o iluminado é sempre um criativo, o louco é um "pobre de espírito", rodopia em volta de uma única visão, o extremo do solipsismo.
(24) "É necessário, porém, que no domínio da arte, como sucede com o Destino na História, esteja dissimulado um princípio estranho, baseado, não no "saber prático", mas sobre resvalamentos de terra no interior do ser. Princípio que só é comparável a si próprio: do mesmo modo que os vulcões, por mais semelhantes que sejam a outras montanhas, constituem, apesar disso, uma categoria à parte." Ernst Jünger,
Drogas, embriaguez e outros estados.
(25) "A Deus, cujo prazer é estar em ti presente,/ Agrada visitar-te quando estás ausente." Angelus Silesius
(26)
"Se ela (a Verdade) é já manifesta, para quê a meditação?
E se está oculta, apenas estaremos a medir a escuridão.
Mantras e tantras, meditação e concentração,
Constituem todos causa de auto-ilusão.
Não te vicies no pensamento contemplativo,
que é puro na sua própria natureza,
mas persiste na bem-aventurança de ti próprio
e cessa tais tormentos.
O que quer que vejas, eis o que é,
À frente, atrás, em todas as dez direcções.
Deixa que, já hoje, o teu mestre ponha fim à ilusão!
A natureza do céu é originalmente clara,
Mas mirando-o e voltando a mirá-lo, torna-se obscuro."
Texto tântrico.
(27) No entanto, num estado avançado de consciência, mente e coração são um (os chineses usam a mesma palavra,
xin, e quando dizem "eu penso..." apontam para o coração. O próprio caracter "pensar", xiang, incorpora o caracter xin).
(28) "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formusuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!
Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da Vossa paz."
Sto. Agostinho,
Confissões, 27.
(29) Escreveu Heinrich Zimmer:
"Assim, o verdadeiro tesouro, aquele que põe fim à nossa miséria e às nossas provações, não está nunca muito longe, não é preciso procurá-lo num país distante, ele habita enterrado nos recantos mais íntimos da nossa própria casa, quer dizer, do nosso próprio ser. Ele está por detrás do fogão, no centro dador de vida e de calor que comanda a nossa existência, no coração do nosso coração, mas só se o soubermos escavar. Mas há, então, o facto estranho e constante de ser somente após uma piedosa viagem a uma região, a um país estranho, que o significado desta voz interior, guia da nossa pesquisa, se poderá revelar a nós. E a este facto estranho e constante vem-se juntar outro, a saber, que aquele que nos revela o sentido da nossa misteriosa viagem interior deve ser, ele próprio, um estranho, possuidor de uma outra crença e de uma outra raça."
O tema místico de ir bem longe em busca de um tesouro que se acha afinal bem perto é recorrente em todo o tipo de histórias e parábolas, desde a viagem do rabi Eisik de Cracóvia ao homem que deixou para trás mulher e filho para ir em busca de Deus e sobre o qual Este pergunta "Porque quererá vir até mim, se me abandona?", de Rabindranath Tagore, até às aventuras de Tintin em O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rakham, o Terrível, etc.
(30) "A graça deixa-nos repletos, mas ela não pode entrar senão onde existe um vazio para a receber, e é ela que faz esse vazio." Simone Weil,
Le pesanteur et la grâce.
(31) Leia-se o
haiku de Bashö - facilmente compreensível se se substituir "ya" por um ponto de exclamação e "a" pelo nosso "Ah" - que exprime o sufoco do poeta ao contemplar a paisagem de Matsushima:
Matsushima ya
a, a, Matsushima ya
Matsushima ya
Não é necessário ter visto Matsushima, essa coisa espantosa, para o entender e captar o seu significado profundo. Matsushima é de certo modo secundária em relação ao "Ah!" mesmo que as coisas são, ao facto de serem espantosas. Bashö devolve-nos Matsushima, não na sua literalidade material, mas com um mínimo de palavras para sugerir a sua inominável e espantosa existência. A recuperação do espanto primordial - ver e haver algo que se dá a ver é só por si um enigma (Ginsberg: "... some hand had placed the whole universe in front of me") - que ao longo dos anos nos homens vai arrefecendo, é a própria experiência do Presente.

Fotos: de diversas proveniências

Maio de 2002
MEMÓRIAS




Malhas que o Império tece



Lembro-me de quando olhava para trás e todo esse passado era a minha infância. Depois, a criança que fui foi diminuindo, diminuindo, como se eu me afastasse num carro e ela ficasse no passeio a dizer-me adeus. A criança ficou para trás, numa pequena cidade do interior de Angola, perdida no grande continente africano. Aos onze anos essa infância foi guilhotinada. Desceu a Serra da Leba e subiu para um barco de carga que a levou a Luanda. Depois, atravessou a ponte aérea.
A ponte aérea. A ponte aérea era uma ponte por onde se podia transitar num único sentido. Uma única vez. Atravessada uma vez e desaparecia em fumo. A ponte começava em Luanda. Terminava em Lisboa. Alcançada Lisboa, olhava-se para trás: a ponte desaparecera para sempre, volátil arco-íris. Olhava-se o céu, já se não via.
Não havia regresso possível. Uma viagem de avião como um cordão umbilical cortado para sempre. A mãe pousou as malas no chão do aeroporto.
Não olhou para trás. Sabia que a ponte já lá não estava. Também não olhou em frente. Estava tudo em branco. Ficou ali. Parada entre a ponte desfeita e o nada. Com as malas largadas no chão. Ficaria ali durante muitos anos.


Eles desembarcaram em Moçâmedes no séc. XIX, atravessaram o deserto a pé e subiram a Leba em carros boer, pelo Bruco, até mais de 1 700 metros de altitude. Vieram por uma estrada, os primeiros brancos a estabelecerem-se no planalto. Depois vieram aqueles que se estabeleceram na margem do Caculuvar, no sítio que é hoje chamado Barracões. Eles trabalharam a terra. Procriaram. Criaram filhos brancos para o Lubango. Recriaram, no regaço da Serra da Chela, a capela que haviam deixado na ilha da Madeira. Depois esqueceram a sua ilha distante. Ganharam uma nova terra. E amaram-na. Os seus filhos amaram-na. Os filhos dos seus filhos amaram-na. Durante cem anos, houve brancos que viveram no Lubango e o amaram.



Os meus bisavós maternos (sentados) José de Nóbrega e Catarina de Sousa, que emigraram da ilha da Madeira para o Lubango no cargueiro Índia, em 1885. Estão rodeados de alguns dos filhos, já todos nascidos em África, incluindo a mais velha, a minha avó, Justina, a jovem mulher de vestido escuro. Princípios do séc. XX.

Lubango. Quando eu era criança chamava-se Sá da Bandeira. Cidade no planalto da Huíla, rodeada de montanhas. Montanhas protectoras. Paralisadoras. Por isso os colonos rasgaram uma brecha, a fuga para a liberdade, a estrada da Serra da Leba, em direcção a Moçâmedes, ao deserto e ao mar. Para haver uma saída. Para contornar a superprotecção asfixiante da Serra da Chela. 
Vivíamos tão protegidos do resto de Angola e do mundo em redor que estávamos sentados num barril de pólvora e sentíamo-nos num paraíso. Quando o barril de pólvora rebentou, tudo foi súbito, devastador, um tiro nas costas. O destino errado como uma corda ao pescoço. 
Lubango com seu encanto e seu recato, as suas ruas de grandes vivendas com jardins, as suas ruas direitas, os seus Largos efectivamente largos. Enfeitada com flores, com espatódeas, com canteiros. Limpa e ordeira. Com carros modernos pelas estradas. Com seus passeios espaçosos, quadriculados, onde se caminhava à vontade. Rodeada de paisagens grandiosas, inexploradas, múltiplas e variadas. Num país ainda a desbravar.

O Casino e a Capelinha ao longe, na serra da Chela. Cidade de Sá da Bandeira (Lubango)

A Quinta da Liberdade, a fazenda do meu avô, onde todos os meus tios cresceram, era especial, um marco: não ficava na cidade, nem na serra dos muílas. Ficava atrás do hospital. Quando vinham à cidade e havia administrador que os quisesse vestidos à moda dos brancos, e alguns havia que os perseguiam, os gentios era na fazenda que se refugiavam. Ali trocavam de roupa para ir a cidade, ou despiam-na para voltar à serra. Era o esconderijo, uma fronteira.

A Quinta da Liberdade, a fazenda do meu avô no Calumbiro, Lubango. Está sentado, rodeado da mulher e de alguns dos filhos, além de dois empregaditos negros.

O meu avô era um republicano laico convicto que várias vezes conheceu a prisão. Nasceu na Beira Baixa, fez a tropa em Macau e também fez de si um homem culto; rumou então a Angola, onde se tornaria num funcionário da Câmara Municipal incorruptível e obsessivamente perfeccionista. O nome que dera à sua fazenda era um desafio e um sintoma do seu talento para arranjar sarilhos.



O meu avô aos 20 anos, em Macau. 1901.

Eu sempre soube da existência de Camões. Nunca vivi na Quinta da Liberdade. Vivia na Praça Luís de Camões, no Bairro da Laje. Quando tinha seis ou sete anos, inauguraram uma estátua do Poeta na sua praça. Juntou-se um grupinho de gente e alguém discursou sobre a sua vida e obra. Camões teve ali um reino breve. O seu busto seria destronado poucos anos depois, tal como o de João de Almeida e demais heróis dos portugueses. Para lá da estátua, do passeio frente a minha casa, todos os dias avistava a Ponta do Lubango na Serra da Chela, com o seu Cristo-Rei de braços abertos.


O Bairro da Lage, com a Ponta da Serra ao longe e o seu Cristo-Rei. Sá da Bandeira, 1969.

Como criança de África, era fanática da brincadeira. Em África brincava-se até muito tarde. Brincava-se a valer quase até aos vinte anos. Adolescentes de quinze, dezasseis, dezassete anos, eram tão fanáticos quanto eu. A Bi era um génio da brincadeira e uma catástrofe escolar. Brincou ferozmente até vir para Portugal, dois anos após a independência. Na pior fase da guerra, entretinha-se a brincar às escondidas e ao "canho" (à apanhada) com jovens guerrilheiros do MPLA, na serra da Senhora do Monte, onde moravam. Guerrilheiros com farda militar e metralhadora G3 na mão. Uma das opulentas vivendas dos brancos do local havia sido transformada em quartel do MPLA e outra em quartel da UNITA. A Bi e as irmãs Fausta e Lena, desaparecidos os tradicionais amigos brancos, divertiam-se inocentemente a brincar com os guerrilheiros, tão adeptos de infantilidades quanto elas. Aquilo é que eram correrias pela serra abaixo com as G3 saltitando no cotovelo! Um dia, a mãe delas espreitou pela janela e viu a cena toda, Bi e irmãs mais os guerrilheiros e as metralhadoras em pleno jogo da apanhada.
Decidiu que chegara a altura de se irem embora também.
Eu brinquei quase com desespero. Talvez pressentisse que aquele tempo mágico não duraria para sempre. Que me seria retirado cedo demais. Que eu estava programada, como criança de Angola, para brincar até muito tarde. Que talento danado para sermos crianças! Eu e a minha irmã, as minhas amigas matulonas - as três Bis e as três Gordas, as manas Azancot de Menezes - e a minha sombra, o pequeno Henrique Areias. Mas também a Mara, os irmãos Tó "Naldo" e João e o kambuta (pequenote) do Ruca, que andava no karaté.
Brincar! Nunca mais nada na vida será tão verdade quanto brincar. Brincar era saltar para o epicentro de um remoinho, uma vertigem onde as horas não existiam ou existiam sucessivas dentro de segundos. Onde o espaço se transmudava em pradarias e desfiladeiros. Onde éramos verdadeiramente nós, quero dizer, verdadeiramente eu, o índio Cavalo Forte. Nunca mais seremos tão verdade, de tal maneira que ainda hoje, no fundo de mim, sou, como não sou mais nada, o índio Cavalo Forte.



Brincar! É por brincarem que as crianças são sagradas, por terem tão fácil em si essa capacidade de se transportarem para um tempo mítico, um in illo tempore exterior aos constrangimentos da vida adulta. E a vida adulta, não é tantas vezes uma procura inglória dessa dimensão outra, do tempo sem tempo irrecuperável das brincadeiras? Que resta aos adultos senão as viagens, certos momentos, certos livros, certos filmes, a música, a escrita, a pintura, para lhes darem uma sensação semelhante, mas muito mais pálida e incerta?
A brincadeira era a única verdade, o resto era a maçada das refeições e de nos vestirmos para a escola. E quando a noite caía e acendiam-se as luzes públicas para combater sem vitória o seu manto negro, eu ressentia fundamente a crueldade das horas cronológicas. Atingiam-me como punhais ao retirarem-me do tempo mítico. Ter de jantar. Ter de dormir. O que era isso, esse tempo que vinha de fora e só tinha o dom de tudo estragar? Chorava amargamente: "Eu não quero que seja noite!" Mas a minha vontade era impotente perante as rotações siderais. Nas brincadeiras não, nas brincadeiras noite e dia surgiam segundo as minhas próprias rotações. Nas brincadeiras, podíamos construir um mundo todo novo, todo à nossa própria medida. Pequenos deuses da brincadeira.
No dia seguinte, retomávamos a brincadeira exactamente no ponto em que a tínhamos deixado. Ficara à nossa espera, intocada, suspensa, até ao nosso regresso. Desenrolava-se então com uma fluência mágica até o tempo dos adultos - escravos da cronologia -, com as suas refeições e as suas horas de dormir, uma e outra vez, virem arrancar-nos, brutalmente, daquele outro mundo paralelo que só aqueles cujo coração é puro conseguem penetrar.

Quando andava na quarta classe deu-se a revolução do Vinte e Cinco de Abril. Fiz, pois, quase toda a instrução primária no tempo do Marcelo Caetano. Nessa época, a Pátria Portuguesa era muito diferente da de hoje. Até aos dez anos a minha Pátria chamava-se Portugal, mas era um Portugal maiúsculo, imenso, espalhado pelo mundo, como se Deus tivesse lançado serpentinas verdes e vermelhas sobre o planeta. Uma grande família universal. Incluía brancos, pretos, indianos, chineses e timorenses. E eu imaginava-os a todos a falar português. Todos orgulhosamente unidos pela lusitana epopeia das Descobertas, a mais grandiosa e significativa das epopeias humanas. Aquela que revelara o planeta aos seus habitantes e os ligara por mar. Os portugueses eram universalmente reconhecidos e aclamados como um povo glorioso e heróico e eu tinha a sorte de fazer parte desse país tão grande quanto a Terra. Havia o velho Portugal metropolitano, aquela lasca de Europa pronta a soltar amarras e navegar. Havia o meu berço, Angola, a jóia da coroa, com seu petróleo e diamantes, catorze vezes maior do que a Metrópole. Na outra face de África estendia-se o grande território moçambicano, ambos os territórios como que empalando em português o velho continente; havia Guiné Bissau e Cabo Verde; São Tomé e Príncipe; o longínquo Timor; Macau, aquele ponto atrevido no mapa da esmagadora China; e, na Índia mágica, três pequenas pedras preciosas chamadas Goa, Diu e Damão. Sim, Goa, Diu e Damão. Goa, Diu e Damão, cuja independência fora conseguida anos antes de eu ter nascido, eram estudadas nos manuais escolares, duas décadas volvidas, como colónias portuguesas, até vésperas do Vinte e Cinco de Abril de setenta e quatro. África, Índia, China, Oceania, e ainda o vasto Brasil a falar português nas Américas - o velho império lusitano, verdadeiramente global, era a minha Pátria. A Pátria dos Heróis do Mar. Sem fronteiras, unindo as raças, lendo "Os Lusíadas". A Pátria cujos filhos descendiam da estirpe de um Egas Moniz, de um Dom Dinis, de uma padeira de Aljubarrota, de um Nuno Álvares Pereira, de um Vasco da Gama, de um Fernão de Magalhães, de um Gago Coutinho, de um Serpa Pinto. A História de Portugal era uma sucessão de heróis e feitos de glória. O Grande Portugal. Girava à volta da Terra. Conquistara os oceanos. Desvendara os segredos dos céus. Girava à volta da Terra. Eu sentia subtis mas inquebráveis fios de ligação com as crianças de Macau, com as crianças de Timor, com as crianças de Goa. Se nos encontrássemos, havíamos de nos reconhecer, falar com orgulho a mesma língua, começar a brincar logo ali. A minha Pátria era imensa, encontrava-se em todo o mundo. A pequena Metrópole europeia, no meio disso tudo, não tinha senão a importância do seu passado. Heróis do Mar. Na escola, cantávamos o hino em cada manhã. Éramos Valentes. Imortais. Esplendorosos. Brumosos e Antigos. E eu principiava o dia cheia dessas convicções.




O meu tio Lereno Lusitano dando consultas a um grupo de muílas. Meados dos anos 40.

Mas após o Vinte e Cinco de Abril, de repente, foi como se a Metrópole deixasse de ter qualquer interesse. Logo a seguir ao dia 25, os brancos do Lubango descobriram-se angolanos. Primeiro houve a vaga do Spínola, que parecia um grande herói. Spínola, Spínola, Spínola, e as "passagens à Spínola" na minha quarta classe. Todos os garotos passaram de ano. A era da igualdade chegara: descobriu-se que havia a teoria de que os pretos eram iguais aos brancos e daí inferiu-se que as notas dos cábulas também tinham de ser iguais às dos alunos brilhantes. Mas parece que só esta última teoria foi efectivamente passada à prática. Conheci um garoto preto da minha idade chamado Spínola em homenagem ao general, a quem nunca ninguém dera importância até então. Por se chamar Spínola tornara-se especial, com um cheirinho a heroicidade. Depois houve a vaga Rosa Coutinho, sem já nada de exaltante. Nunca encontrei nenhum miúdo preto chamado Rosa Coutinho. Era odiado pelos brancos. Mas não pela minha mãe. Rosa Coutinho, muitos anos depois, moraria perto de mim. Quantas vezes tomaríamos em Lisboa o mesmo autocarro 44! Décadas volvidas e o ódio contra ele aceso, sempre aceso. Dentro do autocarro, havia sempre alguém que o reconhecia, pessoas a quem a vida "pregara uma partida" em África: "Olha quem ali vai! Aquele bandido do Rosa Coutinho! Esse é que é o culpado de tudo o que nos aconteceu! Comuna duma figa! Se estivesse aqui o meu marido havia de lhe dizer das boas!" - diziam, ora em voz alta ora num sussurro, conforme o estado geral do nível de cobardia.
Quem realmente importava, no entanto, era o Agostinho Neto e o Savimbi e o Holden Roberto, o MPLA, a UNITA, a FNLA. O que se passava na Metrópole, os seus PCP, PS e MRPP só vagamente chegava aos meus ouvidos e às minhas mãos, sob a forma de colecções de autocolantes de propaganda política que nos enviavam os tios da Metrópole. Na Metrópole tinha havido uma revolução com cravos, na qual um menino pobrezinho de caracóis louros enfiara um cravo na arma de um soldado (apareceu o poster na montra da livraria Lello de Sá da Bandeira, na Rua Pinheiro Chagas, e ficou lá imenso tempo), o Marcelo e o Tomás fugiram para o Brasil e pronto, a Pátria de Minho a Timor deixou de importar com um simples estalo de dedos. Angola era como se já fosse independente. Só Angola importava. De vez em quando, lembrava-me de Macau e Timor, essas duas eram o meu orgulho maior, o que é que lhes estaria a acontecer? Mas os tempos eram tão excitantes em Angola, quase uma verdadeira aventura, finalmente acontecia alguma coisa de verdadeiramente interessante na minha vida. Até aí eu forjara as minhas aventuras. Mas agora não, agora a História movia-se por si, algo maior, muito maior do que eu se movia, a aventura chegava de fora, era mesmo de verdade. Sentia a História a entrar pela primeira vez na minha vida.

Com uma mente de dez anos descobri que os pretos mais cultos e a maioria dos outros eram do MPLA, os brancos da Unita, os mulatos ninguém sabia de onde eram e os brancos radicais eram da UFA, um movimentozinho defensor dos seus privilégios e poder, que achava a África do Sul do apartheid um modelo a seguir. Não ficou para a História. Era o movimento das senhoras dodós, em Portugal chamadas "tias". Quando faziam manifestações não andavam por seu pé. Eram dodós, não saíam dos popós. E também nada gritavam. Limitavam-se a buzinar. As suas reivindicações deviam ser tão inconfessáveis que eram substituídas pelo som póóó. Popóóó, lá vinham elas nos seus Mercedes, nos seus BMW, das ruas da Baixa, contornavam a Praça Luís de Camões e seguiam para a Senhora do Monte. Os seus popós diziam tudo. Não era preciso mais nada.
Nós tínhamos um Volkswagen verde-folha em terceira mão e defendíamos o MPLA. Mas os pais da Mara, que tinham um Citroen ID, um Toyota Corolla amarelo torrado e um jeep Land-Rover - tudo em primeira mão - também defendiam o MPLA. O regente agrícola tinha uma carrinha Station e também defendia o MPLA. A minha mãe era qualquer coisa como uma traidora na óptica dos brancos, porque apoiava o MPLA. Tinha-se passado para o lado deles, dos pretos. Concordava que Angola devia ser governada por angolanos, fossem pretos ou brancos. Para os outros brancos, o MPLA queria Angola governada por pretos e ponto final. Quem teria razão? Éramos brancos raros. Sentíamo-nos Especiais e Esclarecidos, tão cheios de Razão que não havia espaço para mais nada. Fosse quem fosse que tentasse inculcar-nos qualquer ideia de fora, rebentava altercação e da forte. Era o grande tempo das grandes discussões. Muito se discutia! Discutia-se ferozmente, com muita emoção e pouca calma. Discutia-se inutilmente, mas em doses industriais. As pessoas, de repente, descobriram-se todas especialistas em alta política e de convicções inabaláveis. Era a Grande Época da Política. Política - foi esse o maior palavrão dos meus dez aos treze anos.

No ano escolar de 1974-75, o programa de História deu uma volta de 180º. Afonso Henriques foi substituído pela Rainha Ginga, o condado portucalense pelo Reino de N'Gola, os lusitanos pelos muílas, os mucubais, os cuanhamas, os mucancalas, os tchokué e quejandos. Ironicamente, na minha turma havia apenas duas miúdas pretas. A maioria das crianças negras nem à Escola Primária chegava. E os professores, claro, eram todos brancos.
Os pretos, de repente, tornaram-se muito interessantes. Obriguei a minha lavadeira a ensinar-me rudimentos de olunyaneka, ao qual eu, na minha branca ignorância, chamava quimbundo. Entrei no quartito dela, coisa que jamais me passara pela cabeça fazer até então e, papel e lápis em riste, ordenei, com os meus modos autocráticos de criança branca:
- Vamos estudar os verbos! "Vestir", por exemplo. Vá, diz-me lá em quimbundo a primeira pessoa do singular do verbo vestir!
A lavadeira teve um sorriso envergonhado. Claro que não percebera patavina da minha algaraviada escolar. Era tal o fosso entre nós.


Duas das nossas empregadas: a Regina e a Margarida.

Criados. Quem era a sua mãe? Quem era o seu pai? Ninguém parecia saber. Até então, ninguém queria saber isso dos pretos. "Elas não sentem como nós", dizia-se das mães negras que perdiam os filhos. Os pretos nunca eram olhados como filhos amados de alguém. Nem sequer como filhos. Viam-nos convenientemente autónomos, sem raízes ou sentimentos de família. Quando se empregavam criados, quase sempre muito jovens, não se sentia qualquer curiosidade por eles. Como se cada preto fosse igual aos outros. Como se não tivessem passado e o futuro fosse o mesmo beco sem saída do presente. Mas agora não, descobria-se que eles podiam ser objectos de interesse! Por exemplo, tínhamos um criadito que tinha sido monangambé. Monangambé! Como na famosa canção de Rui Mingas! Monangambé, os contratados de São Tomé, na verdade uma forma de escravatura moderna! Fazia parte do nosso novo vocabulário, a palavra Monangambé, e afinal abrigávamos nos nossos próprios anexos um verdadeiro Monangambé! Que chique. Sobre um outro criadito, descobrimos que o pai dele tinha uma quantidade de cabeças de gado. Quer dizer, era o menino fino lá da tribo. O filho de um capitalista muíla. Que excitante.

Começava a deixar de ter paciência para os discos de histórias infantis. Metralhava os ouvidos com os singles da Pandilha, com o "Sugar baby love", "If you need me", "Kung Fu Fighting", "El Bimbo", "Pop Corn", a música do filme do Trinitá. A rádio, que nunca se ligava em minha casa até ao 25 de Abril, passou a ser usada para saber as notícias dos últimos desenvolvimentos políticos. E eu apanhava de quando em vez músicas como "La Décadence" e a música do filme "O último tango em Paris". Na livraria Lello vendia-se o livro "O último tango em Paris". A Bi é que me falava destas coisas. Contara-me o filme, sobretudo os pormenores escabrosos. A Bi tinha quinze anos. Eu tinha dez. Para tentar perceber o interesse e fazer-me curiosa, folheei o livro na Lello. Passei os olhos uns segundos e percebi que não era capaz de sentir a animação que ela sentia com aquilo. Outra bomba era "La grande Bouf". A Bi falou-me, mas sobretudo os adultos, falavam muito da "Grande Bouf", com um ar entre o nojo e o excitado. Percebi que era um filme onde havia uma festa em que os adultos só comiam e defecavam. Havia pessoas, diziam, que ficavam incapazes de comer durante dias depois de terem visto o filme. Os adultos eram seres muito estranhos. Tudo quanto tinha interesse maçava-os, tudo quanto não tinha ponta por onde se pegasse, subitamente animava-os. Andavam sempre a ralhar com as crianças para não se sujarem, mas havia alguém que gostasse mais de porcarias do que eles? Fingiam-se enojados, mas aquelas tretas enchiam-lhes as medidas. Enchiam-lhes as medidas que eu bem via. Livra, que gente, eu é que não queria ser como eles. Ainda bem que era criança. Isto era na cidade do Lubango, Angola, na época do pós-revolução. Os costumes haviam começado a mudar havia já alguns anos. Havia muitos "liambados", a juventude que fumava liamba, e a Bi contava-me das festas devassas do Lubango. Da troca de casais. Do jogo das almofadas. A juventude, sobretudo branca, entrara no mundo da droga mas, nisso, a História veio pôr um travão. Os aviões breve os levaram para longe e Angola ficou com a sua guerra de longos anos, onde nem os traficantes ousaram penetrar. A guerra travou a voragem da droga em Angola. Eu sentia um entusiasmo todo intelectual pelas drogas e a estética psicadélica dava-me volta ao miolo. O meu vocabulário enriquecera-se com palavras como "alucinogéneo" e "ácido lisérgico". Lera tudo isso num livro de análise sociológica sobre o fenómeno hippie. Aos dez anos, 1974, eu queria ser hippie. Ainda havia hippies retardados nos anos setenta. Queria ser hippie e também queria ser índio.


Além das músicas pop, enveredara ainda pela música de intervenção, o último grito da moda. O "Monangambé" do Rui Mingas era o número um, mas também o "Minha mãe", poema de Agostinho Neto. E havia as canções sobre os heróis da praxe, o mártir guerrilheiro "Valódia", a representante do sexo feminino "Deolinda Rodrigues", e o representante das crianças, "Augusto Ngangula". Agostinho Neto era muito cantado, havia o "Presidente, presidente,/ nós fazemos-te uma prece" e aquela que começava assim: "Tatamukuchi Agostinho Neto,/ camarada iabátu Angolá/ oê, oê, Angolá liberté" - pelo menos era assim que eu percebia. "É o guerrilheiro,/ que passa o tempo lá na mata"... Em todas as viagens pelo Lubango fora no Volkswagen verde-folha, percorríamos incansavelmente o nosso imenso repertório musical político. Não nos coibíamos de alindar o ramalhete com canções das facções inimigas: "Savimbi é maravilhoso/ Savimbi é maravilhoso!/ Ele sabe lidar com o povo bem,/ Savimbi é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso…" Era só maravilhas.

Eu e a Mara até nos inscrevemos na OPA, a Organização dos Pioneiros de Angola! Cheguei à sede com o meu habitual arsenal bélico: fisga ao pescoço, canivete no bolso. Estive quase quase a levar a minha zagaia. O camarada guerrilheiro de guarda, abraçando a sua G3, proibiu-me de entrar com tanta arma, confiscou-me a fisga e o canivete e segui para a instrução militar completamente desarmada. Um punhado de miúdos negros rodeou-me. "Trouxeste calções brancos! Vão tornar-se pretos!", disse um deles. E desataram a rir. Só hoje percebo o quanto aquela frase era profética. Dali a pouco apareceu o instrutor. E começou um treino militar a sério. Marchámos à moda do MPLA, batendo resolutamente com os punhos no peito e lançando as pernas para a frente e rastejámos no chão enlameado. O instrutor arvorava uma expressão trocista e eu suspeitava levemente que aquilo tinha a ver com a presença daquelas duas notas dissonantes brancas no meio dos miúdos pretos. De algum modo, tal suspeita incentivava-me a empenhar-me ainda mais nos exercícios. Havia de o fazer engolir a troça. Na vez seguinte, porém, a troça foi mais ruidosa. Começou a chover copiosamente e o instrutor ordenou que repetíssemos as suas palavras: "Quem tem medo da chuva é filho de tuga!" Para ele perceber que eu não me considerava filha de tuga, repeti resolutamente as suas palavras. O instrutor delirou, morto de riso, tal qual como se soubesse que o meu pai era de Santarém, e repetiu uma e outra vez a mesma frase. E eu também repetia, muito séria, muito OPA. A coisa nunca mais parava, até que chegou um negro bem vestido, com óculos, ar de intelectual. Aproximou-se do instrutor e, numa voz desagradada, segredou-lhe: "Que é isso, camarada? Estás a gozar com as crianças brancas? Não queremos esse tipo de atitude no MPLA. Elas inscreveram-se na OPA, devem ser tratadas como as outras. Pára já com essa brincadeira." O instrutor, a custo travando o riso, lá se conteve. Eu continuei a empenhar-me nos exercícios, mas mais desconsolada. No entanto, tudo isto foi bruscamente travado. O tuga soube que eu andava na instrução da OPA e ficou furioso. Que não sabia onde me estava a meter, que era de uma total inconsciência, que era de loucos, que nunca mais havia de lá pôr o pé. Chorei amargamente, mas não tornei a ir. A razão foi apenas porque a atitude do instrutor arrefecera o meu entusiasmo inicial.
Às 4 da manhã acordei com um grito de homem vindo da rua. Começara o tiroteio. Já estávamos à espera dele. Andava a descer de Luanda e algum dia teria de chegar ali. Eu tinha ouvido tiroteios em Luanda, mas longínquos - os piores tinham passado ou estavam por vir. Só uma vez um tiroteio acontecera bem perto, numa avenida espaçosa, estava eu com a minha prima Magui. Desatámos a correr pela estrada fora até o deixarmos de ouvir. Mas no Lubango foi naquela madrugada. A minha casa encheu-se de gente. A família das Bis e a família do Tó "Naldo" e do João, que viviam na Humpata, tinham vindo refugiar-se na Praça Luís de Camões. Asneira. O tiroteio começou precisamente ali. Acampávamos no corredor, receando os tiros que pudessem atravessar as janelas. Na parede exterior da minha casa surgiram dois buracos de bala. Ena pá, o orgulho que aquilo me deu!


A mãe da Mara apareceu na minha casa com um farnel para os guerrilheiros do MPLA. Que, coitados, deviam estar cheios de fome! E de cansaço! Vinha recrutar-nos a nós, crianças, para irmos com ela naquela piedosa romaria. Subimos a Serra no Toyota Corolla amarelo torrado até ao miradouro. Estava lá estacionado um carro blindado. Com um jovem guerrilheiro do MPLA. A mãe da Mara procedeu à sua oferenda de sandes de queijo e fiambre, acompanhadas de sumo de laranja natural. O rapaz recuou. Ela então bebeu um pouco, de modo a provar-lhe que não estava envenenado. Uma senhora tão fina preocupada com guerrilheiros! O rapaz arregalava os olhos. Encontrámos ainda outro guerrilheiro e repetiu-se a dose. Igualmente atrapalhado, mas com um sorriso trocista, pelo que regressámos aos nossos lares, a mãe da Mara bem feliz por haver alimentado dois guerrilheiros do MPLA para terem mais força para dar tiros aos da UNITA.


Com tiroteio à porta, guerra no país, famílias acampadas no corredor de casa, a minha avó teve uma trombose. A debandada geral começara. Todo o branco se ocupava a encaixotar os seus bens terrenos. "Não lhes hei-de deixar nada!" - ouvia-se a cada dia. Nós deixámos quase tudo aos nossos criados e a maior parte da biblioteca foi doada ao MPLA. Como à minha irmã não podia faltar determinada medicação, a minha mãe resolveu seguir a turba na travessia da ponte aérea.
Pouco antes da partida, avistara de carro uma colega de escola, uma repetente crónica que já tinha 16 anos. Era uma mulata enorme, alta e forte, que gostava de se entreter a aterrorizar os colegas mais miúdos. Naquele dia, vestia uma farda das FAPLA. Estava encostada a uma viatura militar, conversando com os seus novos colegas. Embora tivéssemos acabado de frequentar a mesma escola, percebi que os nossos destinos iriam irremediavelmente divergir.


Pouco tempo faltava para partirmos e eu encarava tudo como uma grande aventura. Mas olhei para a espatódea no passeio frente a minha casa. Quantas vezes eu subira aquela árvore! Agora tinha de dizer-lhe adeus. Trepei uma última vez, sentei-me num dos seus robustos ramos. O conforto peculiar de estar empoleirada numa árvore. Não é um conforto físico, é mais um aconchego, um abrigo verde. Aqui e ali, flores cor de laranja, como labaredas a desafiar a verdura. Pensei na minha partida, pensei que tinha onze anos, que aos onze anos da minha vida iria para Portugal. Que preferia ter dez. Mas que, mesmo assim, era ainda criança. Eu não queria crescer. Ser grande, essa meta tão almejada pela maioria dos miúdos, a mim repugnava-me. Ser grande, para mim, era conviver com a morte. Era ter de ir ao cemitério. Os adultos tinham sempre tantos mortos! A minha mãe não nos deixava entrar no cemitério da cidade, na Mitcha. Ficávamos de fora, a olhar os altos muros, o enorme portão de ferro trabalhado para lá do qual os mortos descansavam. Eu não sentia curiosidade. Preferia ser criança e não ter de ver. Os adultos morriam com doenças estranhas. Nós, as crianças, nós não morríamos. Mas então pensei num miúdo amigo meu que morrera havia pouco, com uma doença lenta e terrível. Houve missa na igreja do meu largo, o Largo de Camões. A minha mãe participou na cerimónia, nós não. Éramos protegidas da morte. Fui tomada então por um súbito pavor. "Mas é raro! Mas é raro!", tentava eu descansar-me. Caía em pavores, da morte, das "almas do outro mundo" sobre as quais tanto falava uma vizinha nossa, dos feitiços, kazumbis dos kimbandas, do incontrolável, das forças maiores do que nós, das forças invisíveis. A presença do invisível sempre me pareceu óbvia.
Apesar dos seus percalços, a infância ainda assim me parecia um refúgio contra a morte. Além da associação entre o estado adulto e a morte, havia ainda o vago desprezo que eu nutria pela gente grande. Já não conseguiam brincar. Poderia haver maior condenação? Só sabiam falar. Andavam sempre a falar. A maior parte deles levava vidas desinteressantes. Nunca lhes acontecia nada. Nunca eram raptados por índios. Ficavam nos cafés a parlapatar como parvos em vez de irem subir às árvores como eu. E eram realmente grandes e desajeitados. Não cabiam em sítio nenhum e perdiam toda a graciosidade. As crianças a correr eram leves e rápidas; os adultos eram sempre pesadões e as mulheres uma desgraça, com as pernas travadas pelas saias, os saltos altos a impedi-las de avançar e as mamas a dar a dar. A queda de um adulto era embaraçosa. O chão estremecia com o estrondo do peso. Eles próprios sentiam um embaraço que se lhes via na cara. Mas as crianças até a cair tinham agilidade e graça. Os adultos, nem sequer dormir sozinhos conseguiam. Em suma, eram uma tribo ridícula.
Ainda assim, os homens tinham certas vantagens. Sabiam correr bem melhor do que as mulheres e alguns, como o pai da Mara, punham as mãos atrás das costas quando caminhavam. Eu achava que aquilo "dava estilo". Alguns homens até eram caçadores, como o Martins. As mulheres não. Pintavam-se muito. Pareciam palhaços tristes. Usavam penteados altos e armados como morros de salalé. Subiam as escadas em bicos de pés, as pernas ânforas gregas enfiadas em saltos muito altos. Tudo nelas falava de artifício e desconforto. Não pareciam muito humanas. Também os apertos de mão dos homens tinham muito mais estilo que as mulheres e os seus beijinhos sociais. Eu gostava de dar apertos de mão. O Mário Caixeiro, com as famosas sobrancelhas farfalhudas, um dia deu-me um aperto de mão - e comentou que eu tinha "muita força". A mim, que tinha o culto da força. Olhei, fascinada, para ele e ganhei o dia.



Espatódea

A minha vida de princesa africana ia acabar. Ia principiar a minha vida de cigana lusa. Aos onze anos desci de carro as laçadas da Serra da Leba, atravessámos o deserto do Namibe, dormimos uma noite no Colégio das Doroteias. Acordámos cedinho, o tempo fresco de Moçâmedes, a areia do Colégio era como a da praia e havia baloiços e balancés frente ao nosso quarto. Contempleio-os com melancolia, como se pressentisse que a minha infância estava prestes a terminar. Não naturalmente, mas por imperativos históricos, muito maiores do que eu. Adeus balancés. Eu seguia por um barco de carga para Luanda, o meu pai ficaria provisoriamente, regressou ao Lubango, a mãe deu-lhe da amurada um saco. E depois descobrimos que se enganara, entregara-lhe as nossas provisões para a viagem em troca de um saco cheio de cascas de fruta. A minha mãe no seu mais típico. Ficámos sem nada para comer.
O barco estava pejado de futuros "retornados". As pessoas acomodavam-se em qualquer sítio. O barco era só metal, ferrugem desagradável ao tacto, um pouco sujo. Eu nunca andara de barco, excepto a travessia do Tejo dois anos antes, durante a "licença graciosa" da minha mãe. Mas este era muito maior, um barco de carga. Havia uns poucos camarotes, disseram-nos que eram do capitão e demais tripulação. E que havia o porão. Fomos ao porão. Descemos para um buraco por umas escadinhas de ferro e não havia lugar para pormos um pé. O porão era um amontoado de gente. Gente que se barricava na sua bagagem, tentando um mínimo de privacidade para a sua família. Gente com bom aspecto, bem vestida, homens fortes de olhar triste, havia pouco tão alegres pelas ruas e nas casas que deixavam para trás. Eram como os homens que eu costumava ver no Lubango, na pastelaria Flórida, no Combinado, na livraria Lello ou na Académica. Agora, sentados no chão, apertados no porão, eram como porcos num curral. Pareciam escravos brancos. Escravos brancos num porão. Ó ironias da História! Tornei a subir a escadinha de ferro apressadamente. A minha grande aventura começara a amargar.
Onde ficar? Onde passar a noite? Percorremos o barco, encontrámos uma secção ao ar livre cheia de longos toros de madeira empilhados uns sobre os outros. As pessoas arranjaram um espaço para nós as três. Subimos para cima dos toros, que depressa nos maçaram as costas com as suas esquinas afiadas. Na outra ponta queixava-se uma senhora que conhecíamos. Era uma das senhoras dodós da UFA. Também vivera na Laje. A sua voz erguia-se num lamento:
- E eu que ontem até fui ao cabeleireiro! Oh, meu Deus! E afinal isto é o barco que nos dão! Um barco de carga! E eu que fui ao cabeleireiro, pensando que, já que nos tiraram tudo, nos dispensavam o "Príncipe Perfeito"! Tiram-nos tudo e ainda por cima nos põem num barco de carga!
Depois falou nos terroristas, referindo-se aos pretos, claro, sobretudo os do MPLA, um bando de ladrões. Ela ultimamente até punha um saquinho com umas poucas moedas perto das portas e janelas a ver se eles se contentariam com aquilo e se iriam embora sem lhe assaltar a casa a sério. Até os terroristas, por serem pretos, eram subestimados. Eu tinha boa opinião dos terroristas. Afinal, desde muito pequenas, a parelha que eu formava com a minha irmã era conhecida como "As Terroristas". Deviam divertir-se à brava, esses tais terroristas, se eram capazes de semear o terror, como nós entre a demais criançada.
Mas the times they were a-changin’. As antigas estruturas desfaziam-se em pó. As senhoras dodós do Lubango eram lançadas em barcos de carga sem qualquer conforto ou cabeleireiro, sós, desprotegidas, rumo ao desconhecido. Rumo ao desconhecido. Num barco de carga rodeado de mar, uma extensão sem fim de água anoitecida, monótona e informe. Incapaz de adormecer com o frio da noite no mar alto, com as luzes, o barulho, o movimento e a impossibilidade de qualquer conforto vindo dos toros de madeira, pus-me a olhar a juventude do barco. Tinham subido para a amurada, feito uma grande fogueira, e tocavam viola com as suas grandes guedelhas e calças à boca de sino. A juventude dos anos setenta. Um contraponto em relação à cena lá de baixo, do porão. Eu cantava para dentro "Another time", haviam-me oferecido o single, só tivera tempo de o ouvir uma vez. Não me queria esquecer da melodia. "Another time". Outro tempo vinha de encontro a nós no vento do mar alto, varria-nos para longe.


Nada para comer. No outro dia, eu e a minha irmã tínhamos fome. Uma senhora conhecida trouxera um frango de churrasco embrulhado em papel pardo. Ofereceu-nos. Devorámos-lhe o frango todo. Um rapazote gordo lia banda desenhada da "Lola", do "recruta Zero", do "Zé da Fisga". Eu conhecia as tiras da "Lola" e do "recruta Zero" da última página do Diário de Luanda. E o "Archie". Eu adorava o "Archie", mas isso fora uns anos antes. Talvez 1972. Mas agora era 1975 e estávamos num barco de carga a comer frango de churrasco. A senhora ficou sem nada para comer.

Depois chegámos a Luanda. Os futuros "retornados" enchiam o cais e as ruas adjacentes, havia bichas por todo o lado, parecia que Angola inteira se juntara para partir. Sem saber o que fazer, subimos por uma rua ao acaso, ao longo da qual se desenrolava mais uma grossa fila de gente. No meio da multidão, porém, por puro acaso e sorte, avistei o meu tio Francisco e o meu primo Tomás. Procuravam-nos. Explicaram que aquela gente não tinha ninguém em Luanda, estavam a tentar inscrever-se para serem alojados algures até que fossem metidos num avião para Lisboa. Nós, felizmente, tínhamos família em Luanda, podíamos ir logo embora dali. Metemo-nos no carro e breve estávamos no largo da Vila Alice, na casa da tia Liberdade Lusitana. Ali esperaríamos o nosso avião e empreenderíamos a viagem pela ponte aérea e pelas malhas que o império tecia.

Nos arredores de Luanda, na base militar portuguesa, foi onde instalaram os refugiados sem família na cidade. O nosso primo Osvaldo levou-nos lá. Que triste, lá continuavam eles como porcos num porão, barricados em malas, uns em cima dos outros. Disponibilizavam-lhes apenas duas casas de banho, as bichas eram terríveis. Só esses se mantinham em pé. Davam uma lata de sardinha enlatada por dia às famílias, duas se tinham crianças. Estavam quietos, só no olhar a revolta se traía. Enjaulados. À espera do avião que os depositaria na Metrópole, para muitos território ignoto, onde também não conheciam ninguém.
Eu sondava o chão, estava cheio de cápsulas de balas que recolhia com fervor. Era uma criança tonta, que amava armas e balas. G3, kalashnikov, bazooka, morteiro, granada - palavras centrais no meu vocabulário de então. Muitos anos depois, soube que, entre essas cápsulas, havia balas não disparadas e até granadas. E que uma outra criança, por esses dias, recolhendo por ali despojos de guerra como eu, ficou sem um braço quando uma granada lhe rebentou na mão.
Informaram-nos de que certo dia haveria num avião lugar para nós. Um enorme avião russo. Perto do nosso lugar havia um menino pequeno chamado Cristóvão. Um pequeno retornado louro que decerto esqueceria Angola. E ouvia-se o Samba Pati do Carlos Santana, de quem eu desconhecia o nome mas amava o som. Algo diferente vinha de encontro a mim. Sentia isso distintamente.
Mal pusemos pé em Lisboa, de novo a cena se repetiu, o porão no barco, a base militar. Lá estavam eles, mais retornados e mais retornados ocupando o chão por inteiro, acampando no aeroporto, quietos, com o mesmo olhar perplexo. E nós sempre a escapar a isso, tínhamos muita família em Portugal.

Chocou-me, Portugal, chocou-me linguisticamente. O seu vocabulário, a sua gramática. A tia Irisalva Constância e o tio Juvenal Lusitano tinham alugado uma casa de campo nos arredores de Sintra, pouco tempo antes da Invasão dos Retornados da família. Orgulhosos que estavam, apressaram-se a levar-nos de carro até lá. Eu olhava pela janela a tal Metrópole e não dizia nada. A tal Metrópole, em 1975, parecia-me toda muito pobre. Aquelas povoações de casas mesquinhas, baixinhas, aqueles homens farruscos, de grandes barrigas, mal amanhados e com bigode, à porta das tabernas... Então isto é que era a tal Metrópole? A estradazita manhosa em que, periclitante, o "Dois Cavalos" seguia... que motivo havia para orgulhos? Não percebia. A tal importância da Metrópole parecia ser desmentida a cada passo. Como podia tudo aquilo ter importância? Mais do que as chamadas províncias ultramarinas? Era tudo mentira, estava à vista que era. O sol brilhava sobre casas apodrecidas e vedações atabalhoadas, confeccionadas com paus e plásticos sem ordem ou gosto, a delimitar pequenas hortas verdes de aspecto desleixado. De repente, numa curva, consegui ler uma tabuleta torpe de madeira, meio caída numa dessas vedações. A tinta azul desbotada, alguém tinha escrito numa caligrafia tosca: "Não bazar o entulho". Não vazar o entulho! Que feio! Aquilo não era a minha língua. Não sei por que carga de água conseguia compreender o sentido, mas aquilo era muito estranho, diria mesmo estrangeiro. Na minha língua dizia-se "Não deitar lixo" numa placa enxuta e com letras de imprensa. Então mas que raio de coisa era esta tal Metrópole, afinal? "Não bazar o entulho"? Aquilo soava-me a muita miséria, a muita ignorância, a demasiada consonância com a paisagem em redor.
Depois, quando chegámos à casa de campo, não era nenhuma casa de campo. Era uma casita no meio de uma aldeia, com cinco assoalhadas, duas em baixo e três em cima, geminada com outra. O campo estava em volta da aldeia, não estava ali. A estrada passava mesmo em frente ao pequeno quintal. Eu imaginara, claro, uma casa de campo na acepção africana, uma mansão opulenta, com piscina, muitas árvores, court de ténis, que sei eu! Uma coisa à escala africana. Até hoje se mantém o meu desfasamento de escala. Chamam quinta ao que eu chamaria pequeno jardim. Exclamam com orgulho: "É grande, não é?" E eu penso: "Isto?" As palavras são as mesmas, o significado difere.
E o tal campo, era só pinhal! Uma estrada a dividir um pinhal. Os pinheiros não são árvores muito excitantes para alguém que as dividia segundo o critério de "serem boas para subir" ou "não serem boas para subir". O chão era terra, pinhas e agulhas de pinheiro, uma monotonia até ao mar.
A aldeia tinha casas brancas e pequenas e velhas de preto na soleira das portas. Pareciam bruxas e nunca me passaria pela cabeça dirigir-lhes palavra, mas a minha irmã era uma comunicadora nata e em breve pôs as velhas de conversa. Pergunta resposta pergunta resposta, a minha irmã num ápice despejou a versão dela da nossa vida toda no largo da aldeia. Eu preferia brincar. Sonhava brincar na tal casa de campo que afinal era aquilo.

Tive outro trauma linguístico pouco tempo depois. Em plena paragem de autocarros do Campo Pequeno. Vi aproximar-se um autocarro verde de dois andares, como o eram nos idos de setenta, e pude ler distintamente o seu letreiro: "Picheleira". Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Picheleira! Picheleira? Seria possível? Não tinha recuperado do choque, quando novo autocarro se aproximou e os meus olhos incrédulos distinguiram: "Galinheiras". Galinheiras? Galinheiras? Ó meu Deus, mas que assustadora terra era aquela cujos autocarros rumavam a tais lugares, às Galinheiras e à Picheleira? Que horríveis lugares não seriam para conseguirem suportar tais nomes? Que país era aquele para onde me haviam trazido? Que profundamente contrário a tudo quanto eu fora. Naquele cair de tarde, olhei os portugueses a meu lado à espera do autocarro. Eram estrangeiros, até na sua língua me eram estrangeiros. Gente assustadora que se ia enterrar em lugares chamados Picheleira, chamados Galinheiras.

Quando entrei para o liceu, tinha colegas cujos pais, nas férias, iam "para a terra". A expressão, usada com muita frequência, causava-me viva estranheza. Se ao menos dissessem "para uma terra chamada..." ou "para a terra deles", eu compreenderia. Mas assim, "para a terra", que raio, o que é que queriam dizer com aquilo? Então não estávamos todos na Terra? Até parecia que os pais deles eram alguns extra-terrestres! Lá em Angola, estavam todos na Terra e na sua terra. Se fossem algures, pois iam para Luanda, ou para Moçâmedes, ou para a Metrópole. Para a terra, só se fosse para debaixo dela. "Ir para a terra" soava a muito mau agouro, mas os pais daquela gente passavam a vida a ir para a terra.
Outra que me matava era a do "lugar". Havia miúdos cujos pais possuíam ou trabalhavam num "lugar". Mas como seria possível não trabalharem num lugar? E diziam: "Vou ao lugar comprar batatas fritas Pála-pála." Durante muito tempo estes "lugares" permaneceram altamente enigmáticos para mim. Demorou bastante até descobrir que se tratava de pequenas mercearias.
Além do que, os portugueses chamavam camionetas aos autocarros ou machimbombos (deformação do inglês machine boom boom); e malas às carteiras e pastas de livros; e frigorífico à geleira; e gelados aos sorvetes; e comer à comida; e hospedeiras de bordo às aeromoças; e "ténis" aos kedds; e pastilha elástica ao chuínga, deformação do termo inglês chewing gum; e pensos rápidos às curitas; e amendoim à ginguba; e pequeno-almoço ao mata-bicho; e batata-doce ao cará. Usavam palavras esquisitas como charneca e azinhaga e abalar e o dito entulho. E expressões ainda mais esquisitas como "estou deserta para ir à praia" em vez de "estou ansiosa..." e "faz-me espécie" em vez de "faz-me impressão". Nas aldeias, tratavam por "canalha" a miudagem. E os verbos, que desacerto, coisas que arranhavam os ouvidos, há-des, puzi-o, fizi-o. Então estes é que eram os portugueses mais portugueses?
E em Portugal havia peros e peras, pêssegos e alperces e mosquitos e melgas. Em Angola só havia peras, pêssegos e mosquitos. Por outro lado, eu dizia, por exemplo, "sobe nas minhas kakundas" em vez de "sobe para as minhas costas" e "Que kambuta!" em vez de "Que baixinho!", "Estás com tchimpululo!" em vez de "Estás com inveja!". De vez em quando, gramaticava à preto, afirmando que "sonhara no" em vez de "sonhara com o" e pedindo "Jura com Deus!" em vez de "Jura por Deus!". Enfim, metia-me em becos comunicacionais sem saída porque os miúdos de cá não entendiam o que eu estava a dizer.


Em Lisboa, íamos ao IARN que ficava ao lado do Museu de Arte Antiga. Estava sempre cheio de retornados a fazerem bichas para receber subsídios. Retornados exaltados, discutindo política, amaldiçoando os políticos. Descíamos aquela escadaria cruzada que vai dar à 24 de Julho. Um dia fomos ao Cais da Rocha, que se assemelhava então a uma cidadela de caixotes. Vagueando pelas suas ruelas, líamos os endereços inscritos nos caixotes, descobrindo alguns nomes de gente conhecida. E, a meio de uma dessas ruelas - ei-lo! -, um pequeno saco da TAP, sem endereço algum, que continha todas as nossas fotografias de infância. Chegara. Muitos caixotes nunca haveriam de chegar. A Mara e os irmãos ficaram sem qualquer foto de infância. Passados sem registo material.


No dia 11 de Novembro de 1975, claro que eu sabia, havia muitos meses, que nessa data Angola se tornaria um país independente. Mas só mais tarde, seriam dias, um mês, meses mais tarde?, ouvi comentar-se a independência de Angola em casa da tia Irisalva Constância.
- Nós seguimos aqui a cerimónia da independência, pela televisão. Foi muito bonita. E tenho de confessar que me comovi um bocado quando vi aquela bandeira de Portugal a baixar! Aquela bandeira de Portugal a baixar! Ai, foi muito comovente! Concordamos com a independência - mas aquela bandeira a baixar! São coisas muito fortes!
- A 11 de Novembro! - informei eu, para o caso de eles não se lembrarem. Estava surpreendida por terem dado na televisão a independência de Angola. Não imaginava que fosse o género de coisa que aparecesse na televisão. Eu não entendia nada de televisão. Tive o privilégio de uma infância sem televisão. Em Angola não havia televisão. Em Portugal havia e os miúdos andavam sempre a falar do Vicky, da Heidi, do Marco. Eu detestava tais animações.
- Foi muito comovente! - continuou a tia Irisalva. - Digam lá o que disserem, foi muito comovente! Ver a bandeira de Portugal a descer e a de Angola a subir!
A bandeira de Angola foi uma desilusão. Aquelas complicações amarelas no centro não se comparavam à eficácia simples da estrela da bandeira do MPLA. Adorava aquela bandeira. Estava entre as melhores, quase tão boa como a da Arábia Saudita, a do Nepal e a do Butão. A bandeira do MPLA e o grito da UNITA: Kuatchá África! Kuatchá Angola! Kuatchá UNITA!

Mas não me importava muito. Nem não ter visto a cerimónia de independência na televisão me provocou mais do que uma vaga pena. Aquele novo país, com uma bandeira nova e um hino novo já não me dizia muito respeito. E, no entanto, só abandonara Angola havia pouco mais de um mês. Já só contava o Otelo, o Fabião, o Diniz de Almeida, o Vítor Alves. PCP. PS. AD. UDP. Estes nomes e siglas é que ocupavam agora as nossas vozes e o nosso pensamento. Um barbudo de olhos enormes aparece na televisão a arengar e depois atrapalha-se, olha para os lados, diz coisas como o que é que se passa, mas o que é que se passa. 25 de Novembro. Era o Duran Clemente. Avionetas militares cruzam os céus de Lisboa. General Costa Gomes. Eanes. Pinheiro de Azevedo.

Vagueava pelas ruas de Lisboa, desde a minha escola no Bairro Azul. Com os meus colegas "retornados", temporariamente instalados de graça no Hotel Ritz, passava pelo Tribunal, íamos até Campolide, Amoreiras, Artilharia Um, Travessa da Légua da Póvoa. Comprávamos castanhas no inverno. E pevides e tremoços a velhinhas pobres de negro que os vendiam em bancazinhas minúsculas por toda a Lisboa. Com os colegas de Lisboa, o Gigante, o Gadelhas, o Barata, o João Luís, o Sputnik Chuáck, escorregava por um barranco abaixo em perigo de derrocada, descíamos até à Praça de Espanha e íamos visitar o Museu Gulbenkian. Avenida Elias Garcia, Avenida Cinco de Outubro. Pendurávamo-nos nos eléctricos, atirávamo-nos deles em andamento e subíamos a correr as escadas rolantes do Metro que desciam. Uma vida lisboeta. Com o Sputnik Chuáck ia até à Avenida da Liberdade, à Feira do Livro, a comícios e manifestações. Schweppes, Sumol, gelados Olá. O Crispy, o Super-Maxi, o Epá. Chocolate Toffee Crisp. Água de Carvalhelhos. Muito vadeei eu por Lisboa nesse primeiro ano. O meu pai estava em Angola, a minha irmã andava noutra escola, a minha mãe nem sei onde andava. Diz que andava nas bichas do IARN, a tratar de papelada, a recomeçar a vida num novo país, a comer ao almoço um cacho de uvas.




Manifestação

Morávamos em casa alheia. Mandaram-nos embora ao fim de um ano. Enfiámo-nos então na casa de aldeia, a tal casa de aldeia que me tinham mostrado à chegada. Por fim, arranjou-se um apartamento em Alvalade, já eu tinha treze anos. Os meus pais, com quase cinco décadas de vida, recomeçaram do zero. À procura de casa. À procura de emprego. A nossa casa era um acampamento cigano. Bem longe da vivenda da Laje. Colchões no chão. O guarda-fatos, uma corda atada ao longo de uma parede. Pilhas de malas faziam de móveis. Eu e a minha irmã escorregávamos pelo corrimão das escadas abaixo ou equilibrávamo-nos sobre o parapeito da varanda. Os rostos das vizinhas assomavam às janelas. Nunca tinham visto nada assim. Crianças retornadas! Macacos de África! Hard times.

Chacóia


Brincava eu na vivenda da Laje, na garagem penumbrosa, quando senti alguém aproximar-se. Rodei a cabeça na direcção da porta. Vi o vulto negro de um gafanhoto gigante, todo braços e pernas recortado em contraluz. Fui tomada por uma vaga de terror. No segundo seguinte, reconheci a Chacóia, mas já era tarde demais. O pavor deu-me ousadia e atirei-me a ela aos socos e pontapés, gritando-lhe vai-te embora! Tu não podes entrar aqui! Devia ser muito pequena, porque toda a minha violência não surtiu efeito algum. A Chacóia olhava-me a rir, perguntava pela minha avó. Por fim, virou-se, saíu da garagem e deixou-me na porta a vê-la afastar-se de costas.
Eu não gostava daquela mulher.

Era incapaz de entender a razão do clima amistoso que reinava em volta da Chacóia. Parecia um louva-a-Deus, muito alta e magra, com dentes protuberantes. Tinha no riso a malícia do vício, um riso que diz: "Pedem-me para deixar o vício mas desconhecem as alturas sublimes a que ele conduz!". A sobranceria na servidão.
Aparecia enrolada nos seus panos nativos. A minha avó, a minha mãe davam-lhe vestidos, mas a Chacóia não os queria. Porque havia ela de andar ataviada com as roupas dos brancos? Porque pensavam os brancos que as suas roupas eram melhores? Provavelmente preferia os seus panos. Mas sobretudo vendia os vestidos para ter dinheiro para a pinga. A pinga era a sua perdição. Era uma grande bêbeda. Fazia tudo por um copinho.
A Chacóia aparecia enrolada nos seus panos, por vezes com um bebé minúsculo sumido nos ramos nus e longos dos seus braços. Com a indiferença e ausência de esforço com que se transportam panos da louça. Criaturas subnutridas, engelhadas, às portas da morte, que seriam enterradas pouco depois. Era demasiado bêbeda para conseguir criar os filhos que breve desapareciam da face da Terra. Mas, naquele tempo, ninguém tomava isso como assassínio. Quando a minha avó dava um pedaço de pão à bebé, ela arrancava-o e engolia-o ela. "Criança não quer! Criança não gosta! Criança já comeu!"
Algo nela me perturbava, talvez os filhos para a morte, o seu riso ébrio, talvez a vida enigmática, as suas perdas de consciência nas valas à beira dos caminhos, as roupas rasgadas, as tareias que levava.


Duas décadas volvidas, perguntei bruscamente:
- A Chacóia era uma puta, não era?
Com a certeza absoluta da resposta, como se sempre a tivesse conhecido. A minha mãe olhou-me com espanto. Não tanto pela pergunta mas pela palavra prestes a sair-lhe da boca:
- Era! - e, por o enunciar, foi como se o tivesse descoberto naquele preciso momento. A sua amiga de infância, a nossa mais assídua visita gentia, a estimada Chacóia, só naquele momento foi vista de um ângulo até aí obnubilado. Porque não era aquilo que importava na Chacóia. Nunca o fora.
A Chacóia era uma puta bêbeda, mas a amizade que lhe tinham na minha família impedira que vez alguma tivesse ficado reduzida à sua "profissão". Nunca ninguém a descrevera assim. Só eu, durante mais de duas dezenas de anos, guardara essa suspeita nebulosamente, recondidamente, sem nunca até então chegar ao estado da formulação verbal. O eco de certos conselhos da minha avó em conversa com ela - "Fica só com um! Só com um, estás a ouvir? Arranja um homem bom!" -, a malícia no riso da Chacóia em resposta, tinham-se inscrito em mim, eram um desses milhares de trilhos que nos compõem. Nunca o seguira até àquele súbito dia e descobri que desembocava numa constatação: a de que a Chacóia era uma puta. Foi o que eu vi ao fundo do trilho, no manuscrito que só então desenrolei.
A partir desse dia, a frase "era uma puta" pôde ser dita, mas pôde ser dita por um acto de profanação. Profanação de uma amizade que vinha de muito longe.


De Chacóia conhecia-se os pais: foi a única filha serôdia de Sekulo (velho) e de Luzia, empregados do meu bisavô. Em criança foi trabalhar como criada para a Quinta da Liberdade. Como era da idade dos meus tios tornou-se mais uma companheira de brincadeiras. Adoptou-os como seus irmãos brancos. Chacóia era meiga e alegre, muito alegre, nada a conseguia aborrecer. Andava sempre a rir. Brincalhona e divertida, ralhete algum conseguia abalar a sua boa índole. Toda a gente gostava dela.
As suas irmãs brancas resolveram ensiná-la a ler. Deram-lhe um nome bem português: Maria Amélia. Mas ler não era com ela. Maria Amélia nunca aprenderia a ler. Ficou para sempre Chacóia.
Quando Chacóia era adolescente, o meu avô ficou gravemente doente durante três anos antes de morrer, de uma doença estranha e sem nome. Quando uma crise o atacava, a pequena Chacóia largava a correr para ir chamar o médico que morava longe. Largava a correr com as suas longas pernas debaixo da maior chuvada, chuvada africana, dez mil cascatas caindo do céu. Outras vezes, Chacóia galgava a inteira noite escura, sem parar um momento, descalça pelo mato. Se já gostava dela, a minha avó passou ainda a gostar mais.
Aos quinze anos da vida de Chacóia, deu-se um acontecimento que iria imprimir um rumo decisivo na sua vida. Durante três dias desapareceu com uma amiga ligeiramente mais velha. Quando regressou, tinha descoberto os homens. Nunca mais os largaria. As desaparições tornaram-se frequentes.


Chacóia em criança: na ponta direita, atrás da árvore (é óbvio que não foi convidada para a fotografia). Em primeiro plano, a minha mãe, uma amiga e uma irmã. 1939.


Quando a minha mãe regressou a Angola, depois de se formar e viver em Portugal, quis a Chacóia como criada. Quis também, diz ela, idealista sem cura, moldá-la num ser pensante. Chacóia: um ser pensante!
Para moldá-la num ser pensante trocou todas as regras. Nunca ninguém dava salário à Chacóia, conhecendo o seu fim mais do que certo: transformação miraculosa em vinho. Mas a minha mãe insistia em fazer dela uma criatura responsável. Pagava-lhe no fim do mês. Enquanto não bebia era uma criada de excepção. Uma criada que garantia que não tornaria a beber. A minha mãe acreditava, claro. Mas era demais para a Chacóia. Mal se apanhava com a féria, ala com ela, desaparecia durante dias com todos os vestidos que a minha mãe lhe dava. Que a Chacóia andava linda, calçando sapatos e tudo! Ataviada nas belas roupas que a tia Nereide Dione e a tia Amarílis Dulce carinhosamente haviam confeccionado para a irmã.
A tia Amarílis erguia aos céus olhos escandalizados:
- Oh! Quando eu vi uma sombra negra com aquela blusa encarnada!... Aquela blusa encarnada! Tu foste dar aquela blusa!
Por esse tempo tinha Chacóia um homem, um homem apaixonado. Todos os dias vinha buscá-la, o homem, ficava à espera no portão do meu quintal. Chacóia não lhe ligava, não queria ir com ele. Fazia-o esperar. Fazia-o esperar muito tempo, para que ele desistisse e fosse embora. Ele, porém, esperava por ela, esperava sempre. Chacóia tão linda, Chacóia com seus vestidos, os vestidos de Chacóia punham-lhe a cabeça à roda:
- Chacóia - boniiita!
Chacóia troçava dele, que ele gostava dela mas ela não. Tinha fraquinho por mulume (homem) branco. Era vista a rondar o quartel, cheio de filhos da Metrópole enviados para a Guerra Colonial. Tropas, camionistas, Chacóia preferia mulume branco.
Quando fomos embora e o meu pai ficou, tomou-a outra vez como criada. "A melhor criada do mundo!", exclamava ele. Toda a gente achava graça a Chacóia.
Toda a gente menos eu.

Quando nos fomos embora, ela veio despedir-se. Chorou, chorou muito, tão triste, tão triste, Chacóia atirou-se ao chão:
- Nunca mais vou ver! Nunca mais vou ver! As minha irmãs branca!
Sabia que ficava só. Eram toda a sua família. Mas essa família pertencia, de algum modo, um modo perverso e longínquo, inscrito na cor da pele, a outro continente, embora tivessem todos nascido no velho solo africano e alimentado-se dele para crescer.
Apenas a tia Selda Marinha regressaria ao Lubango. Tornou-se no amparo de Chacóia, já muito doente, com hemoptises, mas sempre bêbeda, sempre nas valas. A minha mãe escrevia-lhe, a ela, que nunca aprendera a ler e as cartas eram a sua maior alegria. Teve uma morte terrível. Só, à beira da moribunda, a sua irmã branca, a tia Selda Marinha.


A última fotografia de Chacóia, já doente no Hospital. Pedia que "as suas meninas e os seus meninos" - referindo-se aos meus tios e tias em Portugal - lhe enviassem "um casaco cor de vinho".


Kissongo

Kissongo também chorara:
- Ficamo sozinho! Os branco estão nos abandonar!
Kissongo tão triste.
Da idade das mais velhas, Kissongo fora amiga de juventude da tia Liberdade Lusitana. Kissongo era então muito elegante, possuía linda voz, voz de fada negra, muito dada a pedinchar:
- Liberdade, tenho fome! Dá-me pão! Então não puseste nada no pão? Põe conduto no pão! Liberdade, dá-me muxinha p'ra cutunga (linha para coser)! Olha o meu pano, está roto! Dá-me muxinha p'ra cutunga!


Kissongo casou com Lupito.
- Eu não gosto do Lupito, de noite não presta!
- Mas ele é tão bom! - contrapunha a minha avó, contrapunha toda a gente.
- Sim, é bom. De dia é bom, mas de noite não presta!
Lupito, esse, amava Kissongo. Mesmo ela não o querendo, não queria ele outra mulher.
O casamento durou. Sempre os conheci já muito velhinhos e curvados, Kissongo sem sombra da beleza de outrora. Visitavam-nos por vezes, devagarinho e sorrindo, vindos das suas cubatas, magrinhos, só com o seu tchinkuáni dependurado à cintura. Kissongo mais rebiteza, o Lupito muito doce. Para mim eram só dois velhinhos gentios, de que muito gostava. Fazíamos uma festa ao vê-los chegar, mas percebia que havia todo um passado partilhado entre a minha avó e eles, entre a minha mãe e eles. Uma amizade velha e fácil, da qual eu não fizera parte, que pertencia a um tempo outro da cidade do Lubango.


Lupito morava sozinho numa cubata da Quinta da Liberdade. Kissongo vivia na serra. De vez em quando, visitava o marido, fazia-lhe o favor. Lupito vivia sozinho, não queria outra mulher. Um dia entrei na sua cubata. Um pequenino espaço circular, sombrio, um leve cheiro a katinga, com umas cabaças pelo chão térreo que não faziam senão acentuar a nudez geral. Um pequenino espaço circular e todo um mundo de diferença.



Muílas e sua cubata. Anos 60.


Kaindangongo


Kaindangongo tinha três, depois quatro, cinco anos. Era sobrinha de Kissongo. Também vivia na serra. Quando ia à cidade trocar coisas, Kissongo deixava Kaindangongo na Quinta da Liberdade. Tão linda, Kaindangongo. Com trancinhas. De tchinkuáni e colares de missangas. Tão esperta, Kaindangongo. Kissongo dizia era mais esperta do que podiam imaginar. Que Kaindangongo só falava olunyaneka. Descia a serra sempre a falar com as árvores, a falar olunyaneka. Quando a deixavam na Quinta da Liberdade, os miúdos pegavam nela, davam-lhe banho, vestiam-na à moda das crianças brancas. Tão linda, Kaindangongo. Quando eu nasci, Kaindangongo já não existia sobre a Terra. Morreu muito nova. Kaindangongo para sempre criança. Durante mais de seis décadas sempre criança na memória do punhado de brancos que brincou com ela nos anos trinta do século passado. Kaindangongo tão linda a falar com as árvores.


O Chuva


O tio Juvenal tinha um moleque chamado Chuva. E tinha uma bicicleta sem licença. Quando estava na tropa, o tio Juvenal não comia ração como os recrutas negros. Era-lhe trazida diariamente uma merenda pelo Chuva. Juvenal não o sabia, mas o Chuva costumava ir ao quartel levar-lhe a merenda todo impante montado na bicicleta do patrão. Certo dia, a Polícia apanhou-o sem a licença. E apreendeu-lhe a bicicleta. Por mais que o Chuva protestasse que a bicicleta não lhe pertencia, a Polícia não se demoveu. Bicicleta sem licença tinha de ser apreendida. Quando Juvenal teve folga e voltou à fazenda, descobriu que a bicicleta desaparecera. O Chuva meteu os pés pelas mãos. Juvenal vociferou: "Não quero saber de desculpas! Quero a minha bicicleta! Arranjaste o sarilho, agora desenvencilha-te! Paga a bicicleta! Só sei que a quero de volta!"
Chuva desesperou. Tanto que lhe veio uma dessas ideias ditas luminosas, que disparam faíscas no meio da escuridão mais profunda. Dirigiu-se ao posto da Polícia e ordenou:
- O Sô Comandante do quartel manda buscar a sua "biscreta"!
Escutando tal, e para alívio do bom do Chuva, os polícias afligiram-se:
- Eh, pá! Por que é que não disseste logo que o teu patrão era o Comandante do quartel?
Em suma, devolveram-lhe a bicicleta.

Certo dia, o Chuva comprou um par de sapatos ténis brancos, sapatos ténis branquinhos. Passaram a ser toda a sua vaidade.
- Meus sapato branquinho! - exclamava amiúde, com deleite, olhando o alvo par de ténis.
Mal se sujaram um pouco, porém, o Chuva precipitou-se a dar-lhes um valente banho. Previsível resultado- não para o Chuva -, os sapatos encolheram. Deixaram de todo de lhe servir. O tio Juvenal surpreendeu-o precisamente no momento em que fazia uma força danada para os enfiar nos pés.
- Ai, os meu sapato branquinho! - gemia o Chuva.
O tio Juvenal perguntou-lhe:
- Então não vês que não te servem mesmo? O melhor que tens a fazer é cortar a parte da frente, de modo a deixar os dedos de fora! Não tens outro remédio!
- Cortar meus sapato branquinho? - protestou o Chuva, quase em pranto - Não quer! Aiuê, meus sapato branquinho!
Juvenal atirou então, com deleite antecipado:
- A menos que os teus pés encolham!
Chuva ficou então como que petreficado:
- Êh! É, patrão? Meus pé pode encolher mêmo?
Tio Juvenal nada respondeu e afastou-se.
À noite, o Chuva desencantou uma liga e, com toda a determinação da esperança, enfaixou os pés. Bem apertadinhos para poderem caber nos sapatos ténis. Nessa noite, sofrendo de dores terríveis, não conseguiu dormir. Mas tamanha causa merecia tal sacrifício.
No dia seguinte, os sapatos ténis, branquinhos, elegantes, pareciam irremediavelmente mais longe dos pobres pés inchadíssimos daquela alma devassada.



Tio Lereno Lusitano, tio Juvenal Lusitano e tio Tolstoi Lusitano. Lubango, anos 50.


O Pintaças

No tempo em que Kaindangongo falava com as árvores, contam os meus tios que lá no Lubango havia o Pintaças. O Pintaças gostava de se embebedar com os seus compinchas no Carnaval - e fora dele - e causava distúrbios na ordem pública. Num desses carnavais, um polícia abordou-o:
- Queira acompanhar-me!
E Pintaças, que dedilhava uma guitarra, perguntou:
- Em que tom?


Um dia, Pintaças foi ao matadouro e trouxe de lá uma braçada de chifres. Com o seu peculiar carregamento, começou a andar pela cidade de casa em casa, gritando:
- Quem quer chifres?
Ninguém respondia. Ninguém queria chifres. E ele então volvia com voz ainda mais sonora:
- Olha, estes já têm!
A Polícia acabou por o prender. Naqueles tempos, a Polícia tinha pouco que fazer. No dia seguinte, digerida a bebedeira, ao sair da cela, os chifres foram deixados para trás. Um polícia de guarda disse-lhe:
- Leve os chifres.
Resposta do Pintaças:
- Olhe, eu não os quero. Fique o senhor polícia com eles!


Na Estação Zootécnica da Humpata, Pintaças pintou um mural com uma cena da selva, completa com um enorme leão preso a uma árvore por uma corrente de ferro. O director da Estação indignou-se:
- Então você faz-me o leão preso com uma corrente? Que jeito tem isso?
No dia seguinte, do mural desaparecera o leão.
O director voltou à carga:
- Então que é do leão, homem?
Resposta do Pintaças:
- Você não queria a corrente, não era? Então, de que é que estava à espera? O leão fugiu!
Isto que se passou no Planalto da Huíla, no interior de África, é em tudo semelhante ao que se passa nas histórias dos pintores chineses que penetravam nas suas montanhas de tinta e cujos dragões largavam a voar do papel onde tinham sido pincelados.

A seguir, histórias de mucubais contadas numa aldeia portuguesa, já depois da 'ponte áerea', pelo meu tio Tolstoi que foi chefe de posto por toda a Angola, histórias essas que eu apontei num bloco no dia 2 de Fevereiro de 1976:

No Otchinjau houve um dia um tremor de terra. Na manhã seguinte, o meu tio perguntou a um velho mucubal de barba branca:
- Então o que foi aquilo ontem?
E responde o mucubal:
- Foi Deus que abanou o mundo para ver a força que ainda tem!

A dada altura, chegou uma ordem para obrigar os mucubais a vestirem-se,a eles que andam só com o seu tchinkuani. O meu tio teve de lhes transmitir a ordem. Os mucubais, porém, começaram a protestar.
- Mas foi uma ordem e vocês têm de a cumprir! - contrapunha o meu tio, pacientemente.
Então, um dos mucubais vira-se para o tradutor e adverte:
- Diz-lhe lá que está bem, que nos vamos vestir, mas que o nosso coração continua nu!

A fogueira crepitava. Em volta, conversava um grande grupo de mucubais. Um velho acabara de ter um fiilho naquele dia. Um rapaz zomba dele:
- Mas aquele filho é teu?! Não pode! Estás a mentir!
Então vira-se o velho e responde-lhe:
- Pois fica sabendo que de dia sou velho, mas de noite sou novo!

O meu tio teve um criado que era muito religioso. Certo dia, apareceu uma mulher que ficou com ele uma semana. Depois chegou outra mulher que também ficou uma semana. E depois outra e outra. Até que o meu tio o avisou:
- Então tu que és tão religioso tens assim tantas mulheres? Olha que Deus não gosta!
E responde-lhe o criado:
- Ah, não, chô Tolstoi! Deus não entra aqui!

Fotografias: de desconhecidos, da net e de vários membros da minha família.

2002