É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

Sunday, October 29, 2006

FICÇÃO

CHINOISERIES


Narração e ilustração de pequenos factos-ficções alusivos às relações luso-chinesas


Retrato do chinês Lili, cantador de fado - Talvez vocês conheçam, para os lados de Belém, aquele painel de azulejos que reproduz a figura de um chinês. O homem reproduzido existiu realmente nas ruas da Lisboa das primeiras décadas do século XX, e chamava-se Li. Os lisboetas de então, com a sua habitual verve, chamavam-no o Lili. Tratava-se de um chinês vendedor de rua, natural da província de Zhejiang. Como é sabido, na Lisboa antiga, a Lisboa dos pregões, dos galegos aguadeiros, das varinas e saloios, das mulheres da fava-rica e dos pretos caiadores, havia ainda um outro tipo de vendedor - os chineses das gravatas. O Lili pertencia a esse grupo, pouco numeroso, mas sempre alvo de muita curiosidade por parte dos transeuntes, que pasmavam para eles, desabituados ainda de extravagâncias. O Lili destacava-se, pois jamais abandonou os seus trajes tipicamente chineses, que trouxera de Zhejiang. Era uma galhofa por essas ruelas abaixo sempre que ele surgia com as suas cabaias coloridas, com a caixa de madeira a tiracolo, cheia de gravatas para mercar. Excepto quanto à sua intransigente recusa em envergar vestes ocidentais o Lili era então, e de longe, o chinês mais bem adaptado à vida portuguesa. Por isso, e porque tinha um temperamento alegre e suportava a troça com jovialidade, com resposta pronta para tudo, foi ganhando o respeito e a estima do povo de Lisboa. Pela manhã, podia topar-se com ele a sorver o seu café de lepes e, em a noite caindo, não dispensava o pratinho de iscas com elas, repugnante para qualquer outro chinês. Amantizado com a dona de um café de camareiras, diz-se que frequentava as meias portas, onde agarrava na banza e soltava o fado com espírito, sempre vestido à chinesa e trocando os erres pelos eles, o que lhe valeu a alcunha de "faia amarelo".
Quando se encomendou o referido painel de azulejos, o artista julgou de gosto exótico, à moda da época, pintar um mandarim. Lembrou-se logo do Lili para fazer de modelo. O chinês aceitou posar com as suas melhores vestes, em troca de umas moedas.
O Lili ainda galgaria as calçadas de Lisboa com as suas gravatas durante mais alguns anos mas, após dura rixa numa viela da Mouraria, acabou por fugir para Moçambique, onde terá eventualmente findado os seus dias. Foi visto pela última vez, já bastante velho, a dançar o merengue em grupo numa rua esconsa da então Lourenço Marques.
O chinês Lili, tal como a famosa preta Fernanda - que serviu de modelo para a figura feminina em bronze que simboliza a África no pedestal da estátua ao Marquês de Sá da Bandeira - é uma das duas personagens populares da cidade de Lisboa reproduzidas numa obra artística.




Lao Tse e o "Verdadeiro Clássico do Inominável" - Na cave do edifício da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, existe uma biblioteca sinológica da maior importância, que permanece todavia desconhecida do público devido à inexistência no país de especialistas na área. A maioria dos livros foi doada pela Embaixada da República Popular da China e pelo Instituto Cultural de Macau. Lá se podem consultar, entre outros tesouros, as obras completas de Ouyang Xiu, a poesia de Li Bai, Du Fu e Bai Ju Yi, os principais romancistas contemporâneos e o Sutra do Diamante.
Nessa biblioteca encontra-se também o único manuscrito existente em todo o mundo da obra atribuída a Lao Tse, Wu Ming Zheng Jing. O Wu Ming Zheng Jing ("Verdadeiro Clássico do Inominável") é a sua única obra conhecida, para além do famoso Dao De Jing (Tao Te King). Alguns sinólogos estrangeiros são de opinião de que o recentemente descoberto Wu Ming Zheng Jing (em geral, abreviado para Wu Jing) é ainda superior ao Dao De Jing.
O manuscrito foi descoberto no túmulo do sábio, no templo de Lou Guan Tai, província de Shanxi. O túmulo foi violado em 1994, durante um ritual secreto praticado por uma seita esotérica de alquimistas taoistas. A seita defende que Lao Tse, tal como sua mãe, cujo túmulo se encontra ao lado, continua vivo, uma vez que se dedicara à prática de lian dan, isto é, ao fabrico de pílulas da Imortalidade. De facto, mais nada, a não ser o Wu Jing, foi encontrado no túmulo. A obra, ainda mais breve e densa do que o Dao De Jing e caligrafada sobre tiras de bambu, foi-se desfazendo à medida que um dos iniciados taoistas a copiava rapidamente para um caderno.
No cap. XX pode ler-se: "Wo du wu si di ye/ wu ming zhi bao/ da dao zhi xuan." ("Apenas em mim nada é mortal/ tesouro do Inominável/ maravilha do Grande Dao!”). Segundo os alquimistas, trata-se, com efeito, de uma obra composta por Lao Tse já depois de se ter tornado um Imortal.
Três meses após a sua inesperada descoberta, o caderno foi vendido ao governo chinês para divulgação, decepado embora num terço das suas páginas. Segundo consta, nessas páginas, Lao Tse descreveria minuciosamente a receita infalível para adquirir a Longevidade e a Imortalidade, em cuja demanda se aplicaram gerações e gerações de seguidores do taoísmo. O grupo de alquimistas mantém absoluto segredo sobre o seu conteúdo e a pressão do governo para resgatar as folhas tem sido vã. A obra foi publicada incompleta pela Editora Xinhua em 1995. Quanto ao manuscrito truncado, foi roubado em 1998 do depósito da Biblioteca de Pequim, onde se encontrava, para ressurgir posteriormente num leilão da Sotheby's. A Fundação "A Leste" adquiriu-o então a peso de ouro após acérrima disputa com o Instituto Ricci. Como foi parar à cave da Biblioteca da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, ninguém o sabe explicar. A Fundação "A Leste" está neste momento em negociações com a dita Reitoria no sentido de reaver o precioso manuscrito.




O incêndio do pavilhão - A cidade de Macau esteve representada na Exposição do Mundo Português em Belém, quando decorria o ano de 1940. Construiu-se a Rua de Macau, cujo maior atractivo era um colossal paquiderme de pedra, de tromba erguida e carregando no dorso um pavilhão de dois andares em estilo chinês. O portal que dava acesso a essa rua pode ainda hoje ser visitado entre a folhagem do ex-Jardim Colonial. No entanto, o elefante com o seu pavilhão desapareceu misteriosamente. O processo relativo ao desaparecimento foi abafado pelo regime de Salazar. Encontra-se na Torre do Tombo e, ainda hoje, não pode ser consultado pelo público em geral.
Segundo consta, a Seita do Dragão Azul, uma seita nacionalista chinesa, mantinha entre os estudantes macaenses residentes em Portugal uma pequena ramificação. Formada ainda sob influência, pelo menos indirecta, do Dr. Sun Yat-sen, enquanto este viveu Macau, nos primeiros anos do século, a seita encontrava-se então activamente empenhada na luta contra o invasor japonês que ocupava toda a China do leste e, por extrapolação, contra qualquer poder colonizador. Os estudantes macaenses em Portugal receberam ordens para queimar toda a área colonial da Exposição, na noite seguinte à da sua abertura oficial. Algo terá, porém, corrido mal e Salazar foi informado a tempo. A vigilância apertou-se em torno da área colonial e os asiáticos, goeses incluídos, passaram a ser discretamente revistados e identificados antes de nela poderem penetrar. Os planos da Seita do Dragão Azul saíram gorados pela máquina salazarista e os portugueses puderam regozijar-se com a vastidão do seu império. No entanto, na última noite da Exposição, um estudante macaense, de nome Xavier Cheong, conseguiu deitar fogo ao símbolo de Macau. No flanco do elefante de pedra pincelou insultos a Portugal em português e chinês. Foi posteriormente capturado pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE.
Na manhã seguinte à do fecho da Exposição, do pavilhão em madeira restavam apenas cinzas. Salazar ordenou que fossem rapidamente removidas e que lançassem ao Tejo o elefante de pedra, onde ainda hoje provavelmente jaz, sob as mesmas águas que as caravelas sulcaram outrora em demanda do Oriente.




A pedra das Mutações - Como é commumente sabido, o Jardim da Fundação Gulbenkian contém, na sua arquitectura, elementos chineses e japoneses. Um dos mais curiosos é a pedra colocada sobre o relvado que desce para o lago dos nenúfares. A pedra foi transportada para Portugal nos princípios do séc. XVII por um fidalgo aventureiro nascido em Lisboa, Nuno Gouveia de Faria. Este, julgando-a altamente decorativa, tê-la-ia usurpado de um jardim que existia então em Liampó (Ningbo), como o comprovam fontes inglesas coevas (veja-se a obra de Sir Colin Ormsby-Gore, The Portuguese Trade and Atrocities at the Port of Macao and Southern China, London, 1602, New Delhi, 1971, reprint.). De facto, a pedra foi outrora profusamente gravada e pintada com os 60 hexagramas do Clássico das Mutações (Yi Jing).
A pedra adornou o parque da mansão da família do fidalgo Nuno Gouveia de Faria até à sua demolição, nos finais do séc. XIX. Durante a construção do jardim da Gulbenkian, nos anos 60, o sinólogo espanhol Pe. Lorenzo Benito Muralles, SJ, que veraneava então por cá, descobriu-a por acaso num descampado, tendo sido ele próprio a sugerir ao arquitecto Ruy Jervis D’Athouguia nova morada para a pedra. Muralles conhecera os pais do arquitecto em Macau, a cidade onde D’Athouguia nascera. Este falou do assunto ao seu colega Ribeiro Telles, encarregado do plano dos jardins do museu. Ribeiro Telles aprovou a ideia.
Muralles julgava mesmo distinguir ainda, no canto direito superior da pedra, a gravação - naturalmente muito desgastada pelo tempo - dos traços contínuos e descontínuos do primeiro dos hexagramas, o hexagrama Pi - em cima, o Céu, por baixo, a Terra.




O Pátio das Flores Rubras - Pouca gente terá conhecimento da história assaz pitoresca que está por detrás da construção da casa típica de Macau do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Durante a concepção desse projecto do Antigo Regime, ficou encarregado do plano da casa de Macau um arquitecto que nunca estivera no Oriente. Para levar a cabo a tarefa, e na impossibilidade de até lá se deslocar, consultou afanosamente arquivos fotográficos respeitantes àquele longínquo território português. A sua escolha, no entanto, não foi feliz. Tomou como inspiração para reproduzir em pedra certa fotografia que mostrava um edifício de estilo acentuadamente chinês. O pobre arquitecto ignorava que se tratava de um famoso lupanar da zona mais libertina da Cidade do Santo Nome de Deus: o Pátio das Flores Rubras (Hong Hua Yuan). Este lupanar, que deliciou gerações de chineses e portugueses, foi incendiado em 1947, como consequência de uma intrincada história de vingança entre duas seitas rivais. Dos seus escombros resta apenas, na rua onde se situara, a pedra fronteira gravada com três caracteres chineses sobre a tradução portuguesa, ainda em grafia antiga: "Páteo das Flores Rubras". No entanto, por ironias do destino, e para que fossem iniciadas de bem cedo as crianças portuguesas nos inefáveis mistérios do Oriente, a reprodução da sua fachada iria sobreviver, fiel, muito longe dali, em Portugal, no Portugal dos Pequenitos.



Retrato da Senhora Jacinta Wok - A Senhora Jacinta Wok (1884~1945), portuguesa nascida no Porto, foi a protagonista de um dos maiores escândalos que alguma vez abalaram Macau. Deveu-se o escândalo ao facto de ela ter vivido trinta e nove anos em regime de concubinato com um rico negociante chinês, Wok Mei Lo, estabelecido no território desde os finais do séc. XIX. Wok Mei Lo tomou-a como sexta concubina quando a dona Jacinta, cujo apelido era ainda Santos da Cruz, servia como ama em casa da família Mendes Couceiro.
Juram versões que a ama terá trocado essa família pela casa Wok por se ter tomado de amores pelo negociante; outras explicam-no por um desejo irreprimível de ascensão social ou desilusões com a comunidade portuguesa. O que é certo é que se submeteu às exigências do negociante a ponto de chegar a enfaixar os pés. Sofreu, por isso, dores atrozes durante todo o resto da vida, uma vez que tal operação, em princípio, se destinaria a meninas com cerca de cinco anos de idade. Além disso, teve de suportar as torturas e vexames que lhe infligiam as outras concubinas do negociante, não só devido à sua insignificante posição na casa - concubina número seis - como devido ao facto de ser estrangeira, pior, estrangeira traidora à sua própria comunidade. Rejeitada por ambas as raças, também no negociante Jacinta não encontrou qualquer apoio, pois Wok Mei Lo nunca a conseguiu apreciar, nem mesmo com os pés enfaixados. Segundo consta, servia-se dela nos seus negócios, cedendo-a a outros chineses ricos e curiosos, e exibia-a perante os portugueses como um troféu humilhante.




Retrato de Wu Sheng Ren em Trás-os-Montes - Na Aldeia da Mó, em Trás-os-Montes, habita, desde 1999, um poeta chinês cujo nome é Wu Sheng Ren. Este poeta, natural da província de Henan e cuja obra bem merecia uma urgente e cuidada edição, habitou muitos anos em Macau, para onde fugiu durante a Revolução Cultural, antes de se estabelecer em Portugal.
Na boa tradição dos poetas chineses, Wu Sheng Ren, depois de se ter dedicado à política e a assuntos mundanos, decidiu retirar-se para longe em busca de contacto com a natureza. Cansado das intrigas de Macau e não desejando então regressar à China, veio para Portugal e escolheu a aldeiazita transmontana para se consagrar ao seu novo estilo de vida. No entanto, como a escola mais próxima da aldeia se situa a catorze quilómetros de distância, o poeta, insensivelmente, foi fazendo as vezes de professor das cinco crianças da aldeia.
Pela manhã, Wu Sheng Ren dá-lhes aulas em chinês, na sua própria casinha de pedra, despojada de haveres. As crianças portuguesas desenham os caracteres, decoram os ensinamentos de Confúcio e recitam poetas da dinastia Tang. Wu Sheng Ren explica que dá as aulas num estilo muito semelhante ao dos primeiros professores que teve, na sua aldeia natal da província de Henan. As cinco crianças, que o estimam e veneram, acompanham-no ainda nos seus longos passeios pelas montanhas e ajudam-no a tratar de uma pequena horta e dos seus três porquinhos. Os pais, camponeses pobres, afirmam preferir que os filhos estudem chinês a que permaneçam analfabetos como eles próprios e mostram-se satisfeitos com este inesperado professor. Aliás, já muitos destes pais conseguem exprimir-se num chinês fluente, embora não o saibam ler nem escrever.



Tartaruga Wenjia - As tartarugas wenjia (à letra, "carapaça escrita") são uma espécie que se encontra apenas em território chinês. Os exemplares desta espécie caracterizam-se por uma particularidade notável: na sua carapaça, apresentam gravados caracteres chineses, alguns deles muito antigos.
A existência destas tartarugas só pode ser explicada à luz da teoria da selecção artificial, num processo em tudo semelhante ao que sucedeu com os caranguejos Heike de Danno-ura, no mar do Japão, que exibem nas suas couraças rostos de samurai. Assim, os cientistas supõem que, originalmente, as tartarugas wenjia seriam semelhantes a todas as outras espécies comuns na China. No entanto, como se sabe, há vários milhares de anos que os chineses praticam a adivinhação com carapaças de tartaruga e também há vários milhares que vêm apreciando a sua carne. Assim, os adivinhos teriam começado por poupar à panela os antepassados das tartarugas wenjia cujas carapaças apresentavam sulcos que se assemelhavam a caracteres chineses. Os chineses acreditam que a origem dos seus caracteres é sagrada. Ao evitar-lhes a morte, e provavelmente sacralizando-as, as tartarugas encetaram um processo evolutivo. Apercebendo-se da vantagem de não apresentar uma carapaça vulgar - a sua morte ficava adiada e havia tempo para procriar - as tartarugas investiram nos caracteres das carapaças, marcas que são hereditárias. Com o fluir das gerações tanto de adivinhos como de tartarugas, aqueles animais cujas carapaças apresentavam caracteres sobreviveram. Hoje em dia, as tartarugas wenjia formam uma comunidade bastante numerosa. Grande coleccionador de carapaças wenjia foi o nosso poeta Camilo Pessanha. Exibiram-se exemplares notáveis no Museu Machado de Castro, em Coimbra. Por ocasião da passagem da administração de Macau para a Rep. Pop. da China, o Museu organizou uma exposição temporária da colecção inteira, infelizmente pouco visitada pelo público. Na loja do Museu, contudo, está ainda à venda o magnífico catálogo (35 euros).




O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) - O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) é o único templo taoista existente em toda a Europa e um motivo de orgulho para o nosso país. Foi inteiramente concebido segundo as normas arquitectónicas dos templos taoistas chineses. A sua estatuária, como, por exemplo, os Oito Imortais no pavilhão do mesmo nome, veio directamente da China. A valiosa figura em folha de ouro do Imperador Amarelo foi oferta do Templo Taoista Zhong Yue Miao, que se ergue na montanha sagrada Song.
De Cantão deslocou-se um célebre especialista em geomancia chinesa (fengshui), Luk Ku Lou, a fim de escolher a localização ideal do templo no cenário da Serra da Estrela. Do Templo Taoista da Nuvem Branca (Bai Yun Guan), em Pequim, chegaram os monges que presidiram à cerimónia religiosa que teve lugar aquando da inauguração, em Outubro de 1998. Alguns permaneceram por ali até se terem formado novos acólitos.
A localização exacta do templo, contudo, é apenas revelada aos iniciados. Diz-se que lhes é ensinada então uma dança oculta destinada a transformar o yang em yin. A dança decorre em cima de um mapa secreto da montanha, cujo reflexo num antigo espelho de bronze que terá pertencido ao próprio Chang Dao Ling - o Mestre Celeste que, no séc. I d.C., converteu o taoísmo numa religião organizada - aponta o local do templo.
Mas como poderá o espelho mágico de Chang Dao Ling ter vindo parar a Portugal?
Chang Dao Ling nasceu no primeiro ou segundo século da nossa era sobre a Montanha do Tigre-Dragão, no Jiangxi. Certo dia, Lao-tse apareceu-lhe sob uma forma espiritual e encarregou-o de encontrar a fórmula pela qual compor o elixir da imortalidade. Chang Dao Ling foi bem sucedido nesse empreendimento. Aos cento e trinta e três anos, subiu aos céus montado no dorso de um tigre e, de seguida, preservou a sua identidade reincarnando sucessivamente num após outro dos seus próprios descendentes. Cada um daqueles a quem coube este privilégio retomou, assim, o nome de Chang Dao Ling. Tais reencarnações continuaram pelo séc. XX adiante. No séc. VIII, um decreto do imperador Xuan Zong deu jurisdição ao Mestre Celeste Chang "sobre todos os templos taoistas no mundo". Isto inclui, obviamente, o Templo Taoista da Serra da Estrela.
Mais curiosa ainda é uma passagem da obra de John Blofeld, Living Taoism. Embora muitos creiam no contrário, Blofeld declara ser altamente improvável que toda uma linhagem de pontífices que se conseguiu perpetuar por quase dois mil anos tenha desaparecido nos nossos dias sem deixar rasto. E refere que alguns estudiosos defendem que foi o governo de Chang Kai-chek quem baniu a última reencarnação do Mestre Celeste, antes dos anos 50 do século findo. Revela ainda que um autor chinês sustém que Chang Dao Ling tem vivido desde então em Macau "como um dragão, entre as volutas de espessas nuvens - o ópio!" Isto explicaria a sua ligação a Portugal e a sua possível implicação na construção e funcionamento do Templo Taoista da Serra da Estrela. Quanto ao ópio, é bem sabido ser um dos componentes essenciais no fabrico das pílulas da longevidade.




Retrato de Joaquim Antunes e família - Joaquim Patrocínio da Silva Antunes, nascido em Gondomar em 1941, é um exemplo feliz do poder de adaptação dos portugueses a alheias terras e gentes.
Entre 1960 e 1963, Joaquim cumpriu o serviço militar em Macau. Ali frequentaria a escola pela primeira vez, terminando a instrução primária.
Cedo deu provas de profunda adaptação à mentalidade asiática, com inexcedível capacidade de miscigenação, conhecendo numerosas senhoras orientais que lhe viriam prestar preciosa ajuda na sua mais notável obra: prolífera procriação luso-chinesa, incontáveis mestiçozinhos que contribuiriam para um aumento sensível da densidade populacional de Macau.
Joaquim Patrocínio da Silva Antunes só regressou à pátria lusa em 1997, já reformado. Aqui permanece, dedicando-se à nobre arte da poesia. Reflecte, nos seus versos, a riqueza das experiências vividas naquele enclave oriental. Eis alguns exemplos, retirados da última obra publicada, "Macau que bi e bibi" (1999):

Numa rua de Macau
eu te abisei sem vulir
ai q' achego-te cum pau
se cum outro eu te bir.

Um português a baler
aonde anda tem mulher
arranja do que comer
cum pauzinhos ou colher.

Sei quem sou e isso canto
desde que cheguei ao cais
de Macau, terra de encanto:

chinólogo, e nada mais!




As curandeiras - Terão reparado numa pequena estatueta portuguesa do princípio do século XX, retratando duas mulheres chinesas que seguram frasquinhos de unguentos, exposta num dos armários da primeira sala do bar-museu "Pavilhão Chinês", no nº 89 da Rua D. Pedro V, em Lisboa? O "Pavilhão Chinês" foi outrora uma farmácia e a estatueta fazia parte do seu espólio, algum do qual adquirido pelo novo dono do espaço.
Essa tosca estatueta é uma humilde homenagem a duas curandeiras chinesas que protagonizaram, em Novembro de 1911, um escândalo de contornos bizarros que abalou a então jovem república portuguesa.
Ajus e Joé, assim as chamavam os jornais da época, numa grafia aportuguesada dos seus nomes originais, eram naturais de Xangai e apresentavam-se como especialistas em devolver a vista a cegos. Os ceguinhos de Lisboa, mais as suas caixinhas de esmolas, guitarras e acordeões, acorreram aos magotes ao humilde hotel onde as chinesas se hospedaram. Naqueles tempos conturbados, o povo sucumbia facilmente à crendice e floresciam as bruxarias.
Todavia, devido talvez ao seu perfume exótico, as chinesas foram tomadas como caso exemplar pelos republicanos, adeptos ferrenhos do positivismo. Resolveram encher-se de brio racionalista e mandaram prender as duas arautas do obscurantismo numa capital que se queria um paradigma do progresso.
A Polícia, porém, deparou com tal resistência por parte dos ceguinhos - que não hesitavam em quebrar as suas guitarras nas cabeças dos agentes - e da populaça em geral, que se tornou impossível evitar um confronto. Rebentou um motim que degenerou em mortes. Estouraram bombas. As redacções de imprensa foram assaltadas. Não fora a pronta acção da cavalaria e Machado Santos teria sido linchado. O caso acaba por ascender ao Parlamento, por iniciativa do ministro do Interior. A prisão das chinesas é usada como mote em comícios e no ataque a adversários políticos. Ninguém consegue manter a serenidade.
A estatueta do "Pavilhão Chinês" é obra de Zeferino Santos, que acompanhava o pai cego nas consultas às curandeiras. O dono da antiga farmácia resolveu adquiri-la para, por graça, a colocar ao lado do anúncio de um medicamento oftálmico.
Quanto a Ajus e Joé, poucos dias depois da sua prisão foram novamente libertadas. Recusaram a extradição para o seu país natal. Algumas semanas antes, a 26 de Outubro desse ano, Sun Yat-sen proclamara a República da China. Receavam ver-se envolvidas com mais republicanos, ainda que chineses. Deixaram Portugal num navio que iria atravessar o Atlântico e nunca mais ninguém soube delas. Tudo quanto resta é uma foto de Joshua Benoliel no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e a estatueta do "Pavilhão Chinês".




Amália em Xangai - Em 1950, o jornal satírico "Os Ridículos" comentava a notícia sobre a actuação de Amália Rodrigues em Xangai, a realizar-se dali a pouco tempo: «(...) A Xangai, à China, achamos francamente fantástico! (...) A verdade, porém, é que achamos a China um país esquisito de mais para o fado (...) Vocês já pensaram, por momentos, no que será um auditório de chineses, todos sentados no chão, a comer arroz com dois pauzinhos e a Amália a cantar-lhes o "Tudo isto é fado" ou "Avé Maria Fadista"?»
Este é o único registo português aludindo à actuação de Amália em Xangai. A notícia foi, de resto, completamente abafada. Nem os jornais da época, nem as biografias de Pavão dos Santos ou Jean-Jacques Lafaye mencionam tal facto. O contrário se passaria em relação ao Japão, duas décadas volvidas, quando o estrondoso êxito de Amália lá obtido alcançou merecido eco no nosso país.
Todavia, Amália actuou de facto em Xangai, decorria o ano de 1950, acompanhada por Jaime Santos à guitarra e Santos Moreira à viola.
A República Popular da China havia sido proclamada no ano anterior e Xangai fora o berço do Partido Comunista. Devido à fama, mas sobretudo devido à modestíssima origem social da fadista, Amália foi escolhida pelos chineses para representar Portugal num espectáculo de folclore internacional.
Ao contrário, porém, do que supunha o jornal "Os Ridículos", Amália não cantou o "Tudo isto é fado" nem o "Avé Maria Fadista". Achou mais graça a, estando na China, cantar o "Grão de Arroz", de Belo Marques ("O meu amor é pequenino como um grão de arroz/ é tão discreto que ninguém sabe onde mora...)
Além disso, com a sua proverbial facilidade para aprender línguas estrangeiras, Amália fez questão de cantar a versão chinesa, levada a cabo de propósito para a ocasião: Wo xin shang de ren er shi duome xiaoxiao de/ ta xiang yili mi side/ ta duome jinshen, mei you ren zhidao ta zhu de difang...
Até aqui, a audiência entusiasmou-se com tal voz e tal mestria do chinês. Mas quando os versos seguintes foram cantados ("Tem um palácio de ouro fino aonde Deus o pôs/ e aonde eu vou falar de amor a toda a hora..."), um dos representantes dos camponeses presentes por entre o público indignou-se e berrou: "Se tem um palácio de ouro fino, não foi Deus que lho deu, mas o sangue e o suor das classes trabalhadoras!"
Foi como um rastilho. A audiência aplaudiu o representante dos camponeses e começou a assobiar e a apupar a nossa pobre Amália que, seguida pelos dois assustados instrumentistas, teve de abandonar o palco lavada em lágrimas. No dia seguinte, partiu precipitadamente para Berlim, onde conheceria um êxito monumental nos espectáculos do Plano Marshall.
Este breve e triste episódio na carreira da grande fadista foi abafado pela própria Amália, que negou sempre ter alguma vez posto os pés na China Popular. No entanto, foi relatado no dia a seguir pelo Diário de Xangai. Esse exemplar do jornal pode facilmente ser consultado na Biblioteca da cidade por quem dominar a leitura dos caracteres chineses. A notícia, de 21 de Setembro, intitula-se "Cantora burguesa é apupada pelo povo trabalhador no Espectáculo de Folclore Internacional".





1997-2000


THE BEATLES- O SEU SENTIDO DE HUMOR


Em 1994, fiz uma pequena recolha e tradução de famosas réplicas humorísticas por parte dos quatro elementos dos Beatles – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr – muitas das quais nas inúmeras conferências de imprensa em que participaram durante os anos sessenta, na fase anterior ao lançamento do LP Seargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Como disse Bill Harry em “The Unique Humour of the Beatles” “…tinham um estilo de comentário vivaço que era só deles, embora derivasse em parte da área de onde eram originários – Liverpool – que tem sido o berço de tanta gente espirituosa. (…) Eles saíam-se tão bem com uma réplica engraçada como os melhores comediantes de Liverpool, mas acrescentavam ao seu tipo de piadas uma pitada extra que provinha directamente das suas personalidades. (…) Tornaram-se adeptos de respostas tão devastadoras que ganhavam sempre o dia (…). Quando confrontados com uma série de clichés, viravam-nos às avessas e de cabeça para baixo!” Naquele tempo, também Maureen Cleave, jornalista no Evening Standart, comentou: “Ou eles têm como empregado o mais maravilhoso dos comediantes escondido ou Bob Hope deveria contratá-los sem perda de tempo.” O próprio New York Times rendia-se ao seu charme: “O humor dos Beatles foi contagioso. Toda a gente desatou a rir. Os fotógrafos esqueceram-se de tirar as fotografias que queriam.”





Beethoven surge numa das vossas canções. Que pensam vocês de Beethoven?
Ringo: É óptimo. Especialmente a sua poesia.

Acreditam nesta demência?
Ringo: Sim, é saudável.
Mas não se sentem embaraçados com toda esta demência?
Ringo: Não, é louco.

Pensam que é errado dar um exemplo tão mau aos adolscentes, a fumar da maneira que vocês fumam?
Ringo: É melhor do que sermos alcoólicos.

Que pensam da crítica que afirma que vocês não são muito bons?
George: Não somos.

Qual julgam ser a razão pela qual são o grupo musical mais popular hoje em dia?
John: Não fazemos ideia. Se fizéssemos, arranjávamos quatro rapazes de cabelo comprido, juntávamo-los e tornávamo-nos nos seus managers.

Admitiram ser agnósticos. E também são irreverentes?
Paul: Nós somos agnósticos, por isso não há razão para sermos irreverentes.

Que pensaram quando o vosso avião começou a deitar fumo ao aterrarem hoje?
Ringo: Beatles, mulheres e crianças primeiro!

Planeias casar com a Jane Asher?
Paul: Não tenho planos. Mas toda a gente diz que tenho. Talvez saibam mais. Dizem que sou casado e tenho cinquenta filhos, por isso também tu o podes fazer.

Como começou o teu hábito de usar quatro anéis ao mesmo tempo?
Ringo: Seis seriam demasiado pesados.

Porque achas que recebes mais correio das fãs do que qualquer outro do grupo?
Ringo: Sei lá. Julgo que é porque mais pessoas me escrevem.

Tens muitos encontros?
Ringo: O que é que vais fazer hoje à noite?

Vocês costumam brigar uns com os outros?
John: Só pela manhã.

Ao chegar à América…
Que tal estas boas vindas?
Ringo: Então isto é a América. Parecem todos doidos.

Esperam levar alguma coisa convosco para o vosso país?
Ringo: O Rockefeller Center.

Qual é a vossa mensagem para os adolescentes americanos?
Paul: A nossa mensagem é… comprem mais discos dos Beatles.

Qual é a vossa reacção à opinião de um psiquiatra de Seattle que diz que vocês são uma ameaça?
George: Os psiquiatras são uma ameaça.

Quais são os vossos programas preferidos da televisão americana?
Paul: ‘News in Espanhol’ de Miami. Popeye, Bullwinkle. Todos esses programas culturais.
John: Eu gosto da televisão americana porque porque há dezoito estações, mas não há um único programa bom em nenhuma delas.

Há uma campanha ‘Destruir os Beatles’ em Detroit. Que vão vocês fazer quanto a isso?
Paul: Vamos começar uma campanha para destruir Detroit.

Que fazem vocês quando estão engaiolados num quarto de hotel entre dois espectáculos?
George: Patinagem no gelo.

Paul, que pensas tu do colunista Walter Winchell?
Paul: Ele disse que eu era casado e eu não sou.
George: Talvez ele queira casar contigo…

Como acharam a América?
Ringo: Fomos até à Gronelândia e virámos à esquerda.

Gostariam de caminhar pelas ruas sem serem reconhecidos?
John: Costumávamos fazê-lo sem dinheiro nos bolsos. Não tem interesse nenhum.

Que é isso de adoeceres anualmente, George?
George: Apanho cancro todos os anos.

Quando fazem uma nova canção, como decidem quem será o cantor principal?
John: Juntamo-nos todos e aquele que souber melhor a letra fica o cantor principal.

Que tal é a sensação de enganar o mundo inteiro?
John: Que tal é a sensação de ser enganado?

A adulação das adolescentes afecta-vos?
John: Quando começo a sentir-me inchado, olho para o Ringo e fico perfeitamente ciente de que não somos super-homens.

Que acham vocês de um night club, “Arthur”,cujo nome é o mesmo do vosso penteado?
George: Eu fiquei orgulhoso – até que vi o night club.

Vocês ficam ressentidos por as fãs rasgarem os vossos lençóis como recordação?
Ringo: Não, não me importo. Desde que eu não esteja neles enquanto elas os rasgam.

BBC: Os franceses ainda não se decidiram acerca dos Beatles. Que pensam vocês deles?
John: Oh, nós gostamos dos Beatles. São bestiais.

Vocês gostam de fatos de banho topless?
Ringo: Aos anos que nós os usamos!

Ficaram preocupados com os rufiões altíssimos que tentaram infiltrar-se na multidão do aeroporto à vossa chegada?
Ringo: Esses éramos nós!

Que farão quando a Beatlemania amainar?
John: Contar o dinheiro.

Alguma vez aceitariam uma rapariga no vosso grupo se ela soubesse cantar, tocar um instrumento e usar o penteado Beatle?
Ringo: Quanto é que ela mede?

Quem inventou o nome Beatles?
Paul: Eu.
Porquê?
Paul: Porque não?



Vocês não estão cansados de toda esta mistificação? Não preferiam sentar-se sobre as vossas recheadas carteiras?
Paul: Quando nos cansamos tiramos férias recheadas à custa das nossas recheadas carteiras.

Porque é que vocês foram recusados pela Imigração?
John: Tivemos de ser despiolhados.

Vocês preocupam-se por fumar em público? Não pensam que será um mau exemplo para os vossos fãs mais novos?
George: Nós não damos exemplos. Fumamos porque sempre fumámos. Os miúdos não fumam porque nós fumamos. Fumam porque querem. Se nós mudássemos estaríamos a ser falsos.
Ringo (segredando): Nós até bebemos!

Quem é que os Beatles gostariam de conhecer mais do que ninguém no mundo?
Ringo: O verdadeiro Pai Natal.

Paul, tu pareces-te com o meu filho.
Paul: Tu não te pareces nada com a minha mãe.

A vossa popularidade começa a diminuir?
Paul: Concordo que a nossa popularidade atingiu um cume. Mas também concordei com um homem que disse a mesma coisa no ano passado. E estávamos ambos errados.

Falas francês?
Paul: Non.

É verdade que nenhum de vocês sabe ler ou escrever música?
Paul: Nenhum de nós sabe ler ou escrever música. A maneira como trabalhamos é assim, nós assobiamos. O John assobia para mim e eu assobio para ele.

Têm algum conselho especial para dar aos adolescentes?
John: Não apanhem acne.

Se eras mau em matemática como é que contas todo o dinheiro que ganhas?
John: Eu não o conto. Peso-o.

É verdade que usaram uma palavra de quatro letras para os turistas nas Bahamas?
John: O que nós dissemos mesmo foi “Céus!”
Paul: Também podemos ter dito “Credo!”
John: Não podemos ter dito isso, Paul. Mais do que quatro letras.

Desculpem interromper enquanto comem, mas que pensam que estarão a fazer dentro de cinco anos quando isto tudo acabar?
Ringo: Ainda a comer.

Que pensam da afirmação do leader duma banda, Ray block, que diz que os Beatles não durarão um ano?
John: Provavelmente duraremos mais do que Ray Block.

Porque é que foram os Beatles, e não duzentos outros grupos, que tiveram êxito?
Ringo: Às vezes também tento ver se percebo isso.

Porque é que os quatro Beatles não cantam nunca todos juntos?
George: Bem, pelo menos tentamos começar juntos.

És um mod ou um rocker?
John: Sou um mocker (gozão).

O sucesso estragou os Beatles?
Paul: A melhor coisa quanto a isso é que se deixa de ter grandes preocupações quando se tem o que nós temos – só pequeninas, como se o nosso avião se vai despenhar ou não.

O que é que planeiam fazer depois disto?
Ringo: O que é que há mais para fazer?

Que desculpa têm para esse cabelo comprido até aos colarinhos?
John: Bem,é que nos cresce da cabeça para fora.

Qual de vocês é mesmo careca?
George: Somos todos carecas. E eu sou surdo-mudo.

Quem vos penteia quando estão em Paris?
John: Ninguém nos penteia quando estamos em Londres.
Mas de onde vieram esses penteados?
John:
Você quer dizer despenteados.

Vocês usam perucas?
John: Se usamos, devem ser as únicas com caspa verdadeira.

Que pensam dos adolescentes que vos imitam a usar perucas Beatle?
John: Não nos estão a imitar porque nós não usamos perucas Beatle.

Vocês usam perucas ou cabelo verdadeiro?
George: O nosso cabelo é verdadeiro. E o seu, minha senhora?

O vosso cabelo necessita de alguma atenção especial?
John: Desatenção é o principal.

Qual é a maior ameaça às vossas carreiras, a bomba atómica ou a caspa?
Ringo: A bomba atómica. Caspa já nós temos.

Ringo, porque usas dois anéis em cada mão?
Ringo: Porque não consigo enfiá-los no meu nariz.

Paul, qual foi a canção mais curta que composeste?
Paul: 65 cm.

John, como está o teu pai e o seu cavalo de corrida? O cavalo já ganhou alguma corrida?
John: O cavalo ganhou uma corrida e o meu pai ganhou outra – venceu o cavalo.

George: Lembras-te daquela casa em que ficámos em Harlech?
Paul: Não. Qual delas?
George: Lembras-te sim! Havia uma mulher que tinha um cão sem pernas. Ela costumava levá-lo a dar um deslize pela manhã.

Durante o Royal Command Variety Performance no Teatro Prince of Wales em Piccadilly Circus com a Raínha Mãe e a Princesa Margarida presentes…
John: No próximo número quero que se juntem a nós. Aqueles que estão nos lugares baratos batam palmas. Os restantes podem fazer chocalhar as jóias.

No primeiro encontro com o manager Brian Epstein na NEMS, Paul não compareceu à hora marcada e George foi telefonar-lhe a saber o que se passava. Após o telefonema, explicou que Paul acabara de se levantar e estava a tomar banho.
Brian Epstein
: Mas isto é uma desgraça! Ele vai chegar muito atrasado!
George: E muito limpo!

No primeiro encontro com o produtor George Martin nos estúdios da Abbey Road...
George Martin: Digam-me, por favor, se há alguma coisa que não vos agrade.
George: Bem, para começar, não gosto da sua gravata.

Quando se encontraram com Jayne Mansfield, que era excepcionalmente bem dotada de peito, ela pegou no cabelo de George e perguntou:
- É verdadeiro?
George baixou o olhar e inquiriu:
- São verdadeiras?

Dirigndo-se às fãs…
Ringo
: E para que não comece toda a gente a escrever montes de cartas a perguntar acerca os emblemas que se vêem a serem usados por nós quando estávamos no palco, deixem-me dar-vos a resposta antes que façam a pergunta – são emblemas Wells Fargo Agent genuínos. Ofereceram-nos quando íamos para um concerto num camião Fargo. O John pôs o dele na parte de trás do boné.
John: Não senhor. Eu tinha era posto a minha cabeça de trás para a frente nesse dia.

Dirigindo-se à audiência em Nova Orleães…
John: Gostaríamos que agora se juntassem a nós – quer dizer, aquelas de entre vocês que ainda estiverem vivas.

Acerca do seu primeiro livro, “In His Own Write”
John: As pessoas tanto se fartaram de dizer que eu estava a copiar o James Joyce que decidi lê-lo. Foi fantástico. Levei meio dia a ler meio capítulo mas foi como encontrar o papá.

Quando o avião em que se encontravam ameaçava cair…
John: Nada a temer, rapazes! O avião só tem cinquenta anos!

Sobre a digressão na Suécia…
Richard Lester: Gostaste da Suécia?
John: Era um quarto e um quarto e um carro e um quarto e um quarto e um carro…

Após ter saltado para a piscina de um hotel, vestido apenas com uma camisola…John: Tragam-me uma gravata que me sinto nú!

1994

Friday, April 07, 2006

FADO

NOTÍCIAS E ARTIGOS DE JORNAIS E REVISTAS SOBRE AMÁLIA RODRIGUES


“Tão longe o fado a levou
que Deus a perdeu de vista.”

“Malmequer Pequenino”




Sendo aquilo que comumente se chama uma fã tanto dos Beatles quanto de Amália, e possuindo várias obras com estudos exaustivos sobre a carreira e vida do grupo britânico, penso ser injusto e sintoma do nacional desleixo que o mesmo se não passe com a nossa maior fadista. Uma dessas obras sobre os Beatles é precisamente constituída por uma recolha de notícias e artigos de jornal. Assim, resolvi eu própria abalançar-me a uma recolha, efectuada na sua maior parte na Hermeroteca de Lisboa nos finais dos anos 90, de notícias e artigos de jornais e revistas sobre Amália e também sobre os seus guitarristas e violistas. Foi uma pesquisa entusiasmante, com muitas descobertas inesperadas, como, por exemplo, a da existência de fotografias de Amália anteriores àquela que, oficialmente, costuma ser descrita como sendo a primeira que se conhece. Vou aqui partilhar essas minhas descobertas, contribuindo deste modo para os “estudos amalianos” e fazendo votos para que, tal como existem beatlelógos, em breve surja no nosso país a primeira geração de amaliólogos.


1. Artigos biográficos

Vida Mundial Ilustrada, nº 151 (1944) - "Isto não é uma entrevista - um repórter à procura de Amália Rodrigues" – (resumo) Atesta a já enorme popularidade de Amália em Portugal. Era muito difícil entrevistar Amália. Atesta também a sua famosa irresponsabilidade, nos primeiros anos de carreira. Constava que Amália estava de partida para o Brasil. Amália almoça com a irmã no café "Palladium", salmonete "à meunière". Marca entrevista para as seis horas na "Bijou". O repórter ficou à espera até às sete e Amália não apareceu. Telefonou para o Casablanca e o Apolo. Ninguém sabia onde Amália parava desde havia dois dias. O José Miguel telefona-lhe a dizer que Amália estava no norte, Coimbra ou Porto, a cantar numa festa. E que regressava no dia seguinte. Amália acabava o ensaio às seis horas no Apolo, da "Rosa Cantadeira" (com Hermínia Silva, Ribeirinho, Santos Carvalho, Morgado Maurício, Hortense Luz, Armando Machado). Explica que não apareceu na "Bijou" porque tivera de partir para o norte. Diz que tem de estar em casa às seis e um quarto e que está muito cansada. Para ele passar à noite por ali, às dez e meia. O repórter espera até à meia-noite e Amália não aparece. O repórter apurou que Amália cantaria no intervalo de um último espectáculo no Casablanca. Comprou um bilhete para a frisa. Amália cantou com grande êxito, com muitos bis, empolgando o público. No final, o repórter correu para o palco, mas Amália tornou a escapar!

Eva (Outubro de 1944) - "A nossa fadista nº 1 parte para o Brasil! Boa viagem, Amália!" - Rua à cunha. Era esta a primeira impressão que tinha quem queria entrar no "Luso" naquela noite. A da Travessa da Queimada à cunha, "superlotada" com a gente que não tinha podido encontrar lugar. Na bilheteira continuavam a chover pedidos e telefonemas. A sala estava arqui-cheia, mas na rua ninguém arredava pé; com lugar ou sem ele, dentro da sala ou fora, todos queriam, "ao menos", ver a Amália.
Mas nós é que não podíamos apenas vê-la. Queríamos fotografá-la, falar-lhe e ouvi-la. Por isso o Miranda, fotógrafo, tentava atravessar aquele mar de gente triste, revoltada, invejosa e resmungona. Eu seguia-o de perto, agarrada ao tripé da máquina fotográfica, como a um reboque. E ele, de vez em quando, voltava-se para trás e encorajava-me:
- Nós somos as chamadas forças de invasão a estabelecer uma chamada testa de ponte...
Eu esboçava um risinho amarelo e submergia-me na multidão, que continuava a fazer azeite.
A teimosia do Miranda levou a melhor (ou seriam as arestas da máquina que ele levava na frente, como um escudo?) e chegámos por fim à bilheteira. "Não há mesas. Lotação esgotada. Não se respeitam marcações". Respostas dadas com ar cortante e sem réplica. Olhámo-nos desolados. Um senhor prestável que assistia à cena e que adivinha em nós (não é difícil) um caçador de imagens e uma caçadora de impressões, informa-nos de que "A Amália ainda não chegou". São 10 e meia. O espectáculo estava marcado para as dez.
Nisto, o Miranda tem um sorriso luminoso como um clarão de magnésio.
- Aí vem o chamado guitarrista da chamada Princesa do Fado... A ele...
Falemos com o Fernando Freitas, que é uma espécie de prolongamento de Amália.
- Também vou, diz-nos ele com um ar radiante.
- E... ela quando vem?
- Lá para a meia noite... Está a jantar no Tavares, com umas pessoas amigas.
A turba espreita-nos e olha-o com um certo respeito. É Fernando Freitas que acompanha à guitarra a nossa moderna Severa, e é no seu ombro que se apoia, enquanto Amália canta, a pequena mão da grande cantadeira.
- À meia noite... - reflecte o Miranda, e propõe: e se fôssemos ao chamado Tavares, em chamada missão de reconhecimento?
E fomos. O primeiro contacto com Amália é uma surpresa e uma delícia.
Muita simplicidade, muita doçura, nenhum cabotismo.
Explicámos-lhe ao que íamos. "Que não, que não ia à meia-noite. Era só acabar de jantar. Que fazia todas as fotografias que fossem necessárias, que agradecia muito."
E eu aproveito para lhe perguntar se está contente por partir.
- Contente... diz ela com uma suavidade triste, estou, muito contente. É uma grande, uma linda viagem... Mas já sei que ao fim de oito dias estou doida por voltar, e cheia de saudades. Já qundo fui a Espanha, senti a mesma coisa...
- Mas foi por pouco tempo. Desta vez são...
- ...três meses. Um contrato para o Casino de Copacabana.
- Tem tempo de ter saudades e de deixar de as ter...
- Não. Não creia isso. Depois ainda vai ser pior.




Chamam-na. Deixamo-la ir jantar, e dirigimo-nos novamente para o "Luso" onde chegámos durante um intervalo. O Miranda, com as suas habilidades, consegue fazer-nos entrar.
A cervejaria está cheia de luz e de gente. Gente do fado, gente boa e gente "bem". Actrizes. Junto de nós fica a Carmencita Aubert. Artistas, entre as quais a Estela Faria, o Tom. O corpo diplomático, representado pela Embaixatriz de Espanha e pelo Embaixador.
E, espalhados pelas mesinhas de "caveau", o conde de Sobral, o conde de Sabrosa, a outra voz de oiro da "canção nacional", Maria Teresa de Noronha, o barão de Hortega, o poeta José Bruges de Oliveira que escuta Leonilde Gouveia com a atitude sonhadora de quem ouve versos de Règulier.
E há crianças, uma garotinha de tranças alouradas, um miúdo de olhos grandes e um pouco espavoridos, apreciadores que começam cedo, e mais tarde hão-de ser entendidos...
O Miranda aponta-me um senhor que está quasi sempre no estrado, suba ao dito seja lá quem for:
- Aquele é o chamado Linhares Barbosa, um chamado poeta, que faz a letra dos fados da Amália...
Vai começar a cantar um rapaz baixo, moreno. (...)
Mas sente-se que a sala inteira está electrizada, em expectativa, num enervamento que aumenta de instante a instante, até que - perto da meia-noite...- Amália chega.
Recebem-na com uma ovação prolongada. De todas as mesas a chamam, lhe falam.
Um senhor "forte" fala ao público. O Miranda, inesgotavelmente bem informado, precioso, diz-me:
- É o chamado Tavares da Silva...
E o senhor lê, devagar, com emoção, algumas palavras de elogio à festejada. Fixámos entre outras:
"...Amália e o Fado confundem-se... Sem dúvida, Amália deu ao Fado uma certa dignidade.
...O Fado é tristeza. De resto, só quem viveu uma vida de amarguras e incertezas poderia cantar assim o Fado. Eis aqui, porém, uma das facetas mais luminosas desse grande temperamento artístico. Amália, elevada ao cume da sua arte, conquistando uma popularidade enorme, conservou-se igual a si própria, simples, amável, modesta..."
Muitas palmas, que redobram e atingem o delírio quando Amália Rodrigues sobe por sua vez ao estrado, que se cobre rapidamente de flores.
Que bonita é a cantar! O seu rosto transfigura-se e é o de um anjo moreno, tocado de melancolia:
Vem, eu ainda sou tua...
O público escuta, em êxtase, aquela voz suave, que vai subindo e morrendo:
... e mesmo de olhos fechados
encontras a minha porta...
Mais palmas, mais flores.
Entretanto, o Miranda murmura-me:
- Chegou o chamado momento psicológico de fazer os chamados bonecos...
E daí em diante não se vê senão ele, a subir e a descer das cadeiras, e a esgueirar-se por entre as mesas, produzindo clarões, como um outro Júpiter a expedir raios...
Num curto momento de repouso, Amália Rorigues, que não esqueceu o prometido, vem ter comigo, e fala-me do fado. Digo-lhe que não percebo nada do assunto. E ela, convincente, num soriso que os olhos não acompanham, os negros olhos sempre tristes:
- Talvez nem goste. Há muita gente que não gosta do fado. E é natural. Da maneira como a maior parte da gente o canta, e com versos horríveis... Nem é possível gostar... Mas cantado com naturalidade, com bonita letra... é uma linda canção, como qualquer outra...
- Assim até eu gosto...
- E toda a gente gosta, creia... Eu, adoro-o...
O Miranda aproxima-se e atira outro clarão...
Fico atrapalhada e faço uma pergunta palerma, género "test" de trazer por casa:
- Se não fosse o que é, que desejaria ser?...
Ela medita uns segundos e responde a sorrir, divertida:
- Ora, se não fosse o que sou... gostava de ser o que sou...
- Ainda um momento, Amália; que quer que diga da sua parte ao público português no momento da sua partida?
- Ao "meu" público... que tem sido tão bom para mim...Olhe, não quero despedir-me, faz-me tristeza... Diga-lhe... os últimos versos do fado que vou cantar daqui a pouco... e se chama Agradecimento...
E é com esses versos que Amália nos diz adeus.
Neste adeus de simpatia
Somente um favor lhes rogo:
Não adeus até um dia
Mas sim: adeus, até logo!



É uma e meia da noite. Saímos do "Luso" deixando a sala em delírio, num alarido de palmas, de gritos de entusiasmo, de admiração, de devoção.
E Amália vai partir no "Clipper", no "Clipper" para o Brasil. Para Copacabana... Por três meses...
No "eléctrico" que me leva a casa, tão diferente do "Clipper", tão ronceiro, tão manhoso, surpreendo-me a monologar com tristeza e influenciada pelo amigo Miranda:
- Quem me dera ser uma chamada fadista, para ir para o chamado Rio de Janeiro, com um chamado contrato de três meses..." Maria Antónia. Numa foto no Luso, Amália aparece com Fernando Freitas e Martinho da Assunção à viola.

Filmagem (1946) - artigo que comprova a mudança de comportamento de Amália, agora mais responsável perante os seus compromissos. "Amália, vinte valores em comportamento...", uma entrevista com Augusto Fraga.

Canção do Sul (16-3-1947) – Amália Rodrigues desistiu temporariamente da sua anunciada digressão à América do Norte, por ter firmado contratos não só para o Teatro Variedades como para a sua actuação no filme "O Fado".

Século Ilustrado (14-6-1947) - Entrevista com Amália, (resumo). Amália chegou há pouco do Brasil, está nas filmagens de "O Fado", após terminá-las segue para S. Sebastian, para veranear e fazer um curto filme sobre fado, depois segue para o México.

Ecos de Portugal (15-10-1949) – (resumo) Amália, Santos Moreira e Raúl Nery no almoço de homenagem ao Dr. Amaro de Almeida - nascido na Rua do Capelão -, realizado a 24 de Setembro na Adega Mesquita. O Dr. Amaro de Almeida era um médico que muito tinha feito em prol dos fadistas e do fado. Reuniram-se ali médicos, advogados, comerciantes, jornalistas e fadistas. Presidiu Amália Rodrigues que tinha a ladeá-la o homenageado, Alfredo Marceneiro, D. José António Conde de Sabrosa, Dr. Castelo Branco, Dr. Antunes Leal e Santos Moreira. O homenageado ficou entre Amália e Santos Moreira. Comissão de homenagem: Filipe Pinto, Gabriel Infante, Raúl Nery, Joaquim Cordeiro, Agostinho das Neves e Romeu Rosa Gomes. Entre os presentes: João Linhares Barbosa, Felix Correia, Modesto Maia, Orlando Silva, Frederico de Oliveira, Carvalhinho, Ilídio dos Santos, Berta Santos, Tolentino de Oliveira, Carlos de Oliveira, o empresário José Miguel, Frutuoso França, Ricardo Cruz, Fernando Couto, Romeu Rosa Gomes, António dos Santos, Júlio Peres, Gabino Ferreira, Tony de Matos, Manuel Nunes, António Cipriano, Manuel Gomes, Castro Mota, Joaquim Cordeiro, Adelino dos Santos, Armando Gonçalves, Fonseca Santos, Cândida Rosa, Branca Machado, Mina Doly, Eulália Duarte, Flávio Teixeira, Joaquim Nicolau de Almeida, Maria da Saudade, Vitor Dias, Agostinho Dias, Fernando Reis, Rolanda Rodrigues, Henrique Simas, Nicolau Neves, Alfredo Mendes, Joaquim Fundidor e esposa, Fernanda Santos, Celeste Rodrigues, Guilherme Santos, Fernando Farinha, Isabel Silva, Noémia Cristina, António Carícias, Miguel Ramos, Jacinto Pereira, Márcia Condessa, António Penedo de Abreu, António dos Santos, Cidaliza do Carmo, Aires Maia, Dr. Rui Nogueira, Amílcar Nogueira, Vitor Clemente da Silva, Quinita Gomes, António Augusto dos Santos, Maria Santos, Gil Bordonhos, José Moreno, Manuel Fernandes, Clemente Correia, Xavier Pinto.
Ofereceram ao homenageado inúmeras lembranças, destacando-se uma "seringa" e uma guitarra artisticamente trabalhada, oferta de todos os presentes. Amália, depois de feita a entrega, cantou acompanhada pelos seus guitarristas privativos, tendo Raúl Nery utilizado a guitarra oferecida ao homenageado que afirmou no seu discurso: "Todos os fadistas terão em mim dois ouvidos muito atentos, muito abertos, para ouvir os seus gemidos".

Eva (Abril 1950) - mostra uma foto de Amália aos 5 anos no artigo, muito impreciso, de Metzner Leone: "A história desconhecida de Amália Rodrigues." O primeiro pulo da sua carreira foi-lhe proporcionado no Porto. O seu empresário organizara uma "tournée" de fadistas pelo Norte, com os grandes nomes do fado, conhecidos nesse tempo à cabeça dos cartazes. No Porto, porém, os ouvintes aplaudiram em delirante entusiasmo uma certa desconhecida, que cantava melhor e com mais alma que todas as vedetas-fadistas cujos nomes sabiam de cor! O êxito foi tal, tão espontâneo e retumbante, que, no regresso a Lisboa, o empresário passou a considerar Amália uma fadista de primeiro plano. A cidade do Porto, com esta consagração, ofereceu a Amália Rodrigues o primeiro grande triunfo depois da sua estreia e as primeiras invejas da sua carreira. Uns e outros, porém, são imprescindíveis quando se sai da mediocridade geral...
(...) Como não podia deixar de ser, porém, a carreira da grande artista que é Amália Rodrigues tem suscitado fortes reacções, e há mesmo gente que passa as noites metendo o nariz nas casas de fado à procura duma voz que seja... melhor que a da Amália!
Os anti-amalistas não desarmam - especialmente os anti-amalistas... E a série de fracassos que sofrem há dez anos (pois há dez anos que andam à procura de uma voz melhor que a dela, sem sequer terem encontrado uma voz semelhante à dela...), longe de os fazer desanimar, encarniça-os ainda mais no seu torvo desejo de destronar esta raínha por direito natural, que naturalmente apareceu sem tirar o lugar de ninguém, e naturalmente se impôs, criando para o fado um lugar que ele não tivera nunca, elevando-o a um nível onde nunca sonhara chegar, e difundindo-o por toda a parte numa apoteose triunfal. Porque sendo Amália Rodrigues plebeia, orgulhosamente plebeia e feliz da sua origem humilde, ela conseguiu o que não conseguiram nunca os nossos fidalgos estilo Marialva: ela aristocratizou o fado - enquanto eles se limitaram a frequentar tabernas e vielas, para bem poderem senti-lo...






Flama (24-3-1950) - Amália ganha concurso radiofónico de artista preferida.

Flama (19-5-1950) - idem.

Flama (2-6-1950 ou 16-6-1950) - Entrevista de Rolo Duarte. (Resumo) "Não é fácil falar a Amália Rodrigues." No Café Luso tiraram-se fotografias em dois minutos; a entrevista foi na casa de Amália na Rua de S. Bernardo. No Luso, sala esgotada; Filipe Pinto anuncia Amália - silêncio sepulcral... a assistência ovaciona delirantemente. Em casa, numa pequena sala luxuosamente decorada, com a "subtileza de um ambiente puramente artístico. Nas paredes, vários quadros a óleo, um dos quais representava Amália. Os reposteiros, de um cinzento claro, coadunavam-se bem com a cor do mobiliário. Alguns "maples" de agradável conforto contribuem para o interesse que nos despertara aquela sala." Amália mostra-se curiosa sobre o concurso de popularidade radiofónica que esta revista organizou, em que obteve o 1º lugar e quis saber quem ficou em 2º, com quantos votos, etc.
(...)"Não penso em nada. Nunca tenho projectos. Os contratos aparecem com pouca antecedência e eu só tenho tempo para dizer sim ou não...
Na conversa, Amália afirmou gostar imenso de cantar para estrangeiros.
- E sente o fado da mesma maneira, cantando para os outros povos?
- Ainda o sinto mais. Imprimo-lhe maior sentimento ou mais alegria, consoante o fado que canto.
Rolo Duarte afirma que "a exímia cantadeira é refractária a entrevistas".

Flama (16-6-1950) - A 5 de Junho, Amália, com Santos Moreira e Raúl Nery, participou na festa da Flama no Eden-Teatro "Coroação da Rainha da Rádio Portuguesa" - Júlia Barroso -, onde cantou fados e canções hispano-brasileiras, levando o público ao delírio. Participaram, entre outros artistas, João Villaret, Max, Alberto Ribeiro, Humberto Madeira, etc.

Eva (Fevereiro de 1951) - "-E como tem o público europeu recebido Amália?
- Maravilhosamente, responde logo Santos Moreira. O êxito de Amália pode definir-se por este simples facto: a sua colaboração nos programas efectuados sob os auspícios do Plano Marshall, apenas estava prevista, em princípio, para o espectáculo de Roma. Fomos para o palco dispostos a interpretar apenas um fado. Estávamos todos muito nervosos, eu mais do que ninguém, embora tentasse dar moral aos meus companheiros. Antes de começarmos, disse para a Amália e para o Nery: - "Vamos lá humilhar essa gente com o nosso fado." No final, saímos logo do palco. Mas tivémos de voltar. As palmas do público eram delirantes. Interpretámos mais dois números, e só então nos deixaram ir embora. Em Berlim, após a nossa actuação, apareceram logo uns sujeitos do cinema e outros com propostas para Amália gravar discos. Fomos convidados para um "party" em casa do general Taylor. E, em Dublin, também recebemos outro honroso convite, para uma festa em que compareceu o próprio presidente De Valera. Em toda a parte nos trataram com simpatia e carinho. Aliás, em toda a Europa, a simples enunciação do nossa qualidade de portugueses basta para que imediatamente nos rodeie uma atmosfera de curiosidade e admiração.
- Trazem alguma recordação especial desta última viagem?
- A melhor que trazemos refere-se a Paris, onde passámos o último Natal. Assistimos, no Teatro da Gayté Lyryque, à representação da opereta "Colorado", de que é principal intérprete o nosso compatriota Luís Piçarra. No final, reunimo-nos todos numa festinha muito íntima e muito portuguesa. O cantor que triunfa em Paris junta-se à artista que representa Portugal nos programas do Plano Marshall, e ambos, com a nossa colaboração, celebraram um Natal bem à lusitana. A gente comoveu-se um bocado. Não esperávamos passar aquela data longe das nossas famílias, mas acabámos por nos sentir tão confortados como se estivéssemos em Lisboa. Amália é a melhor e a mais compreensiva companheira do mundo inteiro. " (Armindo Blanco)


Raúl Nery, Amália e Santos Moreira

Flama (1.6.1951) - Amália ofereceu a Maria Dulce uma grande fotografia autografada.

Flama (8-6-1951) - Amália participa na festa de coroação da Raínha da Rádio Portuguesa.

Flama (23-6-1951) - Diário da actriz Maria Dulce, então criança: "durante o ensaio de Frei Luís de Sousa", Amália visitou os artistas. "Há tanto tempo que ambicionava conhecê-la e, finalmente, eis o meu grande desejo satisfeito. Conversei durante bastante tempo com ela. É uma senhora muito simpática e ficámos sendo amigas."

Flama (15-2-1952) - Amália na festa do Max.

Flama (29-2-52) - notícia muito "rebuscada" sobre o facto de Amália ir de férias para a Suíça.

Flama (15-8-1952) afirma que os acompanhadores habituais de Amália são Jaime Santos e Santos Moreira. A Flama fez um inquérito na sua "Página de Teatro" para eleição da artista preferida dos seus leitores. Embora Amália já não pisasse os palcos havia vários anos, conquistou o primeiro lugar de forma clamorosa. Os votos vieram de todas as camadas sociais.

ibidem? - Amália na Madeira. Foram excepcionalmente triunfais as suas actuações na "Pérola do Atlântico".
" - Sim, do meu encantamento e das minhas emoções, tão bem vividas nesta ilha de sonho e de beleza, dou conta à vossa simpática revista, que ainda agora me distinguiu com o primeiro lugar do seu interessantíssimo concurso.
- O momento da chegada?
- Inesperado. Bem, eu tinha pensado num ou noutro curioso, que os há, por toda a parte. Mas uma multidão daquelas... E flores, assim, logo ao desembarque... E as palmas, e os "vivas"... toda essa vibração espontânea, que é do povo, que só possuem as almas simples e boas!
- Já conhecia a Madeira...
- Superficialmente, uma vez, de passagem para o Brasil. Mas mesmo com um superficial conhecimento, já se gosta, e já se fica com vontade de cá vir.
E espraiando o olhar pelos jardins do hotel onde havia rosas abertas a um sol de primavera, numa expressão de êxtase e nostalgia parece querer sonhar:
- Tudo isto é lindo! Sinto perfumes doces que me embriagam. É uma cantiga de beleza e de encanto que encontra amor (?) no meu coração.
- Que me conste, não costuma fazer a letra do que canta...
- Mas vivo a letra que a natureza me dispensa!

Amália, durante os seus oito dias na Madeira, foi a (...) emocional das multidões que a viram e ouviram. No "Savoy Hotel", onde luz a sua estrela, conquistou o seu primeiro triunfo, dos mais raros registados, em um sumptuoso salão de festas. Na sala de baile da Quinta Vigia (antigo Casino da Madeira), outro triunfo difícil de igualar. E no Parque da mesma Quinta, entre o arvoredo verde e os canteiros floridos, o mais deslumbrado e retumbante de todos os êxitos. Perante uma multidão de quatro mil pessoas - e mais não cabia no recinto... Amália foi uma arrebatadora de emoções, acordando a alma de tanta gente humílima e simples, presa à sua voz de tristes modulações.
- Que lhe pareceu a actuação no Parque?
- Impressionante! Uma coisa assim como que a bulir cá dentro, pondo lágrimas nos meus olhos e lágrimas nos olhos deles... Não reparou? Mas não eram só os simples, aqueles que talvez fizessem um pouco de sacrifício para lá ir. Eram muitos dos outros, dos de boa gravata...
- É o seu condão, Amália. Sem qualquer artifício e muito de sentimento, convence os incrédulos e torna-os "amalistas".
- Foi, realmente, uma grande tarde, daquelas que dificilmente se podem esquecer...
- Tanto para si como para eles.
- Não, mais para mim. O impressionismo, nas multidões, é momentâneo, tem a fugacidade das brisas. Na artista, infiltra-se em todos os poros e fica arreigado à alma e à memória.
- Mas já tem experimentado sensações idênticas...
- Sim, tenho, mas vocês, os madeirenses, encostam-se mais ao coração, poem-me mais triste, mais íntima, mais amiga, mais vossa...
- Gratíssimo, em nome da grei.
E falámos depois de uma outra festa, na sede de uma agremiação regional, que tem por legenda cimeira esta negação dos seus princípios: "Nau sem Rumo". É uma colectividade de carácter recreativo e de beneficiência, por onde têm passado grandes figuras portuguesas e internacionais. Das nossas, recordam-se os nomes dos comandantes Quelhas de Lima, Sarmento Rodrigues, Celestino Ramos, Paulo Viana, e tantas, tantas outras, que seria fastidioso enumerar. Ainda durante as últimas festas do Fim do Ano estiveram ali e recitaram poesias Ramiro Guedes e Miguel Trigueiros.
Amália esteve também a bordo da Nau, onde almoçou e cantou. Depressa correu pela cidade a notícia desta visita. E a rua onde fica o edifício da "Nau sem Rumo" encheu-se de tal modo que o trânsito de automóveis mudou de rumo e foram precisos guardas da segurança pública para regular e conter tão improvisada multidão. E Amália cantou das varandas para a rua, antes e depois do almoço. A multidão começara a avolumar-se pouco depois do meio dia. Pois às quatro horas da tarde ninguém arredara pé, antes os aglomerados engrossaram, nesta rua e numa outra fronteira à mesma, com o trânsito totalmente interrompido.
- Uma impressão sobre a festa da Nau...
- Do cativante convívio, dentro da sede; de estupenda surpresa, na rua. Sempre o povo, o mesmo povo simples e bom.
- Vai, então, plenamente satisfeita da Madeira?
- Plenissimamente. Vou, mas uma grande consolação me anima: hei-de voltar.


Amália e Jaime Santos ao chegar à Madeira


Flama (29-8-1952) - noticia que Amália parte para a América (Nova Iorque - México- Nova Iorque).

Flama (1953) - publicidade à Hoover e à Lux.

Flama (20-3-1953, nº 263) - Amália nos Açores. Amália Rodrigues seguiu para o México com escala por Santa Maria, onde teve entusiástica recepção (na foto, aparecem Santos Moreira e Jaime Santos.)

Flama (1953, nº 296) - eleita a artista favorita.

Eva (Março de 1953) - festa de homenagem a Amália Rodrigues no Negresco.

Eva (Outubro de 1953) - publicidade à Hoover.

Estúdio (10-12-1953, nº 17) - "Amália, quis Deus que fosse o meu nome", por Diamantino Faria. Amália partiu do aeroporto de Sacavém para a Cidade do México. Antes, na "aerogare", alguns amigos despediam-se da artista envolvendo-a em flores: rosas vermelhas, negras... "Amália tinha um sorriso. De alegria, de tristeza? Só ela o poderia saber...
- Algumas palavras para os nossos leitores - pedimos.
Um olhar meigo, um semicerrar de pálpebras e a resposta:
- Vou, como sempre, com saudades, antes da partida... Voltarei dentro em breve. Chamam-me os deveres profissionais... e o coração. Especialmente este, sinto-o já a apressar-me o regresso."
Amália foi com Santos Moreira e Jaime Santos., o "trio famoso". Foto com o lavrador e fidalgo ribatejano José Palha.
O artigo recorda a Exposição Internacional de Artes Decorativas em Paris, 1947. "No Secretariado Nacional de Informação, António Ferro recebe o convite para a participação de Portugal no certame. Jorge Segurado desenha o projecto do "Pavilhão de Portugal". E Amália Rodrigues, já então aureolada pela fama, entre nós, é escolhida para ir mostrar aos estrangeiros de todo o Mundo o que é o "Fado". Este o seu primeiro êxito internacional.
Depois foi um errabundear pelo Mundo, colhendo louros sobre louros, de cidade em cidade, de país em país.
Amália Rodrigues conseguiu mesmo, a par de colunas e colunas em periódicos das mais variantes metrópoles, ser motivo de uma crónica do "mestre" André Maurois, nas "Nouvelles Litéraires"... Este é, talvez, o galardão máximo de que um artista português se pode orgulhar."

Eva (Dezembro de 1953) - "A casa de Amália Rodrigues." - de fora é uma casa anónima de quatro andares - trata-se da casa da Rua de São Bernardo. "Ambiente de linhas simples, conforto e bom gosto"

Flama (8-1-1954) - Amália ganha inquérito sobre qual a artista preferida.

Estúdio (5-2-1954, nº 21) - "Cada vez que o correio me traz notícias de Amália Rodrigues, sinto um frémito estranho, misto de ansiedade e prazer.
Nova Yorque... Madrid... Genebra... Dakar... Rio de Janeiro... A última, a mais recente, chega-me do México, remetida após a sua triunfal temporada em terras aztecas.
"Amalia Rodrigues, la exquisita artista lusitana" - assim lhe chamam os mexicanos, arrebatou por completo os auditórios que tiveram a felicidade de vê-la... e escutar a sua voz castiça, dolente, plena de magia.
Depois de actuar semanas a fio no "Versalles", - a mais elegante "boîte" da cidade do México - Amália partiu no passado dia 24 para Hollywood, contratada a peso de ouro pelo "Mocambo", o "night-club" das grandes vedetas do cinema californiano.
No dia da sua despedida do México, Amália brindou a Imprensa com um "cocktaill", servido nos luxuosos salões do famoso Hotel Del Prado. Esteve presente a fina flor do jornalismo azteca e Amália a todos atendeu com o melhor dos seus sorrisos.
Conversando com os seus convidados, Amália falou sobre a origem do Fado como lamento nostálgico dos marinheiros portugueses em viagem, na época dos Descobrimentos. Fado-Destino. E o Destino permitiu aos felizes assistentes que Amália os brindasse com alguns fados, emotivos e sinceros, que deram uma nota álacre e policroma àquela alegre reunião.
Falou sobre a sua viagem a Los Angeles, onde cumprirá um contrato até 15 de Fevereiro, seguindo em seguida, possivelmente, para o Brasil, para tomar parte com António Vilar no grande festival de Cinema de S. Paulo.
Amália Rodrigues apresentou-se nessa tarde aos cronistas, "joven, esbelta, perfecta de facciones y sencilla de trato" - no dizer pitoresco da Imprensa local. Trazia um vestido preto, de "cocktaill", um bracelete de brilhantes e um pequeno broche, verdadeira obra de arte. Contou saborosas anedotas relacionadas com a sua vida nómada de artista e desmentiu os rumores de certo romance real... Mas, o tempo corria célere, e aproximava-se velozmente a hora da partida.
A imperatriz do Fado deixou a terra mexicana. Partiu para a América do Norte. A estas horas estará, decerto, arrebatando os maiores nomes do Cinema Mundial. A mais portuguesa das artistas lusitanas é assim: simples, afectuosa, grande entre as maiores do Mundo!"



? artigo talvez desse ano - Amália no Rio entre portugueses, num não acabar de festas: pianista Varela Cid, Estrela Faria, nas soberbas residências de Fausto de Albuquerque e irmãos Lima Leal - decoradores triunfantes no Rio - Maria Sampaio...

Flama (9-4-1954) - noticia que Amália vem fazer férias a Portugal depois de cinco meses em vários estados americanos e que em Setembro lá deverá regressar.

Estúdio (20-4-1954) – “Encontro de Amália com Virgílio Teixeira na casa dela da S. Bernardo, às dez da noite, após cinco anos sem se verem. Amália Rodrigues chegou há semanas a Lisboa, vinda da América, onde foi actuar no Mocambo, conhecido e luxuoso "night-club" de Hollywood.
(...) "- Virgílio!... Como estás?"
Para nós voltou-se o olhar da Diva do Fado, a Amália que toda a gente conhece, que estendeu a mão que cumprimentámos.
"- Sabes, Amália, já tinha saudades deste cantinho tão acolhedor! Lembras-te..."
E Virgílio recordou aqueles tempos em que, em casa de Amália, se reuniam os amigos para o cavaco...
"- Que saudades, Amália.."
"- Há quanto tempo não vinhas cá?"
E com um sorriso malicioso, Amália acrescenta:
"- O galã agora já não quer saber dos amigos!"
Depois de comodamente instalados e de Amália nos ter servido uns "whiskies" a conversa tomou novamente o rumo interrompido.
"- Estás muito "guapa", sabes?"
Reparei então nas faces brancas levemente rosadas de Amália... Os olhos pretos, muito pretos... Um rosto bem proporcionado e resoluto... Um cabelo curto, levemente salpicado de cabelos brancos...
Amália estava, de facto, muito mais "guapa"...
"- Estou mais magra!"
"- Também já notei. Mas... fica-te bem."
"- Não gosto."
Amália não precisa de estar elegante para ser a "mais que tudo"...
Virgílio, voltou a atenção para o cabelo de Amália.
"- Não me fales no cabelo."
"- Está engraçado..."
"- E a embranquecer, também. Que saudades daquele cabelo comprido, farto e... preto."
"- Ora, ora... Ainda és muito nova!"
"- Com 33 anos..."
(...) Amália com a presença de Virgílio falava à vontade sem aqueles preciosismos e frases estudadas a que o jornalista está acostumado quando vai entrevistar algum astro. Virgílio, por seu lado, queria saber tudo e de tudo falava.
"- Conta-me coisas de Hollywood."
"- Que hei-de dizer? Hollywood é uma cidade igual a tantas outras com as suas vivendas e jardins cuidados, diferente de todas, com os seus artistas famosos. No fundo nada de excepcional."
"- E os artistas?"
"- Muitos artistas famosos, já velhinhos. Muitos artistas novos com carreiras prometedoras, etc."
E com ar de admiradora fervorosa:
"- Lá vi e falei com o "meu" Richard Wydmark..."
"- E que tal o público? Alegre?"
"- Desilusão total. São umas autênticas máquinas. Sentam-se, bebem... bebem... e só se retiram quando já não podem levantar-se."
(...) "- Disseram-me que vais fazer um filme com o Alberto Ribeiro..."
"- Ainda não sei. Sabes... tudo depende de certos pormenores que ainda não estão devidamente esclarecidos."
"- Mas ...Vais fazer um filme..."
" - Sim, cumprir uns contratos. Contudo, espero fazer, antes da minha partida, dois filmes..."
"- Com o fado de permeio..."
"- Não. Desta vez não haverá fados. Quero fazer duas altas comédias."
"- E que há sobre "A ÚLTIMA CORRIDA" com Manuel dos Santos?"
"- Nada farei. Incompatibilidades várias..."
Falou-se de Manuel dos Santos e Amália conta um caso curioso e interressante passado há bem pouco tempo, enquanto esteve em Hollywood:
"- A artista Jean Lidel, fervorosa admiradora de Manuel dos Santos, veio, certa noite, falar-me. Com grande espanto meu perguntou-me quando me casava com o Manuel. Julgava ela que estávamos enamorados. No final, pediu-me para cantar o fado "Confesso"...
Achámos o caso engraçado e logo o Virgílio conta alguns episódios da sua carreira. Foi assim, que a certa altura, surgiu uma pequena discussão entre os dois "astros" portugueses. Tratava-se dos direitos da mulher... Claro que tudo acabou em bem e eu, apesar de concordar com Amália, não deixei de dar, também, razão ao Virgílio.
Falou-se de público, de popularidade, de Fado e... Amália diz:
"- Já tinha saudades. Saudades deste público português, dos retiros de Fado e... desta Lisboa onde todos nos conhecemos."
Amália afirma-se cansada de não andar:
"- A popularidade, por vezes, é aborrecida. Para onde quer que vá seguem olhos, pessoas, como se se tratasse não sei de quê!... Resultado: tenho de andar sempre de automóvel."
As palavras de Amália fizeram-me recordar a sua entrada no "Palladium" na tarde daquele dia. Toda a gente falava de Amália ou por isto ou por aquilo. E depois os autógrafos... um estudante mais atrevido até comeu um bolo...
Mas a Amália, como artista compreensiva que é, tudo desculpa e... acha graça.
...E quando Amália ganhou o segundo jogo da Canasta, Virgílio, que às nove da manhã seguinte partia para Madrid, levantou-se e fez as despedidas. (...)"



Eva (Maio de 1954) -Amália conquistou o mundo!
"(...) há em Amália um lado que escapa a toda a observação e que contribui admiravelmente para o seu êxito: a capacidade de criar o imprevisto. Cantando, acontece-lhe galvanizar a assistência com um improviso, por vezes um subtil apontamento que modifica repentinamente o clima que a envolve. Falando, há nela um calor, uma simplicidade, que o humor e as suas qualidades de observação sublinham admiravelmente.
Mas também aqui há o imprevisto, a permanente revelação. E assim, na entrevista banal a que nos dispusemos quando a abordámos em sua casa, Amália alterou-nos de surpresa todos os planos, quando disse, a certa altura:
- Por mais estranho que pareça a muita gente, sou, na verdade, infeliz. Tive pouca sorte em nascer Amália e até agora jamais me foi dada oportunidade de me manter idêntica a mim mesma, de ser aquilo que de facto gostaria de ser.
Entre xícaras de café e cigarros, a voz de Amália Rodrigues vai lentamente desfiando uma série de pensamentos, coisas que ordena sem pressa nem entusiasmo. Não caberia aqui um comentário, um reparo.
Não. Amália explica-se a si mesma numa atitude de corajosa intimidade:
- Não passo, no fundo, de uma pessoa que obedece ao que lhe ordenam, a quem se contrata para ir aqui ou acolá e... nada mais! Por isso não posso gostar - como se julga - da vida que faço. Talvez um dia... sim, tenho esperança de que um dia possa vir a fazer a vida que ambiciono. Ir para longe, comprar uma fazenda no interior de África, realizar-me a mim mesma sem complexos, nem gente que me conheça. Até lá continuarei a ser Amália Rodrigues, fazendo muitas vezes das tripas coração para agradar aos meus admiradores... O trágico é que o público se esqueça muitas vezes de que eu sou também uma pessoa com direito ao meu cantinho ao sol, à vida de toda a gente - acrescenta no mesmo tom pausado.
Diante de nós sobre uma mesinha espalham-se centenas de fotos a testemunharem a carreira de um dos melhores êxitos artísticos portugueses. Abandonadas, indiferentes, Amália passa os dedos sobre elas num gesto vago:
- De resto, o homem é um animal extraordinariamente adaptável. Com maior ou menor esforço, o hábito acaba por dominá-lo e é nisso que está precisamente uma grande parte da sua tragédia. A certa altura, a vida perde o interesse, torna-se menos rica... Estas fotografias, por exemplo... À volta delas há por força várias curiosidades, pequenas notas que talvez me valesse a pena evocar. Mas não... para mim, as coisas acontecem dentro de uma cadeia de hábitos, de lugares-comuns. O Santos Moreira, esse sim, liga importância a tudo isso, sobre cada viagem recorda um mar de acontecimentos.
Uma por uma, vamos contemplando as fotos que temos diante de nós, marcadas com pequenas notas a lápis, datas, autógrafos, dedicatórias, carimbos de todos os continentes... É o filme da carreira de Amália que desfila diante de nós, mas as suas palavras falam-nos dela mesma, daquilo que só ela sabe dizer e que lhe enche os momentos mais íntimos:
- E sabe? É curioso como até à incompreensão nos somos capazes de habituar. Ainda há dias quando me encontrava com um grupo de amigos, um quiro-astrólogo conhecido me veio provar isso mesmo. Disse-me que era pouco económica, que tinha um coração grande, uma cabeça "assim, assim"... Não há dúvida, ninguém me compreende, nem mesmo os quiro-astrólogos...
No meio do fumo de cigarros, a voz de Amália suspende-se. É a mesma voz franca e sentida com que canta mas é, apesar disso, a voz de uma outra Amália - aquela que na intimidade tem um desabafo magoado, sobre aquilo que o público ignora da mulher que julga conhecer.
Fala Santos Moreira -
Santos Moreira, o "viola" que a tem acompanhado por todos os cantos do mundo é agora a "voz do público" que ouviu Amália em toda a parte. Por fora, observada nos palcos ou nas noites de boîte, o retrato da vedeta surge-nos delineado em dois ou três apontamentos que registamos aqui. Tem pois a palavra Santos Moreira:
- Amália Rodrigues é muito nervosa e antes de começar a cantar tem sempre um medo terrível. Em Nova Iorque, no dia da estreia, o medo contagiou-me também. Seria possível agradar a um público tão diferente que não entendia a letra dos fados, embora antes de ela cantar fosse feito um resumo em inglês do que cada uma dizia? Mas foi possível! A simpatia e o talento de Amália venceram tudo com uma rapidez incrível. No México a cena repetiu-se e aí com um estrondo fantástico! Gostaram tanto dela que a compararam a Lúcia Rey, a artista já falecida, que ainda hoje é o ídolo dos mexicanos. E não me posso esquecer que no último dia da nossa actuação no "Versailles", na cidade do México, fizeram-lhe uma homenagem empolgante: a orquestra executou a música que vai ao mais fundo da alma dos mexicanos, a célebre "Las Golondrinas" que o público ouvia no maior silêncio chorando e acenando com lenços...
Mas a maior comoção de Amália - julgo eu - correu em Roma num espectáculo organizado pelo Plano Marshall em que colaboraram as vedetas líricas de todo o mundo. O locutor anunciou-nos - uma fadista, um guitarra e um pobre viola - como intérpretes de uma expressão da arte popular portuguesa. O êxito ultrapassou também todas as expectativas. Obrigaram-nos a repetir quatro vezes, caso único naquela noite. Mas Amália estava exausta. Quando chegou ao camarim caiu sobre um divã e chorou, chorou convulsivamente..."



Santos Moreira e Amália

Propositadamente, tínhamos deixado a Santos Moreira o relato das pequenas memórias que Amália não revelou. Elas aqui ficam e, de mistura com as fotos que publicamos, são um complemento indispensável àquelas palavras melancólicas de uma mulher que conhece o público e que é por ela amada mas nem sempre compreendida."
Fotos:
- No "Versailles", a boîte elegante mexicana: Amália não só obteve a consagração de "primeira intérprete da canção mexicana" como foi televisionada pela maior estação da capital.
- No México: reunião de homenagem a Amália: Agustin Lara, o famoso compositor, Alzira Vargas, filha do presidente da República brasileira, Pedro Armendariz e Pedro Vargas, o cançonetista tão conhecido do nosso público.
- No Rio de Janeiro, o seu nome provocou enchentes na elegante "Night and Day" e foi o grande sucesso da rádio. Eis Amália Rodrigues naquela mesma "boîte" ao lado do director da Rádio Globo.
- Madrid já se habituou à sua presença. No "Moroco", Lenita Espejo, Lola Florez, Martin e Infante da Câmara, bebem à sua honra, depois da sua actuação naquele recinto elegante.
- Dakar recebeu-a festivamente. Os oficiais da marinha brasileira e os do navio português que ali se encontrava fundeado, organizaram uma recepção em sua honra.
- "La Vie en Rose". O êxito de Amália foi espalhado por todos os grandes jornais dos Estados Unidos. Um trato fabuloso que se repetiu por prazos consecutivos.
- Biarritz: No Casino Beleville o fotógrafo captou este belo instantâneo quando Amália cantava, acompanhada por Santos Moreira, para o Duque de Windsor. (Eva,1954: foto de Amália cantando no Casanova em Biarritz)
- Hollywood: Jeann Crain, Greer Garson, Rhonda Fleming e Jean Powell, vedetas internacionais do écran, prestam homenagem à vedeta internacional do fado.

Eva (Maio de 1954) - Amália, aquela desconhecida.

Estúdio (20-6-1954) Reportagem-entrevista de Neves de Sousa: "A mais humana das entrevistas com Amália"
"Num prédio vulgar da Rua de São Bernardo, em pleno coração do aristocrático bairro da Estrela, mora Amália, a maior artista portuguesa de todos os tempos, a única mulher que conseguiu transformar a melopeia dolente e bizarra do nosso Fado em instrumento melódico de nível internacional.
Cada vez que transponho os umbrais do 108 da Rua de São Bernardo, 2º andar, assalta-me uma estranha emoção, tanto mais forte quanto o motivo que ali me conduza. Mas Amália breve me põe à vontade. E, talvez só de tempos a tempos, eu recordasse que na minha frente, sentada naquele "fauteil" de cor grená, estava a diva do Fado, a portuguesa nostálgica e sentimental que deu à Canção Nacional a honra de correr mundo.

A quem Deus diz:
Cantar é o teu Fado!

"A arte em clarões fulge no teu olhar
Em ti, na raça, palpita a grandeza
Conquistando triunfos a cantar
Enalteces a gente portuguesa.

Na tua voz seráfica, a vibrar
Há requintes de ternura e beleza
com arte e graça sabes encantar
Seja a plebe, nobres ou realeza.

Alcançaste ser no Canto rainha
Nobre n'alma e bela como mulher
És ídolo dum Povo sublimado.

Estrela de Lisboa - a terra minha!...
Fadista a quem Portugal tanto quer
A quem Deus diz: Cantar é o teu Fado!..."

Este soneto singelo, simples como a alma saudosa dos lusitanos, ficará a assinalar a Amália a passagem triunfal por terras da livre América. Foi-lhe oferecido, na hora do seu regresso, por um grupo de funcionários da Casa de Portugal nos Estados Unidos da América.
Aquele grupo de faianças, que eu distingo artisticamente disposto naquele armário de vidro, é mais um rosário de recordações, das muitas em que é fértil a vida errante e nómada da mais nómada e errante das artistas lusitanas.
Uma guitarra... Um chaile negro... E, enquanto o relógio bate o seu tic-tac monótono e nervoso, Amália fecha os olhos e como que cai em transe. Então, é a minha altura de interrogar a bela e morena portuguesa, uma beleza estranha num moreno invulgar. Amália sussurra as respostas, quase tão devagar que o próprio silêncio que nos cerca cede o lugar à meditação. Então, Amália concede-me a mais humana das suas entrevistas...
Espanha... França... Inglaterra... Irlanda... Alemanha... Suiça... Holanda... Trieste... Dacar... Áfricas inglesa e francesa... Açores... Madeira... Angola... Moçambique... Brasil... México... Estados Unidos da América... Eis, a traços largos, o seu passaporte de artista internacional.
Ao princípio, receosa e tímida, tudo lhe parecia difícil. Agora, numa sequência de triunfais êxitos, tudo lhe parece normal, a ela que, pode dizer-se, ascendeu do nada ao ceptro de Rainha.
“Além de Raúl Nery e Santos Moreira, só eu e a minha fé. Faltavam poucos minutos para actuar, num palco enorme, com os focos crus dos projectores dissecando-me sem dó nem piedade.
"Se ao menos víssemos um português!" - disse-me o Santos Moreira. Palavras não ditas e irrompe pelo camarim um rapaz de Lisboa que se encontrava acidentalmente em Berlim. "Quis vir conhecê-la!" - disse-me. Apertei-lhe a mão como se estreitasse num elo muito forte a saudade que me avassalava, saudade de Portugal, de Lisboa, deste Tejo que me viu nascer e embalou os meus sonhos. O medo do público, o receio das apreciações, o espectro que pairava sobre a minha cabeça desapareceu como que por encanto. Daí a instantes, os próprios componentes da orquestra da Emissora de Berlim associaram-se ao êxito das minhas canções. Foi a primeira vez que tive medo!...
Há um breve silêncio que ambos aproveitámos para sorrir. O fumo do meu cigarro deixa no ar o traço fusiforme de uma grande espiral. Amália reclina-se um pouco mais e continua a sua divagação, como que folheando o invisível album das suas muitas recordações.
- Em Roma...
E eu fico a saber que na capital da Itália, num espectáculo sob a égide do Plano Marshall em que actuavam apenas artistas clássicos e - assim fora anuncida - como expressão de Arte popular a nossa Amália Rodrigues, a vedeta e os seus guitarristas (Santos Moreira e Raúl Nery) actuaram perante milhares de espectadores e à frente de perto de cento e cinquenta professores de música, componentes da Orquestra Sinfónica Nacional Italiana.
- Estávamos completamente deslocados. Os outros eram todos grandes artistas clássicos. Estavam presentes os maiores peritos de arte da Pátria de Miguel Ângelo e todos os críticos da exigente e conhecedora Itália. Tremia como varas verdes!... Só se podia cantar um número - tal a extensão do programa. Entrei em cena e o público foi tão carinhoso, tão amigo, tão acolhedor que eu cantei como sabia, com o sentimento e a expressão que nasceram comigo.
- E depois?
- Fui a artista que esteve mais tempo em cena: cantei cinco números perante os entusiásticos aplausos dos assistentes. E, tenho a certeza, mais cantaria, se uma crise de nervos não me fizesse - pela emoção do triunfo - entrar no primeiro camarim que encontrei e arrojar-me sobre um divã chorando como uma criança. Que grande triunfo ! Talvez o maior da minha carreira!...




O tempo continuava o seu declinar célere, veloz como Eolo. Lá fora, na São Bernardo, peixeiras e vendedeiras ambulantes apregoavam os produtos que tinham para venda. Os primeiros jornais vespertinos faziam a sua aparição no bairro. O ruido que, através das persianas semi-corridas, chegava até à salinha de estar da artista portuguesa que mais prestígio alcançou para a nossa Pátria desaparece, porém, sempre que Amália retoma a palavra.
Um "vermuthe" serve para a diva do fado afagar a sua voz, aquela voz de extraordinário timbre e magnífica limpidez que lhe tem valido uma das maiores carreiras dos anais artísticos portugueses. E Amália, olhos semi-cerrados, continua a falar.
Pelas suas palavras, noto distintamente a grande amizade que a prende a Santos Moreira, companheiro constante de 14 anos de glórias, triunfos e incertezas. E, já agora, uma sensacional novidade: Raúl Nery volta a tocar para Amália. De novo o mais apreciado guitarrista português é incluído na famosa trindade de êxitos onde o equilíbrio, a vontade e o entusiasmo formam uma avalanche irresistível e avassaladora.
- Na Irlanda...
Amália muda de assunto com a mesma facilidade com que canta. Vê-se que falar de assuntos puramente particulares não é, propriamente, o seu forte e, do meu lado, não será também muito correcto. Por isso, a transição da vedeta desvia o curso das suas ideias para o país dos verdes prados, a bela Irlanda que Ford cantou em "O Homem Tranquilo".
- Na Irlanda...
Passo a passo Amália fixa na retina da sua recordação o filme daquela noite. "Depois de um susto na viagem de avião..."
O ministro português anima-a, entusiasticamente, antes da sua actuação, de tão grande responsabilidade como todas aquelas em que Amália Rodrigues representa as cores de Portugal. Faltavam apenas três artistas para a portuguesa entrar em cena.
Actua Anne Shelton que se faz acompanhar de uma orquestra vinda expressamente dos Estados Unidos. A popular vedeta do Cinema, Rádio e Televisão americanas canta três melodias, abrindo uma excepção no programa que apenas admitia uma interpretação por cada artista. Seguem-se, como penúltimo número da velada de Arte, a actuação de um famoso duo de bailarinos acrobáticos ingleses e... é a vez de Amália
Entra em cena sem decotes exagerados, simples, discreta, elegante no seu vestido negro. Um xaile cobre-lhe os ombros e um sorriso rasga a sua boca. E Amália canta uma, duas, três... seis vezes! Seis vezes em que, por absoluta insistência do público, Amália arranca, naquele gigantesco desfile de "astros", a maior ovação da noite, lídima apoteose à Nação lusitana e à primeira das suas embaixatrizes artísticas.
Lutando, entusiástica e pertinazmente, contra a tradicional má fama e a pouca categoria musical do Fado, Amália tem conquistado os públicos de todas as latitudes. Ainda, muito recentemente, as suas actuações perante as exigentes plateias mexicanas e norte-americanas ficam como duradoiros marcos na estrada que Amália tem atapetado de flores, música e aplausos.
No México, por exemplo, comparam-na a Lúcia Rey - diva daquele belo país. Chegou a haver curiosidade em tentar descobrir-se se Amália não seria oriunda do México, tão bela era a sua maneira pessoalíssima de cantar, tão harmoniosa e correcta era a sua pronúncia marcadamente mexicana.
Se Amália fosse francesa, suplantaria em prestígio a própria Edith Piaff. Todos os públicos reconhecem esta afirmação, quer ela provenha - no dizer do gracioso soneto com que abrimos esta reportagem - da plebe, dos nobres ou da realeza. Pode, até, acrescentar-se que, onde canta Amália, palpita e vibra o coração sentimental desta terra de amores.
"Fallaste, corazon!"... "La vie en rose"... "Lisboa, não sejas francesa"... "Lá vai Lisboa"... "Ai, Mouraria"... "Tudo isto é fado"... "Gorrioncito de pecho amarillo", de Tomás Mendes... Eis algumas das canções que nesta última "tournée" em terras do Novo Mundo ajudaram a consolidar os cambiantes da sua excepcional gama de êxitos.
Em Acapulco, um mexicano que a ouvia tentou apostar importante quantia em como Amália era descendente dos Aztecas!... Este movimento espantoso em torno da morena vedeta lisboeta criou-lhe no México a mesma aura de popularidade que a cerca no dia-a-dia vulgar desta cidade capital do Império.
- Porque não foi ao Festival de cinema de São Paulo?
Sempre no mesmo ar despreocupado, de natural à-vontade, Amália esclareceu os pontos mais salientes da minha curiosidade jornalística.
- Tinha importantes contratos a cumprir em Hollywood - tão importantes que o conhecido empresário norte-americano Morrison deslocou-se, propositadamente, da Meca do Cinema a Acapulco para assegurar a minha presença em terras americanas. Mas, realmente, foi pena que eu não tivesse visitado de novo a florescente capital do café.
O poder de insinuação de Amália está latente no menor dos seus gestos. Continuo a escutá-la como se escuta uma rainha e continuo a contemplá-la como se, na realidade, fosse o meu ídolo. E Amália, quase ao sabor inconstante do acaso, prossegue:
- Fiquei muito grata à colónia espanhola no México. Os espanhóis, franceses e americanos, lado a lado com os próprios mexicanos, tudo fizeram para que eu me sentisse no México como em Portugal. Mas, quando parti para os Estados Unidos, já ia roidinha de saudades!... E, na América do Norte...
Na América do Norte, Amália cantou e deslumbrou. De San Diego (Oakland) vieram dezenas de portugueses a Hollywood para contemplarem e aplaudirem a cantadeira da voz nostálgica e sentimental, que lhes fazia acorrer lágrimas ao rosto, recordando a Pátria distante que a saudade abraçava.
A sua estreia em Hollywood foi um acontecimento, um daqueles raros factos que, na capital da Sétima Arte, conseguem atrair as multidões. Jeann Crain... Rhonda Flemming... Jane Powell... Greer Garson... Charles Coburn... Grandes vedetas da tela branca fizeram questão de se retratar com Amália
- Havia também um velhote que costumava fazer papéis de "sheriff"...
Amália não liga à publicidade. O seu cartaz cimenta-se na sua voz, não no que dizem ou escrevem sobre ela. Outra qualquer teria álbuns e álbuns cheios de fotos e autógrafos. Amália, não. O seu valor vem mesmo da sua modéstia natural e tímida... Pois se ela nem se lembra dos nomes... e, de Hollywood, traz apenas meia dúzia de retratos!...
- Todos, todos foram muito meus amigos. Contudo, uma palavra à parte para o consul de Portugal que, frequentemente, me recebeu e aos guitarristas, na sua linda residência. Que pena a colónia portuguesa estar tão dividida em clubes e facções diversas!...
É preciso, realmente, muito estofo para conquistar a América. E Amália, Senhora e Artista, alia à sua natural modéstia uma classe e uma categoria artísticas que dificilmente podem ser igualadas e muito menos suplantadas. Lutar, lutar sempre, tem sido seu lema! Hoje, cerca de quinze anos após a sua estreia, Amália é um recorte luminoso no plúmbeo firmamento da vida artística portuguesa.
No famoso Waldorf-Astoria realiza-se anualmente um grandioso festival organizado pela melhor sociedade americana. Desfilam os mais escolhidos modelos dos grandes costureiros novaiorquinos e, não raras vezes, as damas de melhor linhagem são os próprios "manequins". A esse festival dão o seu gentil concurso nomes mundialmente famosos do Cinema, da Rádio e da Televisão e, aproveitando a presença da nossa Amália em terras americanas, a comissão organizadora - instada pelo Barão de Roseinstock, português de alma e coração - convidou-a a cantar também um número.



Juntamente com Santos Moreira, Amália - depois de medir bem os prós e os contras - decidiu não comparecer. Razões: receio de o Fado não agradar, a grande extensão do programa que apenas permitia que cada artista tivesse uma breve intervenção, e a grandiosidade do festival, que principiava a meio da tarde para terminar altas hortas da noite.
Já quando os organizadores concordaram em que seria melhor Amália não actuar, o Barão de Roseinstock pediu à artista portuguesa para cantar, baixinho, só na sua mesa, para experimentar a voz e os microfones... Amália, timidamente, acedeu.
Desde esse momento ninguém mais a dispensou. Jantou no Waldorf e nem tempo lhe deixaram para mudar de vestido! Com a sua actuação findou a magnificiente parada de "estrelas", cantando quatro números com o público de pé, sob estrondosos aplausos. Note-se que foi de tal ordem o sucesso de Amália, que foi compelida a prosseguir - ao terceiro número tinha abandonado o palco - correspondendo, assim, ao agrado da sua apresentação.
- O teatro do Waldorf é, pelo menos, oito vezes o "nosso" Maria Vitória e eu sentia-me tão insignificante!...
É assim Amália! Um prodígio de Arte que irradia simpatia a jorros!
Amália não saboreia a recordação. O seu cérebro é uma amálgama de pensamentos díspares, onde a vaidade e o orgulho não têm lugar. Fala-me, em seguida, do cinema americano para dizer:
- Se visse! Na "Paramount" construiram um prédio de dez andares apenas para filmarem dois "planos"!... Ao pé daquelas instalações, os nossos estúdios seriam simples anexos!...
Quase sem querer, fiquei a saber que, entre os empresários do Waldorf, Amália era tida como uma das cinco damas mais distintas do Mundo! E foram eles os próprios a oferecerem à artista portuguesa um esplêndido contrato para trabalhar em Paris, no Teatro e na Televisão.
- ...que eu cumprirei um dia. Agora, quero descansar um pouco. Uma vez por outra, trabalharei em público: no "Luso", no "Comboio das 6 e meia"... Enfim, irei matando saudades da minha Pátria!
- E cinema?
- Nada de positivo. Mas, se fizer alguma película será com o Alberto Ribeiro, um esplêndido camarada que muito admiro e um grande artista. Em Setembro, porém, voltarei ao México e darei um salto ao Brasil.
Depois, já quase a despedir-me, ainda Amália me interrogou sobre Maria de Lourdes Resende e Tony de Matos - os dois cançonetistas que mais aprecia - fala-me entusiasticamente de touros e do "Belenenses" e tem para a "Estúdio" palavras de desvanecedora atenção.
Deixo a rua de São Bernardo quatro horas depois de ter entrado em casa de Amália E, tarefa por demais ingrata, só acessível a perfeitos "jongleurs", multifacetar qualquer das faces do prisma artístico de Amália Rodrigues, e eu sou, pura e simplesmente, um apaixonado indefectível da arte prodigiosa da mais simples e desafectada das grandes artistas mundiais, a morena portuguesa que um dia partiu à conquista do Universo.

ibidem - Amália foi a almoço, a 31 de Maio, oferecido por Marques Vidal no elegante restaurante "SMARTA" para comemorar o segundo ano de publicidade em exclusivo na Rádio Voz de Lisboa das Produções Marques Vidal.

ibidem - Amália na estreia do filme espanhol "Condenados", aquando de uma embaixada de actores e actrizes espanhóis à capital. Amália estava aborrecida por ter perdido um brinco que lhe haviam oferecido. Não achou interesse algum no filme. Quanto ao actor Luiz Mariano, que não viera, declarou: - "Não faz falta nenhuma. É uma desilusão. Tive oportunidade de o ver trabalhar no México e ... nada de especial encontrei nele..."

Eva (Setembro de 1954) –“ Amália na Nazaré a filmar "Os Amantes do Tejo" - é a grande estrela na Nazaré, suplantando em muito os protagonistas do filme, Daniel Gélin e Françoise Arnoult. "Ali, santo Deus! É coisa de meter polícia... De toda a parte vêm crianças e sujeitos circunspectos para ver as celebridades e enquanto Gélin e Françoise se esgueiram no meio de uma multidão de canetas em punho, Nazaré em peso faz procissão atrás de um sorriso mais alegre que o próprio sol da tarde: Amália!
Tocam-na, fotografam-na, lançam-lhe cumprimentos tímidos, seguem-na pelas ruas aos empurrões, contra os polícias e contra o trânsito. Amália caíu nesta praia com mais surpresa do que a quase mítica mala de que fala a cançoneta e a lenda da sua aparição começa prontamente a tecer-se:
- A Amália vem cá passar as férias...
- Não. Vem apenas filmar.
- Mas fica. Já reservou quarto no hotel...
- Tem os cabelos louros. Que pena, não é?
- É por causa da fita...
Amália, Amália... - por todo o lado o nome corre com as pessoas. Um pescador já entrado nos anos avança, estende o braço num gesto de calma autoritário:
- É uma honra para esta linda terra da Nazaré ver vocemecê no meio da gente...
Não lhe deixam acabar o discurso. Uma mulherzinha avança com a filhita a reboque:
- Vá. Cumprimenta a Senhora D. Amália, menina...
E um cauteleiro cego aproveita logo a pausa:
- Senhora D. Amália... - vai também começar discursata. Um polícia evita-lhe o trabalho e Amália escolhe um bilhete inteirinho para a taluda da semana...
Saíu branco mas por vontade do vendedor teria como recompensa a praia da Nazaré com toda a admiração que por ali vai pela primeira vedeta da popularidade de todos os tempos.
(...) Uma rapariga franzina no meio de alguns camaradas de férias toma a dianteira e procura vencer a concorrência. E venceu.
- Amália! Uma fotografia, Amália!
E já está de "kodak" apontado. Mas de repente um grupo lança a ideia e a rapariga fica suspensa. Uma fotografia com Amália, um testemunho dela ao lado de Amália!
Amália concorda, a jovem perde o controle, tira os óculos, sacode a saia, treme e sorri, ajeitando-se ao lado da vedeta numa pose o mais possível íntima. E quando acaba de ouvir o "clic" do disparo do "kodak" não resiste a uma expansão de reconhecimento:
- Obrigada, Amália! Era o maior sonho da minha vida... Obrigada...
Afasta-se às arrecuas, sorrindo e agradecendo sempre o ter-lhe sido proporcionado a realização do seu grande sonho. E não pára:
- Obrigada, Amália! Obrigada, Amália!
Num canto perdido, Jean Roy gravou o momento deste desejo anónimo para talvez em breve o dar a conhecer a milhões de leitores do maior magazine europeu..."

Estúdio (30-9-1954) - "Últimas filmagens de "Les Amants du Tage"! - o jornalista Duarte Ramos assiste às filmagens em Alfama. "Naquela manhã, eram 8 horas e 30 minutos e já Amália se encontrava na R. Rodrigues Sampaio para se caracterizar convenientemente.
(...) Finalmente, estava tudo acabado. Amália junto de mim tentava exaltar a sua alegria.
- Está satisfeita, não é assim?
- Muitíssimo!
- Que tal o trabalho dos franceses?
- Excelente. Além de grandes artistas são óptimos colegas e amigos. O realizador é estupendo. Estou deveras encantada.
- Muito bem. Que se segue depois de "Les Amants du Tage"?
- Ora, lembre-se que "Les Amants du Tage" ainda não terminou. Domingo partirei com a equipa para Paris onde irei filmar os interiores e gravar as canções. Sabe que eu, no filme, canto três canções!..."
- Sim, sim. Novas canções, não?
- Assim não sucede, pois trata-se da "Severa", "A Canção do Mar" e "Mãe Preta".
- Que papel desempenha na película?
- O meu papel é puramente acidental. Sou a dona de uma casa de Fados e apaixono-me por um "chauffeur" (Daniel Gélin) que se encontra em Portugal. Este, porém, encontra uma turista (Françoise Arnoult) por quem se apaixona e resolve abandonar-me...
- Coitada!...
Amália sorri com a minha exclamação.
- Disseram-me que a música de fundo é executada por guitarristas e que a ideia é sua. É verdade?
- É, sim. Fui eu que a sugeri a Henri Verneuil.
- Amália!... Amália!...
Daniel Gélin procurava a artista. Tive que terminar a conversa.
Pouco depois, todavia, fui encontrá-la na escada de um velho prédio, rodeada de admiradoras. Contudo, não lhe pediam autógrafos, como era de esperar. Desta vez, mediam a sua altura com um cordel. É que uma fervorosa admiradora da artista, tinha prometido oferecer, se a filha se curasse, uma vela da altura de Amália, a uma Santa de sua devoção. E a promessa devia ser cumprida!...”





Flama (15-10-1954) - Amália participara no dia 18 no Coliseu na festa de homenagem ao nadador Baptista Pereira, assim como Alberto Ribeiro.

Flama (29-10-1954) - crítica acérrima a Amália por esta se ter vindo a desculpar por não poder participar na tal festa, acabando mesmo por se recusar, alegando ter contrato exclusivo com o Casino Estoril. Diz que tivera comportamentos semelhantes para com a festa de beneficiência pelas viúvas e orfãos da Índia Portuguesa e várias vezes faltou ao "Comboio das Seis e Meia". Mas que ia actuar em festas finas, ao contrário da Hermínia que prescindia do próprio descanso para participar em festas de beneficiência.

Estúdio (20-12-1954) - Vernueil concluiu "Os Amantes do Tejo".

A Voz de Portugal (30-12-1954) - "Veio há pouco de França, onde filmou, cantou meia dúzia de vezes em Portugal e vai partir novamente. Os empresários de New York e do México esperam-na, mandam-lhe telegramas com resposta paga...
- Amália vai partir?
- E já tenho saudades de Lisboa...
- Saudades?
- Saudades da Lisboa das cantigas, das noites de Junho e da Festa de Santo António. Parto em Fevereiro."

Eva (Janeiro de 1955) - o argumento de "Os Amantes do Tejo".

Eva (Julho de 1955) - publicidade a produtos de beleza Thaber.

Flama (2-2-1955) – “Amália vai casar? O jornalista António Maia de "O Globo" denuncia o casamento próximo de Amália com o filho de um diplomata em serviço no Brasil. Há dois meses, Amália partiu com Celeste e Odete sem contratos a cumprir. Depois de alguns dias na capital brasileira deveria rumar à Venezuela, Cuba, México e Estados Unidos mas retardou a partida. Há quem diga que tal atitude é consequência de quebra de popularidade entre nós e porque já não consegue encontrar empresário que lhe pague aquilo a que está habituada. No Brasil, dizem que tem cantado como nunca, com muito mais sentimento do que era habitual. Pessoas em Portugal que com ela convivem há muito apostam em golpe publicitário, não acreditam num provável casamento, pondo em dúvida que ela seja capaz de trocar a "sua Lisboa" por qualquer outra cidade do mundo, pois tem recusado muito boas ofertas para não estar afastada muitos meses da nossa capital.”

Eva (Setembro de 1955) – “Amália Rodrigues, depois do êxito estrondoso da sua "Severa", foi descansar, acampando na Carvoeira, com as duas irmãs e alguns camaradas de Teatro. É um acampamento primitivo e, para ter um cunho mais original, todas as tardes os acampados se vestem e se tatuam como peles-vermelhas... Nas cristas do terreno mais próximas, os indígenas da Carvoeira vêm observar aqueles estranhos veraneantes, que dançam, pulam e soltam gritos como os "comanches" e os "sioux". É Amália, a eterna criança mimada e simples, que se diverte e que brinca!” (foto de Amália vestida à índia)

Eva (Outubro de 1955?) - participou na festa de beneficiência dos Condes de Paris.

Estúdio (nº 68, 20-1-1956) – “Na apresentação de "Abril em Portugal", com a assistência dos srs. Ministros da Presidência e da Edição Popular, presidente da Câmara Corporativa e subsecretário de Estado da Educação Nacional e do Tesouro, que no Tivoli eram aguardados pelos sr. dr. José Alvellos, Secretário Nacional da Informação e dr. Jorge Felner da Costa, chefe da repartição de Turismo e S.N.I., realizou-se a passagem do filme "Abril em Portugal", que a empresa Wawoik Film Productions produziu quando entre nós esteve José Ferrer e a sua equipa a dirigir para aquela empresa o filme "Heróis em Casca de Nós". Esplêndido documentário a cores e em cinemascópio, dirigido por Enan Lloyd, e tendo a colaboração da artista inglesa Jackie Lave e de Amália Rodrigues e do matador de touros António dos Santos, constitui um notável elemento de propaganda do nosso país. "Abril em Portugal" será exibido em 1.300 cinemas ingleses e 15.000 salas dos Estados Unidos. Prevê-se que 50.000 cinemas em todo o mundo projectarão aquela curta metragem."

Flama (3-2-1956) - Amália desmente notícia em "A Voz de Portugal", do Rio de Janeiro, ao qual concedeu uma entrevista. Afirma que não pensa casar, nem sequer está apaixonada. "Foi tudo uma brincadeira". Os portugueses do Brasil criticam-na por cantar sobretudo canções brasileiras, espanholas, mexicanas e americanas.

Flama (20-4-1956) - No passado dia 11, Amália Rodrigues ofereceu uma recepção no "Maxim's" a centenas de convidados, entre os quais o Embaixador de Portugal, o escritor Pierre Benoit, Paulo Osório, José Augusto, Christine Garnier, etc. Na foto, Amália conversa com o Sr. Dr. Marcelo Martins, Embaixador de Portugal.

Eva ( Abril ou Maio de 1956) - Reportagem de Olavo d' Eça Leal. Amália estreou-se no "Olympia no dia 12 de Abril de 1956. "Amália canta... e Paris acredita! Uma sensacional reportagem de Olavo d' Eça Leal.
A nossa Amália andou ao colo de Paris como se fosse um bebé gorducho e bonito que faz gracinhas. Em toda a parte e em todos os seus espectáculos no "Olympia" bastava-lhe chegar... e logo se espalhavam sorrisos de simpatia, expressões de curiosidade, de admiração, talvez algumas de ciúme... porque a Amália é uma espécie de Casanova intelectual, que se serve da sua arte singular para dominar... e passar.
Um amigo meu francês, protótipo do bom burguês parisiense, disse-me à entrada: "Me voilà... para ver e ouvir a sua Amália. Venho principalmente vê-la... porque a ouço todos os dias e gosto de saber com quem lido!"
Isto é verdade. Os franceses ouvem a Amália, desde que começou a correr nos "écrans" de Paris o filme "Amantes do Tejo" em que ela canta várias canções e fados. O "microsillon" da Amália, que concentra dez trechos dos melhores do seu reportório, existe em todas as discotecas de emissores e em todas as casas onde há um pick-up.
O programa da Amália não é só o que cumpre no Olympia. São muitos os programas de representação que a sua categoria a obriga a desempenhar, e estes, os que não estão no contrato, tornam-se mais fatigantes e absorventes. Em dez solicitações, a Amália tem de esquivar-se a nove. O quadrante do relógio não lhe permitia agir de outro modo. Na fotografia que publicamos, o Sr. Embaixador de Portugal em Paris, Dr. Marcelo Matias, pede à Amália que esteja presente ( e cantante...) numa recepção que dará em honra dos Srs. Condes de Paris. Naquele dia e àquela hora, a Amália não pode ir e, para provar ao Sr. Embaixador que não pretende fugir, promete-lhe cantar até ficar rouca num chá muito íntimo, muito Amália, que se improvisará, propositadamente, no sábado, também nos salões da Embaixada.
A Amália chegou a Paris no Sud de segunda-feira, nove de Abril. A intérprete de "Avril au Portugal" chegou em Abril a Paris. Teve na Gare d' Austerlitz uma recepção de que poucas personalidades mundiais se gabam de ter. Uma legião de fotógrafos torturou a nossa fadista com "poses" de "magazine"; amigos e desconhecidos saudaram-na com barulho, flores, abraços.

"Amalia Rodrigués serait heureuse de vous recevoir chez Maxim's, mercredi prochain..." Era assim que principiava o texto impresso do convite de Amália ao "tout Paris" das artes, da sociedade e da imprensa, para um Porto de circunstância, no primeiro andar do famoso Maxim's da Rue Royale. Os convites foram disputados a tiro. Não se podia romper na quarta-feira marcada pelo cartão e, para atingir a Amália com os "flashes" da Eva, tive de acotovelar vedetas, compositores, diplomatas, a fina flor dos portugueses de Paris e, por fim, o belo Chatenet, secretário do Olympia, que defendia o último reduto, o lado de lá do piano, onde a Amália se refugiara, tímida, atraentemente decotada, simplória, bonita, aterrorizada com a estreia do dia seguinte, em que ia desafiar Paris.
Fiquei do lado de cá do piano à espera que terminasse uma espécie de diálogo de domingo, travado entre Amália e José Augusto, director da Casa de Portugal em Paris que, além de ser muito amigo dela, sempre avaliou a importância de uma Amália gravadíssima em discos e "bem rodada" num music-hall célebre dos grandes "boulevards". Ele sabe ( e discutimos o caso na noite da sua estreia) que uma só actuação de Amália no Olympia tem mais valor do que três toneladas de prospectos coloridos falando das belezas da nossa terra, distribuidos nos hotéis, nos ministérios do Quai d' Orsay e nas agências de viagens.
Terminado o diálogo, a Amália estendeu-me as duas mãos por cima do piano trincheira, com uma exclamação de surpresa que fez rir a assistência. Disse-lhe que tinha de obedecer ao fotógrafo. Não foi preciso. Com perfeito sentido profissional, já ele disparava o primeiro instantâneo no momento em que a Amália voltava a cabeça para ver quem era o brincalhão que se tinha lembrado de se pôr em pé em cima duma cadeira... E não deu por nada também quando o segundo relâmpago registou o seu encontro com o Sr. Embaixador.
À despedida prometi à Amália que ia assistir à sua primeira exibição no "Olympia". E garanti-lhe que daria "urros" no final de cada número. "Acho óptimo - respondeu - mas peço-lhe que dê urros em francês... para não pensarem que é claque."
(...) Por um golpe de sorte, consegui um lugar à última hora quando, resignado, me dispunha a comprar um "promenoir" como aconteceu a muito boa gente, se quis ouvir Amália na primeira noite. A casa estava passada, uma semana antes da estreia. Comprei o programa para ver como tinham "colocado" lá a nossa Amália. Fiquei satisfeito. No meio de tantas vedetas, a Amália tinha o maior número de páginas, de referências e um retrato inteiro. Reproduzimos algumas dessas páginas para os leitores ficarem com impressão mais completa. Os "foyers" do "Olympia" pareciam os do São Luís ou do Tivoli numa noite de enchente. Falava-se português em toda a parte; encontravam-se pessoas conhecidas...
Os portugueses assistiram um tanto enfastiados aos primeiros números. Queriam a Amália; era por ela que tinham entrado na sala. Por fim, a deliciosa Monique Tanguy, apresentadora dos números, anunciou Amália Rodrigues!... e imediatamente a sala inteira deu uma prolongada salva de palmas, ainda antes de abrir o pano para dar entrada à artista. Nas primeiras duas canções Amália mostrou-se um tanto nervosa, embora tentasse disfarçar. Devia ter acontecido o mesmo ao Manuel dos Santos quando lidou os primeiros touros na Monumental de Madrid... mas, terminados os números previstos, Amália cortou orelhas e rabos e deu três voltas na arena difícil, dura, dos palcos de Paris. Foi uma ovação tremenda! E eram espectadores franceses os mais entusiastas, e foram eles, pronunciando-os como sabiam e podiam, que gritavam os nomes familiares: Mouraria... Barco Negro... Solidão... Uma Casa Portuguesa (em francês: Quand Je Danse Dans Tes Bras).



Amália bisou e trisou, o que foi fora dos hábitos do "Olympia", que tem os seus tempos meticulosamente marcados com rigor, só permitindo que se alterem as regras quando se sente que o público o exige imperiosamente. Foi o caso. Depois da segunda "reprise" a orquestra atacou um fragmento de diversão, furioso e ruidoso, mas o público continuou, por largo espaço ainda, a premiar aquela estranha rapariga que eles compreendiam tão bem, embora lhes cantasse numa língua desconhecida. Já ninguém ligou importância, claro, ao número de encher (dois bailarinos de salão) com que terminou a primeira parte do programa. Atrás de mim, um português que assistia ao espectáculo, acompanhado de sua mulher, disse em voz baixa: "Obrigadinho, Amália!...". Levantei-me para o cigarro do intervalo e para os comentários com os amigos. Só então vi nas filas de trás da plateia, apagados, modestos, felizes nos seus trajes de domingo, alguns operários portugueses que não quiseram faltar à voz portuguesa que os chamava. Falei com eles. Dois tinham vindo de Lyon, de propósito. Gastaram naquela peregrinação de Saudade o salário de uma semana de árduo trabalho! A Saudade... a andorinha negra da Saudade que chegara a Paris numa tarde de Primavera, trazendo consigo a memória acre-doce da nossa gente, das nossas coisas, das nossas ruas..."
Texto do programa redigido por Maurice Carrere: "Todos quantos a viram cantar, conservam no seu coração a recordação inolvidável da bela Amália.
Visto que são os Amigos do Olympia que "patronizam" este espectáculo, reivindiquei a honra de vos apresentar Amália Rodrigues. Tornei-me o mais fervoroso admirador desta grande artista no dia, já longínquo (e até aqui o único) em que ela cantou em Paris para alguns privilegiados reunidos na minha casa (chez moi) pela Embaixada de Portugal. Em França, ela cantou ainda em duas galas que organizei em Biarritz, com Denise Tual. Mas eu sonhava em fazê-la aclamar por Paris. Era difícil; Amália Rodrigues é uma vedeta muito grande. Em Portugal e na América do Sul ela é aquilo que Edith Piaf é em França e nos Estados-Unidos: a maior. (...).”

Flama (18-5-1956) - Assinalam o triunfo de Amália no Olympia de Paris; passou a ser a principal atracção embora não fosse "cabeça de cartaz". Renovaram-lhe o contrato e será então "cabeça de cartaz". A Flama retrata-se: "Já houve quem erradamente afirmasse que existe da nossa parte antipatia ou 'coisa parecida' para com esta artista. Não somos de rancores..."

Eva (Junho de 1956) - "O êxito mais palpitante da temporada de 1956 no "Olympia" de Paris, o mais categorizado "music-hall" do mundo, onde se fazem e desfazem as grandes reputações, foi Amália Rodrigues.. (...) Amália, com a intervenção de Erico Braga, seu grande amigo - fez um contrato inicial de três semanas com o "Olympia". O êxito foi tal que Coquatrix, o empresário, prolongou esse contrato por outras três semanas. Caso único na história do "Olympia"! Estava vencida a batalha. Surgiram logo contratos de toda a parte. Para já - Madrid, em Junho. No mês seguinte, Monte Carlo e Nice. Em Janeiro de 1957, voltará ao "Olympia". Depois, fará uma volta pela província francesa e consecutivamente actuará na Bélgica, Suíça e Holanda, durante seis meses. Seis meses que lhe renderão 1.800 contos! Uma bonita soma, francamente! Mas Amália é uma sentimental e rejeitou diversos outros contratos para poder voltar a Portugal, antes de iniciar a sua volta à França... e à Europa. E assim, em Agosto e Setembro deste ano, vê-la-emos actuar em números especialmente escritos para ela numa revista popular do Teatro Variedades.”

Eva (Julho de 1956) - baptizado da sobrinha Maria Rita, filha de Celeste e Varela Silva.

Flama (7-12-1956) - Amália Rodrigues, há meses a trabalhar no Brasil onde nesta altura já terminou os contratos, queixou-se aos jornalistas da flagrante falta de carinho por parte da numerosa comunidade portuguesa residente. O jornal português "Lusitano" (?) (São Paulo) responde aconselhando Amália a não se limitar a certos grupos com os quais emparelhou mal desembarcou e a ser "mais atenciosa" para com os portugueses que lá vivem saudosos de Portugal, se deseja receber retribuição.

Flama (18-1-1957) - Amália Rodrigues vai casar. Sabíamos (de fonte segura brasileira) que de facto existia qualquer coisa mais do que amizade entre Amália e o milionário e importante industrial César Seabra. Sempre que jornalistas abordam o assunto, Amália furta-se a falar do assunto. Hoje confirmamos que pensa em casar e que o casamento se realizará em breve. Numa entrevista à "Radiolândia", Amália deu a entender que, se casar, abandonará a vida artística (foto: Amália e César).

Eva (Março de 1957) - publicidade a produtos de beleza Thaber.

Eva (Maio de 1957) - Homenagem a Amália no Tivoli: "Amália riu de alegria, cantou, chorou de comoção, há dias, no palco do Tivoli. Não havia um único lugar vago na sala. Amigos e colegas de Amália, artistas, directores de casas de espectáculo, até os pais dela, todos ali foram para lhe levar o carinho da sua presença amiga. Porque o público gosta de Amália, todos gostam de Amália. Ela é um fenómeno nacional e internacional. O nosso público, tão avesso a todo e qualquer entusiasmo, tão silencioso, tão retraído perante os artistas, mesmo perante aqueles que mais admira, acordou do seu letargo, há já uns quinze anos para a aplaudir. Que o seu entusiasmo não arrefeceu com o tempo, antes pelo contrário, foi aumentando cada vez mais, provou-o no Tivoli com a sua presença e com as palmas e flores com que premiou a artista quando ela repetiu para o público de Lisboa o seu Tour de Chant do Olympia."

Flama (5-7-1957) – “Um empresário de Moçambique, Benjamim Lopes da Silva, veio a Lisboa para contratar Amália. "Vamos arriscar uma pequena fortuna devido ao elevado "cachet" que Amália vai cobrar, acrescido de três passagens de avião, hospedagem no luxuoso hotel Polana e ainda as despesas inerentes à organização de seis espectáculos, o que deve totalizar a importante soma de trezentos e vinte contos. (...) confiamos em que a sua enorme popularidade fará com que o público acorra e, desta maneira, seremos compensados (...) Não foi nada fácil contratá-la e as negociações arrastaram-se por dois meses. Existia uma proposta da Venezuela para a mesma data." Intervenção de Erico Braga encaminhou o assunto. Amália exibir-se-á na Beira e Quelimane em espectáculos únicos. Em Lourenço Marques actuará no magnífico estádio Magalhanense, excelente recinto coberto, com capacidade para 3.500 pessoas.”

A Voz de Portugal (31-5-1957) - artigo de Alberto Mourão: "Amália em Moçambique.
Escrever sobre uma artista da categoria de Amália Rodrigues é, de facto, um complicado problema para um modesto correspondente, como nós.
Sobre os seus triunfos não vale a pena pronunciar-nos. Já se esgotaram os adjectivos. Toda a imprensa mundial a eles se tem referido através dos seus mais categorizados jornais e revistas, relatando-nos em destacadas parangonas, que "Amália conquistou Paris"- "Estrondoso êxito de Amália no México" - "A risonha Espanha aplaudiu freneticamente Amália Rodrigues." - "A voz quente e apaixonante de Amália causou calafrios aos brasileiros" - "Amália na Suécia" - "A América do Norte rendeu o mais significativo preito de homenagem à inconfundível intérprete da canção portuguesa" - "Amália volta a Paris" - "Amália vai cantar a Monte Carlo", etc., etc.
E ante uma tão vasta auréola de estonteantes triunfos, que mais nos resta do que recorrermos à nossa fraca condição de relatador apenas de pequenos acontecimentos e, na meia dúzia de mal alinhavadas linhas que se seguem falarmos, por imposição do dever, da passagem da grande artista pela cidade da Beira.
E, sendo assim, vamos lá.
Amália chegou ao aeroporto da Manga, vinda de Lourenço Marques, num dos aviões da DETA, na manhã do dia 1 de Julho, por volta das 9 e 45.
Muito antes da hora calculada para a sua chegada já ali se encontrava grande número de admiradores da popular artista, que não queriam ver fugir a oportunidade de serem os primeiros a saudá-la. (...)
Por interessante coincidência, a ilustre recém-chegada registava nesse dia a passagem de mais um aniversário natalício. Foi um momento. Retiniram os telefones e passado algum tempo, (não foi muito) Amália Rodrigues encontrava-se rodeada de inúmeras pessoas amigas, no aprazível e característico retiro do restaurante Tropical, a alguns quilómetros da cidade, onde um opíparo almoço serviu de pretexto para festejar o feliz acontecimento. Discursos, prendas e abraços amigos de parabéns, encheram as horas daquela tarde, tão alegre, como bem passada.
À noite, teve lugar no Cinema São Jorge o seu primeiro espectáculo e, no dia seguinte, o segundo e o último, como constava do programa. A caravana prosseguiu (nós também fazíamos parte dela). Decorridos cerca de 45 minutos parámos. Tínhamos o "Paraíso" à vista. É ele, o sugestivo nome do restaurante aonde aportámos.
De novo uma óptima ceia, umas primorosas guitarradas de Camarinha e Santos Moreira e, mais uma série incontável de arrebatantes e magistrais interpretações da incomparável e grande Amália.
Até mesmo fora do palco é extraordinariamente heróica, esta extraordinária rapariga portuguesa. (...)
Rondava por volta das 4 da madrugada quando nos preparávamos para a retirada. (...) Algumas horas depois, e de novo no aeroporto da Manga, dezenas de objectivas se dispararam para captarem mais uma vez um "sorriso" já famoso que se tornou tão popular como a mais popular das aguarelas portuguesas. Logo a seguir, um "Dakota" dos Serviços Aéreos de Moçambique levantava voo com destino a Lourenço Marques. (...) Julho de 1957."

Flama (29-11-1957) - entrevista de Rolo Duarte: "Amália confirma a notícia do seu casamento!
“Diz-se, com frequência, que sou uma artista portuguesa para o estrangeiro ouvir. Eu gostava sinceramente que compreendessem a minha situação: tudo o que hoje sou devo aos portugueses e estou certa de que sem os seus aplausos ninguém tinha dado por mim. Consegui, graças a Deus, um nome no estrangeiro e acho que é absolutamente humano aceder aos contratos que surgem dos outros países, onde sempre procurei elevar e dignificar a minha terra...
Sou uma artista que procura ganhar a sua vida. Ninguém me pode levar a mal!”
Começou assim a entrevista que Amália nos concedeu recentemente, após um "cocktail" celebrado nos estúdios da Tóbis, para assinalar o início dos trabalhos do novo filme nacional, "Sangue Toureiro", onde a popular cantadeira contracena com Diamantino Viseu.
Amália estava bem disposta e a conversa particular que lhe solicitámos decorreu em tom cordeal, como se fosse um diálogo entre amigos.
- Você tem muita razão, Amália, mas o público tem saudades da sua presença e da sua voz.
Melancólica, pode dizer-se que mesmo um pouco triste, a artista observou:
- Mas deixe, porque em breve tudo isto acabará. Estou velha, começam a nascer-me cabelos brancos e um artista que canta não pode durar toda a vida.
Após um silêncio:
- Creia, falo-lhe com a maior sinceridade...
- Desculpe, não a compreendo bem...
- Só lhe digo que depois de concluir este filme e de cumprir uns contratos em Nova Iorque, Cuba e Paris tenciono fixar-me em Lisboa para sempre. Acho que é chegada a altura...
Nunca ouvimos Amália falar assim. Pareceu-nos, de facto, sincera. Os seus olhos, a sua expressão e até mesmo a maneira pausada de falar, como se procurasse palavras que traduzissem melhor o seu pensamento, davam-nos a imagem de uma outra Amália, talvez menos artista e mais mulher.
Arriscámos uma pergunta, aliás de acordo com a forma como a entrevista estava a desenvolver-se.
- Não me diga que essa ideia tem relação com uma notícia que lemos há pouco num jornal brasileiro, segundo a qual você casaria dentro de quatro meses?
Amália sorriu e mostrou-se um pouco embaraçada.
- Nós gostávamos, realmente, de dar essa informação aos leitores...- insistimos.
- Bem vê, as coisas podem modificar-se...
- Mas tem fundamento a notícia que lhe referimos?
- Sim, tem! Eu e César Seabra marcámos o casamento para Março do próximo ano...
- Em Lisboa?
- Em Lisboa, exactamente.
- Quer dizer, a sua intenção de parar com as viagens ao estrangeiro relaciona-se com a confirmação do casamento?
- Com certeza. Estou convencida que chegou hora de descansar.
Confirmada, finalmente, pela própria Amália, a notícia que há cerca de um ano tem circulado nos jornais brasileiros e portugueses, com o timbre da informação não esclarecida. Mudámos de assunto, até porque percebemos o desinteresse da artista em se referir a um acontecimento distante. De qualquer modo, aqui fica a notícia.(...)"

Flama (20-12-1957) - receberam notícia de que Amália deu uma entrevista na Venezuela na qual "se permitiu fazer declarações que os portugueses que ali vivem consideram vexatórias e indignas, facto que muito os melindrou, ao ponto de lhe moverem tal campanha que a artista se viu forçada a abandonar apressadamente aquele país.
Deveriam na verdade ter sido bastante graves as declarações de Amália Rodrigues para provocarem uma tal indignação que, não há dúvida, a colocou em situação delicada e desagradável. (...)"

Estúdio (20-12-1957) - Amália Rodrigues deve actuar em breve no famoso "Waldorf Astoria" de Nova Iorque. A própria artista confirmou ao repórter de "Estúdio" a notícia do seu próximo casamento que se realizará em Lisboa, em Março. O noivo, como sabem, é o brasileiro César Seabra.



Eva (Natal de 1957) - publicidade a produtos de beleza Thaber.

Flama (27-12-1957) - Informa que o jornal venezuelano em questão era o "Últimas Notícias", de Caracas. Nele, Amália teria feito "considerações sobre a conduta dos portugueses que vivem na Venezuela" e que "foi rotulada de indesejável, facto nada agradável para uma artista com a projecção de Amália Rodrigues.”

“Entre taças de champagne e cigarros falou a "Últimas Notícias", dizendo com certa graça que "ainda que tivesse de ser bêbeda queria parecer-me com Ava Gardner, por ela ser muito bonita". Este desejo de Amália, manifestado em tais termos, tratando-se ainda de Ava Gardner, escandalosa "vedeta" do cinema norte-americano que tanto tem dado que falar, foi o primeiro ponto que impressionou de forma desfavorável os portugueses da Venezuela.
A seguir, falou do fado, daquele fado que a tornou famosa entre nós e no estrangeiro.
A certa altura, talvez deixando-se conduzir pelo jornalista, que não deve simpatizar muito com os portugueses, "fez o seu jogo", apreciando, provavelmente sem conhecimento de causa, a maneira de ser dos milhares de seus compatriotas residentes na próspera república da América do Sul.
Para que o leitor não perca o sabor do que lemos em "Últimas Notícias" aqui fica a transcrição:
- A excelente protagonista dos "Amantes do Tejo", além de ter qualidades para as canções, para o teatro e para o cinema, demonstrou possuir inteligência para compreender e tratar alguns problemas sociais, como os apresentados na Venezuela, por exemplo, com a alta percentagem de imigração.
Já antes de vir à Venezuela, a artista havia ouvido dizer que quando os venezuelanos queriam tratar depreciativamente alguém, lançavam o grito:
"Mira, portugués".
- "Mas disso têm culpa os próprios portugueses, porque dão origem a que os tratem mal. Habituados a viver em má situação económica, ao encontrarem-se num país de muito dinheiro e de altos edifícios criam complexos perante o venezuelano."
Alguém contou então uma anedota de um venezuelano que soltou o enraizado "Mira portugués", equivocadamente, a um mau motorista venezuelano.
- Claro - comentou a Rainha do Fado - nunca no seu país tiveram carro, chegam aqui e começam logo a manejar um e têm de conduzir mal e enganarem-se porque antes nunca guiaram automóvel. Isso é lógico.
Mais adiante, Amália continuou as suas considerações que finalizou, afirmando:
- Todos sabemos como é difícil para quem não possui uma relativa independência monetária acercar-se das fontes da boa educação e da cultura.
Os venezuelanos devem entender que a emigração portuguesa para a Venezuela não é, precisamente, a mais representativa da cultura portuguesa. Se os de cá procurassem compreender humanamente os emigrantes portugueses, todos se entenderiam às mil maravilhas.
O limitado espaço de que dispomos não permite alargarmo-nos em considerações nem na publicação de todos os recortes da imprensa de Caracas que temos em nosso poder. No entanto, em nossa opinião, teria sido preferível que Amália Rodrigues se limitasse a falar de Ava Gardner e da maneira como se canta o fado.
Poderia, até, ter-se referido ao seu anunciado casamento com o sr. César Seabra ou mesmo ao "caso" do "célebre" Porfírio Rubirosa...
Na verdade, não achamos muito a propósito as suas declarações sobre assunto de tanto melindre, mesmo quando tratado por aqueles que têm autoridade para o fazer. Não estará a artista de acordo? Tanto mais que não deve ser esquecida a recente atitude tomada contra nós pelo governo venezuelano, quando na O.N.U. foi levantada pelos inimigos de Portugal, a questão dos territórios ultramarinos portugueses, alinhando ao lado destes... Rodrigues Piteira.

Carta publicada no "Últimas Notícias": "D.ª Amália Rodrigues.

Todos lemos neste jornal, com o maior interesse, as suas declarações quando chegou à Venezuela.
Estava certo que a Amália falasse do "Fado" e de tudo o que está relacionado com a sua vida artística.
Tínhamos outro conceito com respeito à sua educação e cultura e esperávamos ansiosos por ver o nome de Portugal representado por uma grande artista. Mas hoje, todos pensamos que teria sido melhor que tivesse ficado em Portugal e não viesse ridicularizar-nos com a sua ignorância. Creia que foi bem recebida por todos nós, mas também tenho quase a certeza de que poucas recordações deixará nesta terra, que todos queremos como nossa segunda pátria.
Pense bem no que disse e notará que nenhum português ou portuguesa seria capaz de fazer tais afirmações.
Somos portugueses e pomo-nos à altura dos venezuelanos, porque julgamos ser seus iguais como se fôssemos irmãos.
Claro que em todas as partes há ignorantes e pouco cultos, mas também os há dotados de cultura.
Em qual dos grupos estará a Amália?... Com o nosso mais afectuoso respeito despedimo-nos de si, membros da numerosa colónia portuguesa.
Caracas, 22 de Novembro de 1957
Amílio da Silva O."

Outra carta, publicada parcialmente, é dirigida ao director do jornal sob o título "Los portugueses que vivimos en Venezuela no tenemos complejos". O jornal recebeu muitas cartas semelhantes.

Amália desdiz-se à própria Flama quanto ao casamento. Diz "não ser verdade coisa nenhuma", um mês depois. Comentário da Flama: "Comentários para quê? Pois se a própria Amália também afirmou ter sido muito bem recebida na Venezuela!"

Plateia (nº 1, 1-1-1958) – “Serão desta vez as bodas de Amália?
Amália Rodrigues voltou de Caracas e confirmou até certo ponto na entrevista dada em Lisboa ao representante de um jornal do Brasil a notícia acerca do seu próximo casamento. Admitiu que pode vir a ter bexigas ou que podem suceder coisas ainda piores mas, em princípio, casa. Será desta? Por outro lado, foi cortejada por Porfírio Rubirosa e não tomou a coisa a sério - o que muito boa gente não tem conseguido fazer... E revelou também, embora ao de leve, que talvez se retire da vida artística. Nisso é que pedimos licença para não acreditar... Por enquanto.”

Estúdio (20-5-1958) –“Amália Rodrigues continua a ser a número 1 em qualquer lado! Apesar dos contos que tem arrecadado, a nossa Amália afirma que não tem dinheiro!... Quem havia de dizer!!!”

Voz de Portugal (10-6-1958) - o Fado (Amália) vai a Bruxelas no Dia de Portugal, a 24 de Junho, na Exposição Internacional de Bruxelas.



Século Ilustrado (5-7-1958) - "A consagração de Amália". "Calorosa consagração no festival que, por iniciativa do Sporting, para consumar o seu aniversário, e com a colaboração do "Diário Ilustrado", se realizou no Estádio José Alvalade. Amália, com um vestido resplandecente, passou entre alas de campinos, ao dirigir-se para o estrado, erguido no meio do parque de jogos. Simples e afável, a nossa grande vedeta internacional, correspondeu às palmas com um aceno quase tímido, com um sorriso modesto, de sincero reconhecimento. Depois, ao chegar o momento da homenagem, desceu simplesmente ao rectângulo, dirigiu-se ao estrado - e cantou: a única forma que tem de agradecer. Amália cantou, um, dois, seis fados. O público ficou rendido. Não se dava por satisfeito. Queria mais ainda... Mas era tarde. Amália Rodrigues entrou num carro aberto e, ladeada pelos seus acompanhadores, o "viola" Santos Moreira e o "guitarra" Camarinha, deu a volta ao estádio, sempre acompanhada pela simpática gente da assistência. A fechar a sessão, foi queimado um vistoso fogo de artifício, que suscitou novos aplausos.
Ranchos folclóricos, com o seu casticismo e alegria, conjuntos espanhóis e brasileiros foram como que aperitivo para o momento culminante do espectáculo: a entrada de Amália Rodrigues, recebida com flores e intermináveis ovações, que a simpática artista recebeu emocionada. A sua festa de consagração, que coincidiu também com o aniversário do Sporting, teve uma projecção que a recompensa da maneira como tem sabido honrar o nome de Portugal. Na verdade, estas palavras de Erico Braga documentam admiravelmente o seu patriotismo: "Lembro-me de que certa vez, em Espanha, estava ela a cantar em pleno palco, quando por acaso olhou para um dos lados onde estava um grande cartaz com o seu nome. Mas em vez de Rodrigues com s, estava com z. Pois Amália parou de cantar, isto é, interrompeu o número a meio, e pedindo desculpa aos espectadores, frisou que o seu nome estava mal redigido. Ela era Amália Rodrigues com um s, com um s bem português, porque ela também era portuguesa."

Eva (Agosto de 1958) - "O Sporting (52 anos) e Amália (quantos?) festejaram o aniversário no mesmo dia.
A Amália e o Sporting nasceram no mesmo dia (mas não no mesmo ano, a Amália é incomparavelmente mais jovem) e por isso resolveram festejar em comum os dois aniversários - festa que foi também a consagração da artista máxima da canção portuguesa. Muitos milhares de pessoas acorreram ao estádio de Alvalade para ver e para ouvir Amália Rodrigues e desejar-lhe de todo o coração os "Parabéns a você" que os altofalantes transmitiram. Depois a Amália cantou uma, duas, mais vezes e, como sempre que ela canta, houve silêncio à sua volta e um grande desejo de que ela não parasse de cantar, de que os seus fados não tivessem fim. Mas tudo acaba neste mundo e os lisboetas vieram-se embora contentes por ter visto e ouvido e aplaudido Amália Rodrigues. E a "Eva" associa-se, embora tardiamente, aos parabéns que a Amália e o Sporting receberam no dia 1 de Julho."

Setembro de 1958 - Amália na T.V.

Flama (19-9-1958) -Amália Rodrigues: publicidade à T.A.P.

Plateia (15-3-1958) – Amália actuará na Televisão Portuguesa.
"- Dizem que eu já não quero cantar para os portugueses! Acusam-me, ameaçam-me, sem repararem que nos últimos tempos as minhas visitas a Portugal são sempre de meia dúzia de dias, que aproveito para descansar. Pois cantarei na Televisão, para que Portugal inteiro me veja e saiba que, se nalgum sítio eu canto com alma é aqui, entre os que sempre me acarinharam e aplaudiram..."
Não pôs problema quanto ao delicado tema do "cachet". Cantou cinco fados.”

Flama (7-11-1958, nº 557) - Filipe Pinto refere Amália, que conhecia desde criança como uma das pessoas que o ajudavam em muitas aflições.

Plateia (15-11-1958) - Amália na sua casa (s/ interesse).

Eva (Março de 1959) - a revista "Jours de France" de 3.1.1959 e 31.1.1959, em números consagrados ao fado, escreve que as portuguesas se abençoavam e benziam à passagem de Amália

Flama(10-6-1959) – Amália Rodrigues em Espanha cantou vinte e oito números durante duas horas.

Flama(23-10-1959) - Quando há anos, Amália Rodrigues esteve nos Estados Unidos, a Sociedade Pedagógica Portuguesa, da qual era então presidente o Sr. João Rocha, e o "Diário de Notícias", promoveram-lhe um banquete no "New Bredford Hotel", a que assistiram algumas das primeiras figuras daquela cidade (segue-se artigo sobre João Rocha).

Flama (21-1-1961) - "Amália voltou a casa para comer sardinhas". Afirma que assuntos da sua intimidade a retiveram quase uma dezena de meses no Brasil (quer dizer, quase todo o ano de 1960, última actuação, ao que parece, a 3 de Maio no Olympia). "Vivia em dolce farniente". Férias em Copacabana. Com alguns fados à mistura. Amália "virou" caseira. Apaixonada por César Seabra, abandonou o aplauso do público. E, no intervalo entre a última actuação lá pelos Brasis e a próxima (derradeira?) aparição ante as plateias lisboetas - festival dedicado a quantos lutam em Angola - desceu do avião e foi acampar à beira-Tejo. Com paragem (de duas horas) no seu "solar." (...) Amália é simpática. Tem uma palavra para cada um, uma atenção e um gesto: todos feitos de gentileza. A sua casa é a casa de seus amigos. E muitos lá apareceram nessas escassas duas horas que separavam a Portela de Sacavém de férias "mesmo" férias.
Amália estava alegre: fez questão de se presentear. E que melhor poderia descobrir para o seu gosto? Umas óptimas sardinhas assadas, com belos pimentos e bem regadinha salada.
Amália foi para o quintal. Mirou as flores e gostou. Olhou o velho poleiro do defunto papagaio e chorou. Ela é assim: um eterno jogo de contrastes, que sofre ou ri consoante o ambiente.
Amália é saltitante. Anda de cá para lá: tudo quer ver e tocar. "Aqui é o piano. Além fica o televisor. O bar não estaria melhor naquele canto?" No fim de contas, ela sente-se bem no seu papel: o de dona de casa. Que rejeita os aplausos e se entrega ao dia-a-dia.
Amália tem bom gosto. Fala do que viu e do que comprou. Do que não viu e gostaria de ter. É rapariga de tom: muito 1961, comenta isto e aquilo sempre com ar jovial. Fala dos seus encontros com as noites de Guanabara. Dá o lamiré do samba novo: o Brasil canta-o nas ruas e nos salões. E sobretudo, fala (com ansiedade) nas férias que veio gozar, com o Sol de Portugal e o calor do seu Povo.
Amália conta-nos uma coisa: continua com os cinquenta e cinco quilos da praxe. Vem desejosa de comer favas. Traz montes de discos e caudais de livros. (...) Amália senta-se à mesa. Todos à sua volta saboreiam o petisco. Mais logo ela partirá para o seu acampamento. Com bagagem restrita, uma barraca de lona e César Seabra.” (...). Fotos: estava em casa com Dona Lucinda e Sr. Albertino (pais), Mariazinha (uma bebé) e Celeste (irmãs), Maria José e Maria Rita (sobrinhas).

4-3-1961 - já com César no Brasil para casar. "Quando casarmos é para começarmos uma vida em comum, uma vida sem abandonos: até agora, tenho vindo quando posso e ele tem por lá aparecido quando lhe é permitido. Isto, porém, não é possível num bom casamento. Agora, tudo ficará, finalmente, arranjado." "Casar?" - perguntámos. "Precisamente: casar e fixar residência. Em Portugal, ele continuará como engenheiro construtor. Eu abandonarei, definitivamente, a vida artística, para me dedicar ao lar." O artigo acrescenta que Amália foi quem mais sofreu com a morte de Vilaret. (...) Tem recebido dezenas de propostas para a rádio, televisão e disco. Rejeitou-as todas. Abandonou milhões. Só canta por prazer em madrugadas de saudade, em qualquer casa típica portuguesa ou no seu apartamento da beira-mar. Amália que disse, à chegada ao Brasil, estar afastada da vida artística (pelo menos, temporariamente), resolveu, depois de muitos pedidos de admiradores e amigos, aceitar a proposta da directoria do Ginásio Clube Português, para ali cantar, na festa de lançamento do livro de Alves Pinheiro, "Corpo e Alma de Portugal". (...)

Plateia (1-4-1961) - informa que há quem não acredite no casamento de Amália com César porque ela fora casada pela Igreja e porque o César é amigo íntimo de Humberto Delgado e Henrique Galvão e que tirou do seu bolso os fundos para o assalto ao Santa Maria. Adversário do regime, César não tenciona por certo fixar-se em Portugal, o que obrigaria Amália a fixar-se no Brasil e retirar-se da vida artística.

Plateia (nº 88,15-8-1961) - Amália e César em tranquila lua de mel na Ericeira (s/interesse)

Flama (12-1-1962) - reportagem de Neves de Sousa. "Amália antes e agora" - com foto desconhecida de Amália adolescente. "E, vinte e cinco anos depois de ser a Amália de Alcântara está na vanguarda: em "Alô Brasil, aqui Portugal", volta ao alto plano da sua carreira. Tudo isto sem desprezar o passado: a rapariguinha morena que vendia laranjas, é agora a mais festejada das "estrelas". Sempre com o mesmo ar tímido de outrora. Só, a mais, a palidez de uma amargura que vem do fundo do olhar."



Flama (29-12-1962) - "A mais recente proposta de deslocação engloba Angola, Moçambique, Macau, Timor e Japão. (...) Amália prefere o negro, malhas e sedas. Não gosta de baratas e viagens de avião. Ganha bem: para aparecer na TV recebeu da "Schweppes" 30 contos e cada guitarrista cobrou 1.500 escudos. Mas este dinheiro (diz ela) não paga a responsabilidade de "um nome". Trabalha quando quer: poucas vezes. Conta 41 anos, já vendeu 500 mil discos de "Lisboa Antiga" e tem, já espalhados por Edimburgo, dez mil cartazes com o seu rosto "à Magnani". Afinal Amália continua a cantar o fado. Como outros grandes artistas (o exemplo mais próximo é o de Manuel dos Santos), a mais famosa fadista portuguesa foi incapaz da renúncia definitiva. E o seu prestígio e a sua fama permanecem. Ela não canta apenas para ganhar dinheiro: gosta mesmo de cantar o fado. Mas faz pagar caro o prazer de a ouvir cantar: é o mais alto "cachet" português. Nascida na humildade de um bairro pobre, Amália possui hoje, em qualquer das suas casas (S. Bento ou Copacabana) o conforto que lhe faltou em criança. E já não precisa de fado para o seu bem estar material. Mas gosta de ser fadista. (...) Amália possui uma colecção de caixas de rapé e guitarras filigranadas. Lê bastante. Garcia Lorca, Homem de Melo, Mourão-Ferreira, Sousa Freitas e Fernando Pessoa são os poetas preferidos. Quando está aprendendo um fado "ouve-se" numa máquina de gravação. Uma curiosidade: também compõe. São dela os versos de "Estranha Forma de Vida", fado com música de Marceneiro. Fotos: Amália Rodrigues diz adeus à sobrinhas e à irmã e parte para Espanha, com o guitarrista (?) Castro Mota. Cantou na TV de Barcelona, actuou no "Retiro" de Madrid e assinou contrato para o Festival de Edimburgo. Amália gosta de estar onde não está: anda por cá e já tem saudades de Copacabana. Qualquer dia está de volta. E, entretanto, gasta 12 contos por mês em telefonemas para o Brasil. Amália voltou por pouco tempo. Mesmo assim - ela não aprecia a vida de sociedade e gosta muito da vida ao ar livre - deu um salto à Ericeira. O seu acampamento na praia do Lizandro é dotado de todo o conforto moderno (piscina inclusivé) e custou cerca de 200 contos. Armando, o "chauffer" da artista, resolveu recentemente fazer-lhe uma partida: erguer, em cartão e madeira, a maquete desse "retiro" da fadista. Maria dos Anjos, a sobrinha da vedeta, está também interessada pela minúcia do modelo, cem por cento exacto."

Flama (21-12-1962) - Amália voltou ao Brasil mas antes apresentou o seu novo disco.

Flama (10-1-1964) - Amália passou o fim do ano com a RTP, em trabalho. À meia noite em ponto houve brinde em casa de Amália, na R. de São Bento. Cinco minutos depois partiu para o Estoril para ver a sua amiga Dalida. Voto de Amália: "Esperança é tudo quanto tenho. Esperança é tudo quanto me anima para 1964." (foto com Armando, o motorista, Maria Odete e marido, Manolo Gonzalez e mulher).

Eva (1967) - Celeste dá um rim a Odete.

Rádio & Televisão (31-5-1969) "Amália na Rússia". "Quarenta e nove anos: uma carreira artística que a catapultou de um anonimato pobre à consagração internacional. De mulher do povo a vedeta e embaixatriz da canção portuguesa. Hoje é o Mito. E o Mito recebe os jornalistas, pagando com esforço a conta da popularidade - fundamental para a vedeta, mas cara, muito cara, para a mulher.
Na sua voz há a vibração de quem fala já há muitas horas seguidas, de quem responde a um interrogatório duro, no qual os inquiridores se revezam continuamente. Jornalista após jornalista - cada um deles a pretender colher novas declarações, na procura da frase para "manchete", com a mesma determinação do inspector que força um criminosa à confissão - deixam Amália nervosa. São quase vinte horas e desde as onze da manhã que o interrogatório prossegue. O seu "crime" (ou a sua fatalidade) é cantar. Amália Rodrigues responde por isso.
- Tenho um medo enorme daquele fosso que me separa do público. Não vejo ninguém. Tudo é escuro e não reconheço um único rosto. Estou ali para cantar. Tenho vontade de fugir, de desaparecer. Mas, nessa altura - talvez no único momento da vida em que a minha vontade vence -, obrigo-me a cantar. É horrível. Canto. Digo curtas frases para os guitarristas, que nem me ouvem, apenas para me encorajar. Lamento-me, mas prossigo.
Amália Rodrigues chegou há pouco da Rússia. Vem doente e fatigada. Durante vinte e um dias percorreu a U.R.S.S., onde deu dezoito concertos. Duas horas e meia cada um. O mesmo medo de sempre, perante um novo público. Mas Amália Rodrigues clarifica a situação. Não houve nada de especial, nada de diferente, nada de novo. Apenas e sempre a mesma tragédia: a de cantar para os outros.
- O público russo é como o de qualquer outra parte. Gostaram das mesmas canções que os ingleses, os franceses ou os americanos. Corresponderam de igual forma. Todo este interesse, todas estas perguntas, todas estas entrevistas, não são feitas pela maior ou menor importância desta digressão, mas sim pelo facto de ela ter sido efectuada à Rússia.
E o que viu...
- Pouco. Do pouco que vi, gostei. Leninegrado, sobretudo.
E a gente, o povo...
- A recordação mais viva que guardo é a forma como depois de cada espectáculo, se me dirigiam e me abraçavam; como me olhavam e me beijavam. Uma grande simpatia humana. Lembrei-me muito do povo romeno - o mais expansivo de todos aqueles para quem actuei, e que me seguia até ao hotel, após os recitais.
Um caso especial.
- Não me posso esquecer, porém, de uma rapariga russa, uma jornalista, que assistiu a alguns espectáculos. Seguia-me sem dizer nada e olhava-me quase com adoração. Falou comigo apenas uma vez, com auxílio do intérprete, para escrever qualquer coisa para o jornal. Depois aparecia só para me ver.



E a comunicação, a diferença das línguas...
- Pela primeira vez na minha vida senti-me perdida pela barreira da língua. Fiquei com a sensação de que os russos não falam idiomas estrangeiros. Mesmo os directores dos teatros onde actuei não sabiam francês e inglês, pois recorremos sempre ao intérprete. Encontrei, no entanto, cinco estudantes que andavam a aprender a nossa língua.
Amália Rodrigues vai cantar em russo.
- A ideia surgiu-me no Sul da Rússia e foi-me sugerida pelo próprio ambiente. Ouvi algumas músicas russas de que gostei e trouxe comigo alguns discos. Espero aprender uma ou duas canções. Embora não compreenda a língua, fá-lo-ei por gentileza, para incluir uma ou outra em recitais futuros, pois talvez volte à Rússia dentro de dois anos.
São vinte horas: na sala enorme, familiares e amigos íntimos também lhe dirigem perguntas. O seu cansaço é evidente, embora continue a responder a todos. Quase com coragem. Recorda alguns passos da sua carreira, para explicar que esta digressão não tem uma importância fundamental. Paris e Nova Iorque são os grandes barómetros da pressão da fama. A sua recente actuação no Lincoln Centre foi bem mais decisiva para o prosseguimento da sua carreira. O público exige sempre os nomes do "top".
Amália da Piedade Rebordão Rodrigues Seabra, fadista, quarenta e nove anos bem marcados, está exausta."

Flama (21-11-1969) - mesmo assunto.


2. Os instrumentistas

Jaime Santos, Amália & Santos Moreira


SANTOS MOREIRA -

Fotos: Guitarra de Portugal 30-4-1932
20-7-1935, nº 306
30-12-1935
10-6-1939

João Fernandes - nascido em 1902 no Bairro Alto foi o acompanhante favorito de António Menano e o guitarrista mais gravado. Com ele, Santos Moreira formou a parelha "Peões da Brega".

Guitarra de Portugal (17-9-1930) - A troupe "Guitarra de Portugal" acaba de organizar-se: Ercília Costa, Rosa Costa, Alberto Costa, Alfredo Duarte (Marceneiro) (medalha de ouro no grande "Concurso de Fados Sul América"; Ercília obteve o 1º prémio), João Fernandes e Santos Moreira "primoroso violista". Sede provisória: R. de Santa Marta, 167, 2º Esq., Lisboa, Tel nº 4577.

Guitarra de Portugal (26-10-1930) - homenagem a Ermelinda Vitória com Santos Moreira e João Fernandes.

Jornal ABC (1931) - foto de Santos Moreira a tocar viola com João Fernandes na festa dada em homenagem à actriz espanhola Rafaela Haro no Solar da Alegria.

Guitarra de Portugal (12-6-1931) - participou na peça "Casa da Mimi".

Guitarra de Portugal (20-12-1931) - Troupe "Guitarra de Portugal" com Santos Moreira no Alentejo e Algarve.

Guitarra de Portugal (30-4-1932) – “Berta Cardoso, João Fernandes e Santos Moreira partiram a 19 do mesmo mês, a bordo do "Arlanza", da "M. R. Inglesa", em direcção ao Brasil. Era a primeira vez que um empresário encaixilhava nas suas peças de teatro o fado, tal como era cantado e tocado em Portugal. Adelina Fernandes e António Menano já lá tinham estado entusiasmando os portugueses nostálgicos.”

Guitarra de Portugal (30-8-1932) – “A Companhia Maria das Neves (com Santos Moreira) encontrava-se em São Paulo quando ali eclodiu o actual movimento revolucionário e cremos ainda ali encontrar-se, privada de facilidades artísticas e monetárias.”

Guitarra de Portugal (14-10-1933) – “Encontra-se em Portugal o estimado violista Santos Moreira que para o Brasil havia partido com a Companhia Maria das Neves.
Santos Moreira ao chegar visitou-nos, pedindo-nos que em seu nome saudássemos todos os seus colegas e demais pessoas que durante a sua ausência se interessaram por ele.”

(1934). Embaixada do Fado: Armandinho, Santos Moreira, Maria do Carmo Torres, Filipe Pinto e Joaquim Pimentel, actriz Branca Saldanha, actor Alberto Reis e bailarinos Salvador e Lina. De barco. Sobre o assunto, comentou Alfredo Marceneiro em 12-19-1962, na Flama: "Estive para ir ao Brasil, com o Armandinho, o Filipe Pinto, o Pimentel. Não me quiseram levar. "Ele faz isto, ele faz aquilo". Afinal, tirando o Pimentel que se aguentou por lá, o resto andou tudo a apanhar beatas. Para voltarem para Portugal, a Maria do Carmo Torres teve de empenhar as jóias."

Guitarra de Portugal (20-12-1935 ou 30-12) - Cartaz do Retiro da Severa. “Antiga cervejaria Jansen. O maior, mais vistoso Salão de fados. Fino serviço de restaurante. Café da Brazileira.” Única casa que transmitia pela T.S.F. “Sessões de fado todos os dias das 21h às 2h da madrugada; matinées aos domingos e feriados das 15h às 18h. Rua António Maria Cardoso, Lisboa, tel: 23071. Grupo Típico de Guitarras "A Severa" sob a direcção de Armandinho: Alberto Correia, José Marques, Armandinho, João da Mata e Santos Moreira.”

Armandinho, Abel Negrão e Santos Moreira no Retiro da Severa


Guitarra de Portugal (30-12-1935 ou 20-7-1935) - "Embaixada do Fado" no Brasil (Maria do Carmo, a "embaixatriz", Maria do Carmo Torres, Armandinho, Santos Moreira) - a época era imprópria para a actuação de companhias portuguesas no Brasil; falta de calor sincero por parte da colónia portuguesa. A "Embaixada" resistiu o mais que pode a todos os precalços e contratempos. Foi um fracasso, excepto Maria do Carmo Torres. Jornais brasileiros que mencionam o facto: Fôlha da Tarde de 5 de Outubro de 1934, Correio de S. Paulo, Correio da Manhã de 25 de Setembro de 1934 (ou 1935), A Tarde, o Correio Paulistano, A Plateia, O Dia, Diário da Noite, Diário de S. Paulo, etc.

Guitarra de Portugal (20-9-1936) - Longo artigo - e capa de revista - de Linhares Barbosa sobre "Uma toutinegra nova: A "Moreninha" de "Rádio Peninsular". Maria Aliette Rodrigues Moreira, filha mais velha de Santos Moreira, então com dez anos de idade, havia poucos meses que actuava para a "Rádio Peninsular", mas assiduamente. Também cantava no Retiro da Severa, acompanhada pelo pai à viola, "o nosso amigo e distinto violista Santos Moreira, artista privativo do conhecido estabelecimento de Fado. O pai, "que o é amantíssimo, fez-lhe um fado que tem o seu nome "A Moreninha", que ela tornou popular através da rádio. Faz também uma imitação de Maria Emília Ferreira.”

Rádio Peninsular: Rua da Voz do Operário, nº 64, aonde existia o Teatro Gil Vicente.

Canção do Sul (1-1-1937) - Retiro da Severa no Teatro Variedades.

Guitarra de Portugal (31-1-1937) – “Passa um pouco melhor o nosso querido violista Santos Moreira.”

Guitarra de Portugal (25-11-1937) – “Faleceu no dia 20 do corrente a Senhora Dona Ilda dos Santos Rodrigues Moreira, esposa do nosso amigo Santos Moreira, violista do "Retiro da Severa".

Guitarra de Portugal (30-4-1938) – “À hora de fechar a página do nosso jornal soubemos ter sido urgentemente operado no Hospital de S. José, pelo Dr. Luís Macieira, o apreciado violista do "Retiro da Severa", Santos Moreira, que se encontra internado no dito Hospital, na Enfermaria de S. Francisco, Sala 1, Serviço 3.
Ao nosso amigo desejamos rápidas melhoras.”

Guitarra de Portugal (10-5-1938) – “Encontra-se melhor e livre de perigo o nosso amigo, o violista Santos Moreira.”

Guitarra de Portugal (25-5-1938) – “O violista Santos Moreira continua em vias de melhoras.”

Guitarra de Portugal (10-6-1938) – “Encontra-se completamente restabelecido de saúde o nosso amigo sr. Santos Moreira, distinto violista do "Retiro da Severa" que nos pede que em seu nome apresentemos os seus agradecimentos a todas as pessoas que por ele se interessaram durante a doença.”

Guitarra de Portugal (20-12-1938) - Santos Moreira
Violista
R. Antero de Quental, 18, 1º Lisboa

Guitarra de Portugal (25-1-1939) - acrescenta nº de telefone: 46700

Canção do Sul (16-4-1939) - pequena foto do filme "Feitiço do Império", com Marceneiro e Santos Moreira.

Guitarra de Portugal (10-5-1939) - capa: Jaime Santos e Santos Moreira com Marceneiro no filme "Feitiço do Império".

Guitarra de Portugal (28-12-1939) - Santos Moreira
violista
R. da Graça, 144, 2º Dto, Lisboa


Carlos Ramos e Santos Moreira no Retiro da Severa


Revista da "Rádio Peninsular" (1942)- “Os arranjos radiofónicos que Manuel Guedes de Dion (jornalista e escritor) vem apresentando periodicamente ao microfone da Rádio Peninsular e que contam com a valiosa colaboração de "artistas de Ontem”, tiveram seu início na emissão de 24 do passado mês de Julho com a actuação de Adelina Fernandes que vemos na gravura (acompanhada de Santos Moreira à viola) conversando com aquele nóvel escritor e colaborador da estação.”

Guitarra de Portugal (30-6-1945) - fotografia em que Santos Moreira acompanha à viola o António Carícias, “o "rei" das anedotas e o "ás" do fado humorístico, actuando para uma "selecta assistência" que no dia 11 desse mês se reunira no jardim anexo à residência do sr. Piano Júnior, "numa festa que o conhecido banqueiro ofereceu à melhor sociedade lisboeta."

Canção do Sul (23-7-1945) - Santos Moreira no cortejo fúnebre de Rosa Maria, esposa de Joaquim Campos.

Guitarra de Portugal (15-5-1946) – “O guitarrista Armandinho gravou para a casa Valentim de Carvalho seis composições da sua autoria, sendo acompanhado à viola por Santos Moreira.”


Filmagem (1946) – Santos Moreira participa nas doze curtas metragens de fados de Amália filmados em Espanha por Augusto Fraga.

Canção do Sul (16-9-1947) - Santos Moreira no enterro de João da Mata.

Armandinho faleceu a 21 de Dezembro de 1947.

Eva (Fevereiro de 1951) - do jornalista Armindo Blanco: "Devem ser dos homens mais invejados deste país. São íntimos de Amália e acompanham-na por toda a parte. Foram com ela ao Brasil, a Inglaterra, França, Itália, Holanda e Irlanda. Viveram com ela as mais inesquecíveis aventuras. E compartilharam dos seus êxitos, das suas emoções, dos seus terrores, das suas pequenas desgraças de criatura terrivelmente distraída que se esquece de tudo em toda a parte.
Pode dizer-se que, em Portugal, oito milhões de pessoas admiram Amália Rodrigues. As excepções são tão escassas e tão absurdas que não devem ser levadas em conta. Pois, desses oito milhões de admiradores, os mais constantes e os mais sinceros são, justamente, Santos Moreira e Raúl Nery. Falai-lhes de Amália e logo, nos seus rostos, se espelhará o culto que eles dedicam à maior cantadeira de todos os tempos. A personalidade de Amália penetrou-os até à medula e domina-os de uma tal maneira que eles não podem dissimular os seus sentimentos. Quer Santos Moreira, quer Nery, são executantes habilíssimos, dos mais perfeitos de quantos constam da crónica do fado. E, todavia, eles sabem bem até que ponto Amália os ultrapassa e transcende. Sabem-no eles, até, melhor do que a própria Amália, que nunca deixou transparecer qualquer complexo de superioridade em relação aos seus acompanhadores. Trata-os num plano de camaradagem pura, camaradagem que, aos poucos e poucos, se transformou em sã e forte amizade. A compenetração entre os três componentes do "team" hoje mundialmente famoso, atingiu tais proporções que já nenhum deles necessita de falar para se fazer entender. Um olhar de Santos Moreira basta para que Nery compreenda que está ligeiramente fora do tom. Um toque de dedos mais pronunciado de Amália, sobre o ombro de Moreira ou de Nery, e nada mais é preciso para que os acompanhadores sintam que a cantadeira deseja um ritmo diferente. Isto não se deve apenas ao facto de os três artistas actuarem em conjunto há muito tempo. Deve-se, também, ao conhecimento mútuo que têm uns dos outros; ao respeito que se dedicam; e, acima de tudo, à simplicidade de Amália, a mulher a quem os trunfos não perturbam e que continua a tratar toda a gente num mesmo e único pé de igualdade.

Santos Moreira


"(...) Quanto a Santos Moreira, nasceu na Graça, é funcionário público e toca viola (de que é um dos melhores executantes nacionais de todos os tempos) há mais de vinte anos. Quando lhe perguntamos a idade, olha para Nery:
- Quantos tenho, ó Raul?
O bebé grande hesita - e só depois responde, um pouco a medo:
- Parece-me que já fez 42.
- Tens a certeza, Raul?
- Certeza não tenho, mas parece-me que são mesmo 42.
- Estou a ficar velho, heim?
Santos Moreira diz isto sem azedume. O seu ar paternal não se altera nunca. Fuma de boquilha e parece ser uma das pessoas que se dão muito bem com a vida. A sua carreira profissional está pejada de motivos de satisfação. Tem acompanhado os melhores "astros" do fado - desde Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano e Lucas Junot, até Maria Teresa de Noronha, a única cantadeira que, nos tempos modernos, pediu meças a Amália Rodrigues. O magnífico violista orgulha-se de haver sido uma das primeiras pessoas a surpreender o talento de Amália:
- Amália foi-me apresentada em 1939, no Retiro da Severa. Cantou especialmente para mim, para eu lhe dizer se valia ou não a pena perseverar na carreira de fadista. Naquela altura, eu não podia prever com precisão todo o prestígio nacional e internacional que rodeia hoje o nome de Amália. Mas vi logo que estava em presença de uma cantadeira de excepcional temperamento. Disse-lhe isso mesmo, acrescentando que ela poderia vir a ser tão admirada como Ercília Costa. Amália ficou confundida com tal hipótese: - "Não diga isso, senhor Santos Moreira. Ser como a Ercília Costa é demais para as minhas forças." Mas quem tinha razão era eu. Amália foi muito mais longe do que ela própria supunha. Salvo um ligeiro interregno, no ano de 1942, acompanhei-a sempre. Durante muitos anos, continuou a tratar-me por "senhor Santos Moreira". Depois, o "senhor" foi abolido, mas entre nós continua a haver uma espécie de cerimónia que muito tem facilitado as nossas relações.
(...)" - E sobre as vossas próprias aventuras?
- Oh, essas não têm conto. Sabe lá o que nos tem acontecido. Como o Nery sabe falar francês, nomeei-o "ministro dos negócios estrangeiros e da fazenda", pois também é notória a sua habilidade para tratar de problemas fiduciários. Em França, na Inglaterra e na Irlanda, bem como na Irlanda e na Suíça, os seus conhecimentos de francês simplificaram-nos a vida. O pior foi na Alemanha. Por via de regra, à noite, fazíamos as nossas refeições no quarto. Comprávamos umas conservas e outras coisas, e banqueteávamo-nos à lusitana, sem cerimónias de espécie alguma. Uma noite, faltou-nos uma faca. O Nery foi ao telefone e tentou explicar o caso ao empregado da copa. Esteve mais de meia hora ao telefone sem conseguir fazer-se entender. Por fim, descobriu o processo, com esta frase definitiva e estranha: - "Il faut un knife p'ra cortar o bread, understand?" Mas o que é facto é que a faca apareceu em seguida. Agora em Berlim, quando tomámos o avião que nos devia conduzir à Holanda, é que foi o diabo. Amália havia seguido no avião anterior. Nós não dávamos uma em alemão. Lá descobrimos o nosso avião por obra de milagre, e daí a pouco estávamos no ar. Voámos durante algum tempo, e depois o avião aterrou. "Devemos estar em Hamburgo", disse eu. Saltámos. Estávamos outra vez em Berlim. "Que é isto? Que diabo se terá passado?" Acontecera que, devido ao mau tempo, o nosso avião voltara para trás. Mais tarde, levantou outra vez vôo e, por fim, eis-nos chegados a Hamburgo. Compreendemos, através dos gestos da hospedeira, que tinhamos de saltar em terra. Nós estávamos convencidos de que não teríamos de passar para outro avião. Então, o que é que se estava a passar? Como vissem que não conseguiriam entender-se com a gente, pediram, através de um alto-falante do campo, uma pessoa que estivesse disposta a servir de intérprete em espanhol ou português. Apareceu uma senhora italiana, que declarou saber falar espanhol. Mas só ouvida é que se pode fazer uma ideia de como ela falava a língua de "nuestros hermanos". Disse para nós, depois de ouvir as explicações dos oficiais: - "Ustedes cambiar máquina". Perante isto, eu traduzi logo: -"Vão mudar o motor do nosso avião". Mas não era nada disso. "Cambiar máquina" queria dizer que nós é que tínhamos de mudar de aparelho. Só ao fim de duas horas nos apercebemos da coisa, quando vimos os nossos companheiros de viagem encaminharem-se para outro avião. Metemo-nos na procissão e lá fomos também. Chegámos à Holanda a tempo de tomar parte no espectáculo. Mas que nisso houve milagre, houve. A gente ainda está para saber como não fomos parar à China ou a outro país qualquer.
"(...) E foi assim que terminou a conversa com Nery e Santos Moreira. De dentro de uma pasta, Moreira tirou então algumas fotografias, das quais escolhemos as que se se publicam nesta página. Depois foram-se ambos embora. No dia seguinte, Santos Moreira telefonou-nos:
- Por acaso não viu aí ontem uma pasta de cabedal?
- Não. Porquê?
- Homem: perdi a pasta de cabedal onde levava as fotografias. Não sei onde a deixei.
- Pois aqui não foi.
Desligou. Depois voltou a telefonar:
- Já encontrei a pasta. Estava numa pastelaria onde eu e o Nery parámos depois de sair daí.
A influência de Amália exerce-se sobre os seus dois companheiros de uma maneira total, até neste capítulo de deixar as coisas em toda a parte. Até o cuidadoso Nery, em Harleen, na Holanda, deixou ficar as músicas no teatro onde trabalharam. "
Armindo Blanco



Santos Moreira

Ecos de Portugal (1-4-1951) - No estúdio de gravação da casa Valentim de Carvalho: "Olhámos à nossa volta e... uma exclamação de surpresa logo desfeita num abraço amigo. Junto de nós, dois artistas que a arte irmana e uma sã amizade une: Raúl Nery e Santos Moreira. Inútil apresentá-los ao leitor, conhecedor ou não das coisas do fado, porque estes dois nomes bailam na mente de todos, intimamente associados a um outro - sem dúvida expoente máximo da Canção Nacional - consubstanciando, no seu íntimo sentir, a alma de um povo: Amália Rodrigues.
Santos Moreira, o violista, é o protótipo do artista por puro amor à arte - tornado profissional pelas necessidades imperiosas da existência. Regrado, metódico e excepcionalmente trabalhador, Santos Moreira começou a carreira artística substituindo o malogrado violista Abel Negrão, no antigo retiro do "Ferro de Engomar" [ao Areeiro]; daí passou para o Solar da Alegria".
Independentemente da sua arte e da sua vida profissional, um pensamento o domina: contribuir em todas as circunstâncias para o prestígio do fado.
Ambos se esquivam à entrevista. Porém, as próprias responsabilidades que lhes advêm da carreira artística que atingiram, são argumento forte a perfurar a modéstia natural.
À nossa primeira pergunta, visando o fado de modo geral, ambos manifestam uma quase identidade de vistas. Ambos concordam com a sua acentuada evolução, sob o ponto de vista poético e musical, embora Santos Moreira frizasse que, tal como se cantava antigamente, o fado usufruia de melhor ambiente local, emprestando-lhe um colorido mais característico.
(...)Preferências artísticas - Santos Moreira: "Olhe, quanto a mim, José Costa e Martinho da Assunção - dois verdadeiros mestres - e ainda Alfredo Costa, que também aprecio. Todavia - remata - distinguindo estes não deixo, por isso, de apreciar todos os outros.
(...) Santos Moreira vai seguindo atentamente as respostas de Nery. É ele, agora, quem nos elucida: "Olhe - diz-nos - de todos os artistas que acompanhei, aquele que mais me impressionou, e sensibilizou, foi Armandinho - inexcedível no seu género - acentuou. Mas também Jaime Santos, Artur Paredes e Fernando Freitas, são artistas de alta valia, cada um com a sua personalidade fortemente vincada. Além destes - esclarece - Carlos da Maia, "doublé" de guitarrista e compositor, assim como o Dr. Francisco Menano, ambos de invulgar sensibilidade mas de tão perfeita execução que chega a lamentar-se que a sua alta posição social lhe não permita contactar com o público.
Santos Moreira refere-se depois a Ercília Costa, Maria Alice, Berta Cardoso, Cecília de Almeida e Maria do Carmo. Tal como Raúl Nery, também Santos Moreira tem palavras de profunda admiração por D. Mª Teresa de Noronha, de que foi acompanhante. Seguem-se Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos e Júlio Proença, José Porfírio e Raul Briguel. Dos modernos - esclarece - temos Fernando Farinha, Gabino Ferreira, Márcia Condesa, Fernanda Baptista, Fernanda Perez, Maly Socorro e Aura Ribeiro.
(...)As preferências poéticas de Santos Moreira são idênticas às de Raúl Nery, acrescentando, no entanto, o nome de Silva Tavares - evidentemente sob o ponto de vista geral. Santos Moreira e Raúl Nery não escondem a sua admiração pelo Sr. Dr. Pedro Homem de Melo. De igual modo nos manifesta a sua simpatia pelos compositores Miguel Ramos, Frederico de Brito, Pedro Rodrigues, Fernando Freitas, Jaime Santos e Frederico Valério, o bem conhecido maestro e compositor - acentua - que é credor da melhor simpatia e admiração dos amadores de fado, visto que a ele se devem algumas das mais inspiradas canções dos últimos anos.
Recordamos a Santos Moreira que também ele tem composto e, sorridente, o nosso entrevistado alude, entre outras, a "Moreninha" e "a alguns sambas e canções".
A já famosa "parelha" artística actuou duas vezes no Brasil, duas vezes no Uruguai, tendo percorrido a Espanha, França, Suíça, Itália, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Irlanda, sempre, nunca é demais acentuá-lo, nos aviões da TWA.
Uma vez - conta-nos Santos Moreira - actuávamos em Berlim, no "Titania Palace". No programa estavam incluidos artistas clássicos e representantes do folclore de outras nações. E Amália cantou uma, duas, três vezes. Em delírio, frenético, o público não se cansava de aplaudir. - Momento de funda emoção - diz-nos o simpático artista, no olhar o brilho incontido do entusiasmo. - Por fim, abraçámo-nos os três, loucos de alegria, orgulhosos, no justificado orgulho de que venceramos."
(Raúl Nery relata semelhante episódio em Roma.)

Estúdio (20-4-1954) Reportagem de Neves de Sousa. "Pelas suas palavras (de Amália) noto distintamente a grande amizade que a prende a Santos Moreira, companheiro constante de 14 anos de glória, triunfos e incertezas."

Flama (19-10-1956) (...) “Santos Moreira e Domingos Camarinha, recentemente, alcançaram merecido êxito lá fora, a tal ponto que gravaram comercialmente alguns números.
A Santos Moreira, mais vezes internacional, bem como a Raúl Nery, ambos elementos de real categoria, não lhes têm faltado oportunidades para cumprir isoladamente vantajosos contratos com importantes empresários estrangeiros.(...)”


JAIME SANTOS -

Beco dos Bribantes, 3, Loja (à Calçada de Sant'ana)

Canção do Sul (1-3-1945) – “Jaime Santos, mais conhecido por "Rei da Brilhantina", tão brilhante é o seu cabelo, não se cansou, durante a partida de futebol, de pedir bolas ao seu colega Ilídio dos Santos. Este, em determinada altura, para o calar, enviou-lhe uma bola por alto, dizendo: "Vai lá para a brilhantina..."

Muito vaidoso, todas as semanas estreava um fato.

Filmagem (1946) - participa nas doze curtas metragens de fados de Amália, filmados em Espanha por Augusto Fraga. Fez notáveis variações para o "Fado Malhoa".


Jaime Santos


Eva (Setembro de 1954) - "Jaime Santos e a sua guitarra no filme "Os Amantes do Tejo"
Encontrava-se a jogar bilhar americano em mangas de camisa. "Fala devagar e refere-se pouco a si. Verdadeiramente, apetece-lhe mais jogar bilhar do que conversar. Diz que tudo o que pensa das coisas e pessoas é muito difícil de explicar com palavras. Só na guitarra. Aí, sim! Até é capaz de estar uma noite inteira na conversa. Mas a Amália tem que estar presente. O convívio já vem de há muitos anos, lá do antigo Retiro da Severa. Começaram os dois e ainda continuam.
- Só há uma voz que entende a minha guitarra, e a minha guitarra só se entende com uma voz: a de Amália Rodrigues. São gémeas, pronto, é o que é.
Um parceiro de jogo chamou Jaime Santos. Levantou-se, jogou, carambolou duas vezes e depois veio sentar-se de novo. A propósito da sua integração como compositor e executante da música de fundo do filme de Louis Vernuell, Jaime Santos disse-nos que foi Amália Rodrigues quem apresentou a sugestão aos produtores e a Marc Lanjean, director musical de "Os Amantes do Tejo". Num "cocktail" onde se reuniu a equipa do novo filme, Jaime Santos. deu uma sessão de guitarra, pelos vistos magistral, pois convenceu realizador, director musical e caiu em cheio no goto de François Arnoul e Daniel Gélin, que não foram nada avaros nos elogios à música, ao executante e ao som estranhíssimo deste instrumento. E pronto, Marc Lanjean não esteve com mais hesitações. Jaime Santos - à semelhança de Anton Karas no filme de Carol Reed "O Terceiro Homem" - será o compositor e executante de dois temas que vão servir de fundo musical: "A minha guitarra" e "Variações em lá menor".
O guitarrista que causou impressão a Xavier Cugat, quando da sua digressão com Amália Rodrigues pelas Américas, e que levou aquele conhecido maestro ligeiro a dizer que não percebia muito bem como é que com tantas cordas e só quatro dedos se podia tocar tanto, parece que anda alheio aos seus sucessos. Fala do novo acontecimento como se esperasse por qualquer coisa assim há muito tempo. Não tem uma palavra de espanto para coisa nenhuma. Tudo corre para o mesmo sítio e não há que haver grandes admirações. A sua filosofia cabe bem na sua guitarra (...)"


Domingos Camarinha e Jaime Santos



Flama (19-10-1956) - "(...)Os guitarristas, esses artistas que são inseparáveis companheiros dos cultivadores do fado, gozam de muito apreço do público estrangeiro e não têm sido poucas as vezes que, com os seus triunfos, colocam em plano um tanto ou quanto embaraçoso o artista que têm como principal missão acompanhar. (...) Ainda não há muito tempo que um casal de estrangeiros, de passagem por Lisboa, nos abordou na via pública para tentar saber onde poderia ir ouvir tocar Jaime Santos, um português que muito os havia entusiasmado quando se exibiu no seu país. Indicámos-lhe o local. Os dois turistas não esconderam a sua satisfação por se lhes deparar nova oportunidade de o escutarem agora, em ambiente onde o fado e as guitarras têm a sua tradição. Note-se que não perguntaram por este ou aquele fadista. Apenas lhes interessou Jaime Santos."

RAÚL NERY -

Campo de Sta. Clara, 55, 3º Esq.

“Guitarrista, 25 anos, solteiro, alto, muito alto. Aluno do Instituto Industrial, último ano, culto, muitíssimo bom rapaz - uma jóia autêntica.” (1945 ou 1946).

Francisco Radamanto (letrista), Santos Moreira e Raúl Nery

Eva (Fevereiro de 1951) - "Raúl Nery tem vinte e nove anos. É um rapagão alto como uma torre, com uns olhos imensos que dão ao seu rosto comprido uma expressão de juvenil vivacidade. Nasceu em Alfama, começou a tocar guitarra quando ainda andava de calção, e a sua aspiração maior consistia em vir a ser um executante tão indiscutivelmente bom como o finado e nunca esquecido Armandinho. A guitarra, de resto, serviu-lhe para mais alguma coisa do que para simples diversão musical mais ou menos bem paga. Serviu-lhe para ele poder pagar os seus estudos no Instituto Industrial, onde está a tirar um curso de engenheiro auxiliar. Nery está um pouco envergonhado por ainda não haver concluido este curso, apesar dos seus 29 anos. Mas desculpa-se como pode:
- Só na tropa estive três anos consecutivos. Um homem, que ainda para mais tem de ganhar a sua vida, não pode fazer milagres."

Ecos de Portugal (1-4-1951) - De uma honestidade profissional que os classifica como exemplo, Raúl Nery, o guitarrista, começou a dedilhar a guitarra aos nove anos tocando...

Flama (5-2-1954) - "Tocando guitarra para ganhar a vida Raul Néry forma-se como agente técnico de engenharia"
Um caso interessante e digno de ser contado é o de Raul Néry - esse rapaz alto, esguio, delicado, feiticeiro da guitarra.
Altas horas da manhã, quando o silêncio pesado vai caindo vagarosamente sobre as ruas mortas da cidade, sabe bem ouvir no dedilhar plangente das cordas de uma guitarra a música dolente e triste de um fado.
Na sala faz-se silêncio. Mãos nervosas, dedos impacientes arrancam dos arames frios do instrumento falas de gente: suspiros e amores, alegrias e tristezas, súplicas e preces, numa promiscuidade de acordes que calam em nossa alma como chicotada forte e brutal.
E quando Néry empunha a sua guitarra não são os seus dedos que ferem as cordas; são os seus nervos, a sua sensibilidade que é ferida pelas dedilhadas gritantes que evocam como cristal dentro dele.
Daí aquele encanto que subjuga e prende.
Incontestavelmente um dos nossos melhores guitarristas, Raul Néry cedo começou a revelar o grande artista que viria a ser.
O café "Coliseu" era noutros tempos o café predilecto dos guitarristas mais afamados. Por lá apareciam Armandinho, Carmo Dias, Salgado do Carmo e tantos outros.
Chegou àquele café a notícia de que um rapazinho de nove anos mexia com habilidade na guitarra.
Os grandes do fado queriam ouvi-lo.
Trazem o pequeno Raúl ao "Coliseu" e os mestres ouvem-no. O rapaz deu boas provas. E é nesse mesmo café que pela primeira vez toca em público.
- És capaz de te não enganar? - disse-lhe Armandinho antes do Raúl subir para o estrado.
- Não me engano, respondeu titubeando.
E não se enganou. Gente que passava junto à grande casa de espectáculos parava e escutava. Havia uma natural curiosidade de ver uma criança tocar tão bem.
Toma parte, como amador, em várias festas. Toca na Cervejaria Jansen, Salão Artístico do Fado, etc., sempre como solista.
Terminado o Curso da Escola Industrial, tinha então 17 anos, profissionalizou-se. Queria ir mais longe. É que só com o dinheiro que a sua guitarra lhe dava poderia continuar os estudos...
Ercília Costa, a grande cantadeira, escolheu-o como guitarrista privativo.
Acompanha depois Hermínia Silva, Berta Cardoso e Estêvão Amarante, no teatro.
Acompanha, nos últimos dois anos que cantou na Emissora Nacional, Maria Teresa de Noronha e durante cinco anos anda com Amália Rodrigues
E, estudando sempre, na ânsia de subir, de ser mais, Raul Néry no ano passado conseguiu a escalada da meta a que se tinha proposto. Com que sacrifícios e canseiras ele não tirou o seu curso. A guitarra era o seu pão. Por isso muitas vezes via interrompido o ano lectivo pois tinha de ir hoje aqui, amanhã acolá. Mas a sua força de vontade, a sua perseverança souberam-no recompensar.
Hoje, Engenheiro auxiliar electrotécnico, não desdenha continuar na profissão que o ajudou a realizar o seu sonho.



Amália, Santos Moreira e Raúl Nery de partida para o México


Com Amália Rodrigues percorre a Madeira, Espanha, França, Itália, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Suíça, Irlanda, Brasil, Angola, Moçambique, Congo Belga, U.S. Africana, etc.
E, num tom agradável, nesse mesmo em que costuma arrancar das salas as ovações mais calorosas, Raul Néry vai-nos contando episódios da sua vida.
Um dia, convidada pela E.C., Amália vai cantar ao Teatro Argentina, em Roma. O espectáculo era de música clássica. Abriu-se um parêntesis para a grande cantadeira.
Havia muito nervosismo em Amália e nos guitarristas. O ambiente pesava.
Cantou. O público entusiasmado aplaude-a em delírio. Os membros da orquestra, todos professores, batiam com o arco no violino.
Terminado o espectáculo, alguns músicos dirigiram-se a Raul Néry, interessando-se por conhecer o instrumento.
Este foi, segundo nos contou, um dos momentos mais agradáveis da sua vida artística: sentir-se aplaudido por uma orquestra de Professores.
Aqui está a vida de um homem simples e despreocupado que fez da guitarra o seu ganha-pão e estímulo para conquistar na sociedade uma posição.
Exemplo de vontade forte e indómita que a fé ajudou a impulsionar no desejo consciente de se elevar."

Estúdio (20-6-1954) - reportagem de Neves de Sousa noticia que Raúl Nery vai voltar a tocar para Amália referindo-o como "O mais apreciado guitarrista português"

Voz de Portugal (6-1-1957) – “Raúl Nery nasceu em Santa Clara, entre Alfama e a Graça. Tocou pela primeira vez no Café do Coliseu. É Sportinguista por convicção e devoção.”

DOMINGOS CAMARINHA -

Domingos Camarinha


A Voz de Portugal (12-7-1956) "Camarinha e as suas guitarras.”
“Nasceu no Bairro da Graça, a 3 de Outubro de 1915. Tinha oito anos quando dedilhou o fado corrido, pela primeira vez, na guitarra que pertencia ao seu pai. Ninguém sabe como aquilo foi, nem mesmo ele. Morava na Calçada do Monte. Camarinha começou a frequentar "Os Trovadores", vizinhos do Largo, uma escola de fado onde iam os cultivadores das cantigas populares: Francisco Santos, Ermelinda Vitória e Hermínia Silva, ainda miúda. Camarinha aprendeu solfejo e tudo o resto de escrita de pauta e não abandonava a guitarra em todos os momentos de ócio. Certa vez, Salvador Gomes, um profissional do fado, que tocava num teatro e que não entendia música escrita, pediu-lhe que transpusesse para o dedilhar da guitarra a melodia de um novo fado. Camarinha fez o que soube e ainda pôs de seu tudo o que podia. Salvador Gomes, entusiasmado, levou-o para as lides fadistas. Em 1938, com 23 anos, apresenta-se ao público como amador para os lados da Mouraria, num serão aonde cantaram Maria do Carmo Torres e João Cordona, Carlos Lourenço e outros. Passou depois para as noites do Café Mondego, do Solar da Alegria, onde chegou a substituir Fernando Freitas, o Café Latino... Por duas ou três vezes tocou com o Armandinho. No Luso, permaneceu por largas temporadas. Certa hora, Santos Moreira telefonou-lhe: teria de acompanhar Amália. Disse que sim e foram os três para a ilha da Madeira. Na volta, começaram as filmagens d' "Os Amantes do Tejo". Assim começou a correr mundo. Num ensaio do 1º acto da representação da Severa no Teatro Monumental, o palanque da escadaria desfez-se, Amália caiu, a guitarra de Camarinha quebrou-se e este ficou longo tempo com o braço ao peito. Foi a Londres para tocar no filme "Abril em Portugal" e seguiu para o Brasil, Rio, Santos e São Paulo. Novamente em Paris, no Olympia. Foram por quinze dias e ficaram mais de um mês. Camarinha e as suas guitarras! Duas delas acompanham-no sempre nas viagens, como tesouros preciosos, dentro de caixas ruidosamente talhadas e forradas de pano colorido.
Quando percorrem caminhos tão diversos e longos, silenciosa e misteriosamente as cantigas entrelaçam-se em evocações de Lisboa. É que vai nos pisos das suas cordas, no tampo da caixa, nas inscrições da madeira, o segredo escondido da alma de um povo."



Amália canta "Barco Negro" no filme "Os Amantes do Tejo". Atrás, em pé: Domingos Camarinha; sentado: Santos Moreira


3. Histórias e piadas de Amália

Eva (Fev. 1951) "- Santos Moreira enfia um novo cigarro na boquilha e prossegue:
- Esquece-se de tudo em toda a parte. Quando vinhamos de Trieste para Paris, esqueceu-se de renovar o seu passaporte, o qual só lhe dava direito a viajar de avião. Quando o comboio em que vínhamos chegou à fronteira franco-suíça, às quatro horas da manhã, informaram-nos de que Amália não podia entrar em França, por lhe faltar o indispensável "visto". Tivemos de saltar em Vallorbe, com grande raiva de Amália, enquanto a nossa bagagem seguia para Paris. Fazia um frio dos diabos. Vallorbe estava soterrada sob a neve. Furiosa, Amália encaminhou-se para a "gare", mas, a certa altura, zás, escorregou e ficou estatelada na neve. Então deu largas aos nervos, e chorou como eu nunca a vi chorar. Lá a levámos para a "gare", tentando consolá-la como podíamos. Durante muito tempo, nenhum de nós, atormentados pelo frio e pelo aborrecimento, conseguiu sentir a mais ligeira ponta de felicidade.
Uma pausa. Nery entrou em acção para dizer:
- Foi aqui o Santos Moreira que nos salvou da má disposição. Nós estávamos rodeados de gente que falava alemão e francês, mas que não nos concedia a menor importância. Bebemos melancolicamente umas chávenas de café. De repente, entrou na "gare" um gentil empregado que nos saudou nestes termos: "bonjour messieurs dame". E foi à sua vida, sorridente e simpático. Comentário de Santos Moreira: "Olha: este parece que conhece a gente." Amália riu. Eu ri também. Estava desfeito o gelo. Daí a pouco seguíamos para Lausanne, onde nos concederam o indispensável "visto". Quando chegámos a Paris, todos éramos de opinião que o incidente tivera muita graça.
Santos Moreira volta a falar:
- Mas as distracções de Amália não ficam por aí. Uma vez, no Rio de Janeiro, tínhamos ido assistir à estreia de João Villaret, no Teatro Glória. No final, fomos a uma casa de chá tomar uns refrescos e, de repente, Amália olha para o anel e grita: "- Perdi o brilhante!" Efectivamente, a cavidadezinha do anel aonde anteriormente se alojava um brilhante de alto preço, estava vazia. Após algumas conjecturas, chegámos à conclusão que o brilhante ainda devia estar na frisa que ocupáramos. Com o teatro às escuras, eu, o Nery e um cenógrafo iniciámos as pesquisas. E o brilhante apareceu. Nas trevas da sala, o seu brilho denunciou-o aos nossos olhos.
- Amália dedica muito carinho às suas jóias?


- Muito menos do que se pode supor. Em Paris, uma noite, quando estávamos no apartamento que ela ocupava, deu por falta da malinha onde transportava as jóias. "Se calhar deixei-as no táxi", alvitrou ela. O Nery desceu à portaria, para pedir a publicação imediata de um anúncio, embora nenhum de nós confiasse na eficiência do sistema, e todos déssemos as jóias por perdidas. O porteiro disse a Nery "- Não será esta mala?" E tirou uma mala de sob o balcão. Com efeito, era aquela. Veja só a sorte da Amália. Deixara-a na portaria enquanto registava o seu nome no livro de hóspedes.
Santos Moreira sorri e acrescenta:
- Mas julga que isto lhe serviu de emenda apesar das repreensões que me senti no direito de lhe dar? Nessa mesma noite saiu do hotel e deixou as jóias expostas sobre o leito. Lembrou-se disso mais tarde e pediu-nos que fôssemos ao seu quarto, fechar as jóias na mala, antes que elas desaparecessem. Lá fomos. As jóias ainda estavam no mesmo sítio onde ela as deixara. Imagine, porém, o mau bocado que passámos, quando de repente entraram no quarto as criadas daquele piso e viram dois tipos desconhecidos a meterem jóias numa mala. Íamos passando por ratos de hotel. Felizmente, a nossa identidade pode ser declinada imediatamente, e assim escapámos de um dissabor pouco agradável.”

Eva (Janeiro de 1952) – “O que Amália não perde - que ela perde tudo: jóias, letras dos fados que está decorando, o dinheiro, a noção do tempo - nada disto é novidade para a maioria das pessoas.
Mas duas coisas ela não perde: o juízo e as paradas de "canasta".
E, se alguém a quer ver atenta, que arranje processo de assistir a um serão em casa dos condes da Torre e a observe a jogar a "canasta". Não há nada que a perturbe ou que a distraia, pois tem um horror terrível a perder.
Conta-se até que certa vez em que estava a jogar com grande êxito, alguém atirou com azedume:
- Isso é que é sorte! Mas, também, deixe lá, que quem tem sorte ao jogo é infeliz nos amores...
E Amália, sem desviar a atenção das cartas:
- Há horas para tudo, minha amiga. Agora prefiro ter sorte ao jogo.


Amália e Hermínia Silva


Uma tarde, quando conversava no "Luso" com um grupo de velhos amigos, fadistas, toureiros, gente da Imprensa, apareceu-lhe o conde de... que lhe pediu, muito açodado, "uma palavrinha apenas".
- Por amor de Deus! É assim tão urgente? Sente-se, faça favor.
- É francamente urgente.
Sentou-se ao lado de Amália, e ali mesmo declarou-lhe que a princesa de... manifestava vontade em jantar com ela no Machado.
- Oh! Sabe? Não sei se poderei ir, pois estava a combinar um jantar com estes amigos.
- Mas a princesa insiste...
Amália tinha-se mostrado até ali gentil, extremamente bem-humorada, mas naquele momento cravou os olhos no conde e acrescentou com certo azedume:
- Muito bem. O meu "cachet" são cinco contos...
- Perdão, Amália, não é para cantar...
- Não é para cantar? Nesse caso, passo a levar dez contos...
- Como? - exclamou o senhor, confundido.
- É que - explicou ela - para cantar qualquer pessoa me pode contratar. Para me exibir, nem todos. Logo, o preço é por força mais elevado...

Vinho? Nem vê-lo!
Chorem os amantes do fado com todos os condimentos castiços orque Amália não bebe! Talvez para não perder o juízo, para não ser vencida à "canasta", ou porque não necessita de excitantes para cantar... não bebe.
Enquanto os amigos esvaziam garrafas de "whisky", botijas de vinho, licores, Amália suga pacientemente o seu capilé - a bebida que prefere - ou, em casos excepcionais, uma taça de champanhe.

A verdade custa a todos...
Noutra ocasião foi chamada a actuar num espectáculo de uma sociedade recreativa humilde. Atendendo às poucas posses da casa acedeu por um pequeno contrato.
Casa cheia, evidentemente. A direcção, sensibilizada por ter colaborado em tão humilde festa, decidiu no final oferecer-lhe um pequeno "porto de honra". Houve discursos e, em vez do significado da festividade, eram agradecimentos à presença de Amália que os oradores focaram. "Amália Rodrigues, amiga desinterressada da nossa colectividade"; "Amália, a quem devemos estar gratos pela benemérita atitude..."; "Amália...".
Amália sentia-se revoltada consigo mesma. Viera ali por um pequeno "cachet", é certo, mas de maneira nenhuma por exclusiva dedicação àquela sociedade. E, apesar disso, tratavam-na como se lhes tivesse feito uma dádiva graciosa, como se partilhasse dos anseios daquela gente simples em defesa da colectividade que procuravam levantar.
Não pode mais. Soube-lhe mal a injustiça de tantos elogios e, terminada a cerimónia, restituiu o dinheiro do seu trabalho para ser distribuído pelos pobres da agremiação.

Nossa senhora dos Táxis.
É Amália. Nas praças de Lisboa, não há "chauffer" que a não conheça, não só como rainha do fado, mas como padroeira dos táxis - melhor: dos "chauffers" de táxis.
Frequentemente, distraída como é, esquece-se de pagar as contas, sai à pressa e, daí a momentos, nem se lembra como foi a este ou àquele local, nem, muitas vezes, sequer donde partiu. Mas lembram-se os "chauffers", e no outro dia, na rua ou até à porta de casa, vêm-lhe de boné na mão, um sorriso nos lábios e uma conta levemente salgada:
- Dona Amália, o táxi de ontem.
Mas o maior escândalo aconteceu há um ano numa festa que lhe dedicaram no Estoril. Amália partiu de manhã, de táxi, e almoçou num hotel do Parque.
Como sempre, chegou atrasada e saiu a toda a pressa. Almoçou, passeou com os amigos pelo Tamariz e foi no carro de um deles a Sintra, de onde chegou à hora precisa de começar o espectáculo.
Andou altas horas pelo Casino, jogou, dançou e, já de madrugada, foi de companhia até Cascais acabar o resto da noite na "canasta".
Por volta das dez da manhã do dia seguinte vieram trazê-la a casa, mas ao passar de novo no Estoril, Amália recordou-se de que tinha deixado o casaco e uns documentos no hotel do Parque. Fizeram paragem. Amália subiu as escadarias a correr, mas ao alto alguém a esperava.
- Para onde vamos a seguir, senhora D. Amália?
Era o "chauffer", que ali ficra a noite inteira, pacientemente, a ouvir o taxímetro a marcar...
Mas nem só nos táxis, na pobreza de bairro, ela é pródiga e caritativa. Amália sente, sobretudo, o maior desprezo pelas coisas materiais. Gasta 1.200$00 de gás por mês e só os amigos e... o recebedor da Companhia o sabem porque ela, se o sabe, depressa se esquece.
Mas duma coisa Amália se lembra sempre: das igrejas e das capelinhas de toda a Lisboa. Não é propriamente uma pessoa de profundo sentimento religioso, mas tem uma crença popular que a leva a não passar pela mais pequena ermida sem se benzer.
Outra crença mais profana mas também popular é a admiração quase mística que devota a Alfredo Marceneiro. Escreveu-o um dia no álbum de autógrafos da Adega do Machado e cita-o frequentemente como mestre do fado.
Quanto aos outros cantadores manifesta-lhes camaradagem, estima-os, mas não os poupa. Conta Armando Vieira Pinto que as caricaturas mais saborosas que tem visto, fá-las Amália na intimidade, imitando com um humorístico criticismo os gestos, as vozes e os "tics" dos cantadores mais em voga.


Amália poetisa

Por sistema que já se tornou mal crónico Amália nunca chega a horas. É vício que já vem de longe e que, na opinião dos empresários, faz com que deteste o teatro.
Estar no camarim meia hora antes de começar o espectáculo é coisa para lhe custar mais do que cantar sete fados seguidos. E para que os homens do teatro se convencessem disso, Amália começou logo por onde devia começar: no dia em que se estreou no palco, ao lado de Hermínia, na "Boa Nova".
Casa apinhada, luzes acesas e os minutos a passarem-se, uns atrás dos outros. Amadeu do Vale, agarrado ao telefone, berrava para toda a parte, para os retiros, para casas de amigos... polícia, o diabo!
Na sala começara a pateada e a empresa viu-se na obrigação de restituir os bilhetes. A "Boa Nova" começara em má hora porque Amália sumira-se como que por encanto. E eis que a vêem aparecer a toda a pressa, quando a sala estava de novo repleta de público da segunda sessão e Amadeu do Vale em riscos duma síncope cardíaca.
- Desculpe - disse-lhe Amália com um sorriso bom. - Esqueci-me por completo de que havia duas sessões...

Foi assim que Amália também se ia esquecendo do almoço que organizaram os admiradores de Nascimento Fernandes - uma das pessoas a quem ela dedica maior afeição - por motivo do aniversário do grande actor.
Foram-na buscar a casa e Tom, que estava presente, viu-a chegar ao "Negresco" confundidíssima com a "gaffe".
Quando um artista como Nascimento é homenageado, surgem discursos de todos os lados, brinda-se pela glória, pelo devotado esforço a uma carreira, pelo talento, por tudo o que há de elevado num homem.
Amália esteve uns momentos a brincar com o guardanapo, o olhar vago, perdido. E foi ela que, quando parecia tudo terminado, se levantou e fez um brinde original em que veio tocar precisamente aquele ponto que passara despercebido a todos os oradores.
- Como não tenho grande jeito para discursos, vou dizer uns versos que estive aqui a compor:

Dizem-me a todo o momento
Que o Manuel Nascimento
Teve muitas mulheres belas,
Minh' alma em desgosto arde
De ter nascido tão tarde
E não fazer parte delas.

Que outro elogio, mais humano e mais elegante, pode uma rainha adorada, um ídolo, dirigir a um actor reformado e saudoso dos tempos que não podem voltar?

Num outro serão, agora numa soirée diplomática do Rio de Janeiro, num grupo de senhoras cariocas, alguém a interpelou, procurando um gracejo à rivalidade consagrada dos portugueses e dos brasileiros:
- Canta admiravelmente. Mas fala numa língua bastante complicada...
- Na mesma que V. Ex.ª - respondeu Amália calmamente - Apenas com a diferença de que a falo bem.

O enigma do quadro misterioso

Eduardo Malta conheceu-a de surpresa. Apareceu-lhe um dia no "atelier", por indicação de D. Tomás de Mello, e preparou-se para posar.
Os fotógrafos assaltaram-lhe a casa, vieram ali Humberto de Itália, pintores, homens da finança, personalidades de todos os sectores sociais admirar o retrato. Mas uma tarde, quando Malta se encontrava só no "atelier", alguém bateu à porta. Vinha da parte de um senhor que queria comprar o retrato.
- Lamento, mas não o posso vender. Foi uma encomenda, e já não posso dispor dele.
- Mas o senhor paga o que lhe pedir.
- O senhor? Qual senhor?
- Faça o seu preço. Diga o que é preciso fazer para mo vender.
- Não sei... Tenho de falar com a retratada. E com certeza ela há-de querer saber para quem é o retrato.
- Não interessa. Peça-lhe apenas para lho deixar vender, a quem não interessa...
Eduardo Malta foi ter com Amália. Combinaram que se venderia aquele e pintaria outro em sua substituição.
Até arrancar dalí o quadro, o "enviado" não largou a porta do "atelier". Vinha de manhã, à tarde, alta noite e, propositadamente, evitava conversas que não se relacionassem com o negócio, não denunciasse de qualquer modo a identidade do misterioso comprador.
E assim foi. O retrato oficial de Amália, aquele de que se conhece reproduções, não é o primeiro que o pintor fez de Amália Esse nunca mais Eduardo Malta o tornou a ver, está algures escondido das vistas do público.
Mas, apesar das cautelas, Malta sabe onde ele está. Muito em confidência sempre disse que se tratava duma pessoa que não costuma aparecer em sociedade e que faz a vida mais recolhida que imaginar se possa.
Assim é Amália, a traços largos mas reais, segundo no-la descreveram alguns dos seus melhores amigos.”



Século Ilustrado (26-2-1955) – “Porque motivo fecha os olhos quando canta o fado?
- Para não ver a cara dos que não gostam de me ouvir.
- Julga-se maior cantadeira do que a Severa?
- Como posso saber isso se não a conheci?
- Que faria se tivesse apenas um minuto de vida?
- Rezava.
- Se não fosse quem é quem gostaria de ser?
- Qualquer pessoa que não se parecesse nada comigo.
- Se estivesse presa, durante quarenta anos, qual seria a sua primeira atitude após ser posta em liberdade?
- Espreguiçava-me...
- O dia 13 já teve qualquer influência nefasta na sua vida?
- Não me recordo... Eu nunca sei a quantas ando...
- Porque canta o fado?
- Porque me empurraram.
- Já teve alguma paixão tempestuosa?
- Tem alguma coisa a ver com isso?!
- Quando anda na rua gosta que a reconheçam?
- Imenso...
- Qual o seu maior defeito?
- A indisciplina.
- E a sua maior virtude?
- Admirar as qualidades dos outros.
- Que livros costuma ler?
- Os de polícias e ladrões?
- Era capaz de amar um preto?
- Sou capaz de amar... os pretos...
- Em quem pensa, quando está a cantar?
- Em mim...
- Qual o sítio de Lisboa que mais aprecia?
- Aquele onde não estou.
- Gosta de "whisky" ou do carrascão?
- De tudo o que seja bebida...
- Se pudesse esmurrar alguém, sem sofrer as consequências, a quem o faria?
- Às pessoas que dizem que sou feia.
- Gostava de dar a volta ao mundo em oitenta dias?
- Gostava - mas sem limite de tempo.
- Quais os pintores que mais aprecia?
- Para dizer asneiras, mais vale estar calada...
- Já foi alguma vez pateada?
- Já. No Porto, por ter chegado tarde a um espectáculo.
- Quanto gasta por dia?
- Depende do dinheiro que tenho.
- Já foi a alguma "casa de prego"?
- Eu até tenho uma pulseira que é capaz de lá ir sozinha...
- Que faria se lhe saísse a sorte grande?
- Comprava um bilhete para a extracção seguinte.
- Gostava de ser a Marylin Monroe?
- Não, porque é muito feia.
- Que faz antes de se deitar?
- Vejo nascer o sol.
- Gostava que lhe erigissem uma estátua na praça mais concorrida de Lisboa?
- Só se fosse no Largo de Alcântara.
- Acredita no determinismo?
- Piamente.
- É do Sporting?
- Não. Sou do Belenenses que, este ano, há-de ganhar o campeonato.
- Gostava de ver uma alma de outro mundo?
- Só se fosse das boas.
- Qual é a pessoa que mais ama?
- Isso é segredo.
- Que pensa da Morte?
- Que deve ser geladíssima.
- E da Vida?
- Para mim, aparece sempre às segundas, terças, quartas, quintas, sextas-feiras, sábados e, quase sempre, aos domingos.
- Gostava que o Marlon Brando fosse seu amigo íntimo?
- Para responder a essa pergunta precisava de o conhecer.
- Que sente quando ouve uma guitarra?
- Muito medo. Porque, quando a ouço, tenho, geralmente, de cantar.
- Que faria se tivesse quinze minutos de poderio absoluto?
- Asneiras...
- Qual o sítio onde mais gosta de cantar?
- Onde estiverem pessoas que mais gostem de me ouvir.
- Gostava de ser uma guitarra?
- Depende do guitarrista.
- Que faria, se não cantasse o fado?
- Vendia... cerejas.
- Que pensa das pessoas que pensam mal de si?
- Penso que não têm razão.
- Gosta de andar de automóvel ou de carro eléctrico?
- De qualquer coisa, desde que não ande a pé.
- Quando está metida em qualquer sarilho sabe defender-se?
- Sei fugir...
- Julga que canta sempre bem?
- Não. Julgo que canto sempre mal.
- É culta ou intuitiva?
- Intuitivíssima.
- Tem sentido autocrítico?
- Escreva um "Tenho" muito grande.
- Há pontos de comparação entre si e a Severa?
- Há: pancada alta e pelo na venta... Só não uso faca na liga...
- Que pensa das mulheres que fumam?
- O mesmo que penso dos homens que fumam.
- Qual é a sua maior rival?
- Todas as pessoas que cantam.
- A que horas deve ser cantado o fado?
- Antes e depois das refeições.
- Que vai fazer depois desta entrevista?
- Chamar-lhe nomes a si...”

Eva (Abril ou Maio de 1956) - reportagem de Olavo d' Eça Leal. "De cada vez que se muda de programa no "Olympia" é costume fazer-se o ensaio geral do novo espectáculo num vasto local apropriado que o empresário Coquatrix tem por sua conta em Versailles.
Correu da melhor maneira a revisão do cartaz. A Amália, para que a experiência resultasse tal qual como se estivesse já diante do público exigente do "Olympia", fez questão de vestir a "toilette" completa que estudara para a apresentação: vestido de seda preta, com saia farta; mantilha curta, de franjas, e os seus inacreditáveis brincos de brilhantes que valem uma fortuna. Não levava mais jóias. Aquela chegava... e sobejava. No regresso a Paris, de madrugada, na auto-estrada, em plena escuridão, rebentou um pneu do carro. A Amália ia acompanhada pela D. Maria Emília Braga e por sua irmã Odette. O automóvel dos guitarristas passou sem notar que se tratava do carro da Amália. A expectativa era trágica porque, para cúmulo, o motorista constatou que não trazia roda sobrecelente. Começava o desânimo a entrar nos espíritos, quando surgiram dois polícias motociclistas. Postos ao corrente da situação, decidiram eles que a proprietária de tais brincos não podia ficar sozinha na estrada... Um deles ficou a guardar o carro e o outro arrancou a cem à hora, a caminho de Saint-Cloud, em busca de um veículo qualquer, contanto que tivesse os quatro pneus bem cheios. Não demorou dez minutos. Uma camioneta negra da Polícia estacou ao lado do carro da Amália, e as portas (de grades nas janelas) abriram-se para ela entrar com a sua amiga e a irmã. A D. Emília Braga, que conhece bem Paris, voltou-se espantada para o agente que trouxe o carro celular: "Mas... isto "c'mest le panier à salade!"... E era de facto um carro celular. "Cada um dá o que tem!...", respondeu o amável representante da polícia de trânsito francesa. E foi assim que a Amália, a Odette e a Madame Braga regressaram a Paris "sob prisão"... pensando talvez, vagamente, que tudo aquilo fazia parte do ensaio para o dia seguinte no "Olympia".

4.Opiniões dos outros sobre Amália






Filmagem (1946) - Augusto Fraga entrevistado por Guedes de Dion sobre as curtas metragens de fados com Amália: "(...) Os acidentes ou os factos imprevistos não podiam ter cabimento. O que, em cinema, não estiver previsto na véspera, denota má visão ou erro que poderá ter sérias consequências no final. Depois, ao contrário do que toda a gente me dizia, Amália surgiu-me mais profissional do que os verdadeiros profissionais. Muita gente me avisou de que eu iria passar um mau bocado com o feitio dela, com a sua mania de nunca estar a horas em qualquer sítio combinado, em não respeitar as cláusulas dos contratos, em não se interessar pelo trabalho... Pois, aprás-me dizer, aqui, publicamente que Amália foi de uma dedicação extraordinária, excedendo-se, mesmo, no carinho, pelo trabalho, sempre pontualíssima e que, por isso, deixou um ambiente de amável camaradagem entre toda a gente do estúdio, quer técnicos, quer artistas de outras películas, que se estavam a rodar, simultaneamente. A sua alegria era comunicativa e fazia bem a todos! Nunca ninguém viu Amália mal disposta ou contrariada... mesmo nas manhãs em que isso poderia ser admissível, depois de uma "juerga" flamenga fora de portas... (...) Amália, vinte valores em comportamento...
(...)Depois, esta iniciativa deu-nos a prova dos nove: a de que, em Portugal, o público não estava habituado ao género de filmes de curta metragem. Muita gente vai ver um destes filmes da Amália convencida de que se trata de um filme de fundo com dois mil e tantos metros - e fica desiludida, quando aparece o letreiro "Fim". Esquece-se de que cada complemento tem, exactamente, o tempo de um fado e não me consta que alguém ficasse desiludido ao ouvir cantar, ao vivo, a Amália... (...) Amália Rodrigues, nestes pequenos filmes, faz uma verdadeira prova de exame para quem tenha olhos e saiba ver. É muito mais difícil representar sem dizer nada. Reparem que ela só canta, mas a sua imagem tem uma admirável força de expressão. Pelo menos, eu fiquei convencido de que Amália tem dentro de si uma chama de artista, que poderá torná-la numa intérprete ideal para muitos géneros de obras, até, que não tenham parentesco nenhum com o fado. Amália. - creia! - não é a alma do fado, porque seja uma grande fadista. Quem a conhecer, intimamente, reconhecerá, até, que ela não tem o espírito boémio que muitos pensam. É tímida, quase burguesa em muitas atitudes, de gostos e preferências triviais, nada espaventosos. E isso tudo porque a sua inteligência (que é muito mais do que muita gente cuida) a controla constantemente. Amália é, sim, uma artista cem por cento, com uma sensibilidade apuradíssima.”

Armindo Blanco, colaborador de "O Século Ilustrado" (14-6-1947) - "Amália vai... Amália vem... e atrás dela fica sempre o travo amargo da nostalgia, esse "delicioso pungir de acerbo espinho" que é a saudade. E agora a saudade será mais intensa, porque Amália está a cantar melhor do que nunca. Dir-se-ia que os projectores dos estúdios cinematográficos tornaram a sua beleza mais mimosa, da mesma forma que a sua voz se aperfeiçoou em novos requintes de rara ductilidade. Grande vedeta de cinema, intérprete insuperável do fado, Amália está, também, uma rapariga encantadora. Se é que, encantadora... não foi ela sempre! Pelo menos desde que Amália é Amália, milhares e milhares de pessoas a consideram tão gentil e atraente como as figurinhas lendárias que chegaram até nós através da poesia e da pintura de eras mais românticas do que a nossa. Em Amália Rodrigues o apodo de "fadista" não assenta nada bem. Preferimos, apesar disso ser um tanto ou quanto piroso, chamar-lhe "noiva do fado".

Metzner Leone (Eva, Abril de 1950) - "Vendaval maravilhoso tem sido realmente o milagre dessa existência predestinada para a glória e para o êxito, sem outras armas além do timbre da sua voz, da sinceridade do seu sentir, do encanto da sua presença. Desse encanto exótico, feito de uma espiritualidade plebeia, misto de doçura e de meiguice, de êxtase e arrebatamento, que fizeram render-se a seus pés faias e príncipes, banqueiros e poetas, diplomatas e boémios, pintores e desportistas, irmanando todos os homens na admiração incondicional desse novo ídolo nascido na Mouraria e que de lá arrancou o "fado sujo das vielas" para o implantar nos salões elegantes e nas embaixadas, para o levar na sua garganta de oiro e no seu coração de portuguesa a Madrid, a Paris, a Londres, ao outro lado do Atlântico - ao mundo inteiro, afinal...”

Santos Moreira (Eva, Fev. 1951) "- E que lhe parece Amália como pessoa humana?
- Parece-me o melhor possível. Não só faz sempre tudo o que está ao seu alcance para valorizar a nossa actuação, como se preocupa a todos os instantes com o nosso conforto e com os nossos pontos de vista.
- Nunca se zangaram?
- Nunca. Do ponto de vista artístico, o nosso entendimento é perfeito. Pessoalmente, conhecemo-nos demasiadamente bem para que surjam atritos. E isto apesar de Amália ser a pessoa mais distraída do mundo."

Santos Moreira e Raúl Nery (Ecos de Portugal, 1-4-1951) -"Jamais o fado interpretado por Amália Rodrigues colocou mal o nome da nossa terra, no estrangeiro. Creiam nisso os mal intencionados" - afirmam Raúl Nery e Santos Moreira. "Assim chegou ao fim a nossa entrevista com Santos Moreira e Raúl Nery, procurando torná-la objectiva e restringindo-a, por vezes, para que não saísse do ambiente que, propositadamente, lhe quisemos dar: fado e fadistas. Para nós, para eles, porém, a pergunta era como uma máscara a ocultar uma outra que havia fatalmente de surgir. Bailava-nos na mente quando se falou em Roma e Berlim, apoderou-se de nós quando se descreveu o êxito do fado além-fonteiras. Eles esperavam e nós também. Insensivelmente, sorrimos. Era como que expectativa, aguardando, com sofreguidão, o remate final na grande orquestração.
Um deles rompeu o silêncio. Qual? Não interessa, porque a voz de um era a voz do outro, dois pensamentos num só, dois corações batendo em uníssono, uma mesma admiração entusiástica e ardente.
- Para quê palavras? - E Amália? Não é assim?
Sorrimos outra vez.
- Não é somente um caso invulgar porque pode, afoitamente, considerar-se único.
- Alie-se à inteligência, um raríssimo poder de adaptação, junte-se-lhe uma inteligência esclarecida, emparceirada com uma bondade natural e humana, para assim compreendermos a razão primordial que fez dela a grande artista fadista, triunfante hoje como ontem, como sempre.
E acrescentam: - O fado deve-lhe a mais ampla projecção de todos os tempos e os mais assinalados triunfos. Se conquistou as camadas mais altas, não deixou de interpretar o sentir do povo. E - terminam - se todos nós apreciamos, e admiramos, a forma como se adapta - e vence - para lá do fado, no folclore nacional e em canções populares estrangeiras - mais a admiramos ainda, pela sua modéstia natural, quando a série de triunfos alcançados lhe dava o direito a uma normalíssima vaidade. E há tantos, e tantos, que a não alcançam, mas não pensam assim!"

Neves de Sousa (Flama, 22-6-1951?) - "Hoje, Amália, a mais cara artista da Europa e uma das mais conhecidas de todo o Mundo, que está para os latinos como Rita Hayworth está para os americanos, ascendeu ao mais alto degrau da sua vida artística, ao cume que os seus sonhos de criança mal deixava trespassar as nuvens cinzentas que a perfídia e a intriga quiseram derrubar sobre a sua quase lendária fugura.
Paris... Londres... Berna... Rio de Janeiro... Funchal... Madrid... Nunca se pode, ao certo, determinar onde está Amália, intérprete extraordinária da mais extraordinária das melodias saudosistas. Hoje está em S. Paulo, amanhã irá a Roma, a seguir, quem sabe, talvez esteja em Tóquio ou na Suécia com a mesma naturalidade e a mesma timidez que transporta no Fado que canta nos recintos próprios. Amália canta para todos os públicos. Todos compreendem o seu talento, o vigor quase másculo - mas muito feminino - que transborda da sua alma pequenina e crente. E Amália canta, canta sempre como se a sua vida não fosse afinal uma canção.
Esgota lotações e avassala todas as latitudes. É aplaudida delirantemente, de pé, com lágrimas nos olhos. A única maneira de agradecer é cantar de novo. E Amália canta, com um semblante muito triste. Triste mas bonito.
Cinema...Teatro...Rádio...Televisão...Atracção disputada a peso de ouro pelos maiores empresários do Mundo. Amália parece continuar a ser, sempre e apenas, a garotinha de cabelos negros que chorava por tudo e por nada.
Guitarras e Fado embalam docemente o cantar errante da mágica trovadora. Nem um sorriso avulta na sua face serena quando ela canta.
É assim a Amália. Triste semblante de rainha. Triste e bonito. Olhos sonhadores, aveludados, negros, boca rasgada, cabelos naturalmente ondulados. Um ar pálido na face meiga. Adora flores e crianças. Crianças e flores adoram Amália. Triste semblante o da embaixatriz da Saudade portuguesa. Triste e bonito.
É assim a Amália, a Amália que vive pacatamente num primeiro andar moderno, dum prédio elegante em pleno coração da Estrela. Vive, não, descansa entre dois contratos fabulosos, duas viagens apressadas e rápidas a qualquer lado a que a sua voz eleita irá oferecer um pouco do seu Portugal.
É assim Amália, o mais triste e belo semblante que até hoje vi e admirei. É assim a Amália, rainha incontestada da canção nacional, diva encantadora do Fado português. É assim Amália, o mais encantador e mais triste sorriso que conheço, a intérprete extraordinária da mais arrebatada e saudosista de todas as melodias.
Guitarras e Fado embalam docemente o cantar errante da mágica trovadora. Nem um sorriso avulta na sua face serena, quando ela canta e a sua guitarra soluça. Triste semblante, o de Amália. Triste mas Belo."

Diamantino Faria (Estúdio, 10-12-1953) - "E, em miscelânea com tudo isso, passa, pela nossa frente, a Amália Mulher, aquela de quem, toda a gente, afinal, menos se ocupa. A Amália que gosta de socorrer a pobreza, que ama ser prestável aos humildes, que adora ser útil a quem necessita dela e a abeira com qualquer dificuldade. Essa é, afinal, a Amália Rodrigues que mais merece a nossa consideração, por ser a que mais sofre e menos se revela. Essa é a Amália Rodrigues que semicerra os olhos quando as lágrimas querem saltar, para que os outros não vejam o seu sofrimento. Essa é a Amália Rodrigues distante, inatingível, incompreendida, que sobe a escadinha pequenina que a conduz da pista ao esplêndido quadrimotor e se volta para deixar na sua terra, junto dos seus amigos, um ligeiro acenar de adeus."

Duarte Ramos (Estúdio nº 26, 20-4-1954) - "...É uma senhora elegantemente vestida que tenho na minha frente. Magra, não muito alta, tez morena, olhos pretos, tristes... Cabelo solto, cortado "à moda"... Dos dedos finos pende-lhe, com graça feminina, um cigarro...
Fala com facilidade e elegância. Toda ela é poesia e sabor português.
...O fumo lambe-lhe as faces rosadas numa máscara triste. Ao longe parece-me ouvir os soluços de uma viola e trinados de uma guitarra por entre a voz melodiosa de uma fadista...
- É a Amália!"

A Voz de Portugal (30-12-1954) - "(...) Que fluido ou que sortilégio possui a voz de Amália Rodrigues? Que amplidão sentimental e que tal força de sedução é capaz de arrastar consigo pobres e ricos, nobres e plebeus, desgraçados e ofendidos, tristes e desesperados ou desconsolados?
Gentes de todos os matizes e povoados de todas as linguagens a entendem. Ninguém explica mas todos atestam. Ela mesmo não sabe. Canta como os pássaros trinam, como o vento soa ou como a chuva chora. É a linguagem dos eleitos - a graça.
Um dos seus poetas eleitos dedicou-lhe esta estrofe:
"Foi Deus
Que me pôs no peito
Esta voz..."
E assim, as multidões a seguem. Os palcos são pequenos. Os redondeis das praças abrem-se para a multidão ansiosa. Verificam-se os únicos recintos com capacidade para tal. Ela, franzina, silhueta negra, com o coração chagado, as mãos nas franjas do xaile, não tem mais nada do que a sua arte. Afunda-se, perde-se no espaço. Só a voz soa. Canta o fado da Mouraria, em cima dum estrado, entre uma viola e uma guitarra. É uma trágica a desfiar emoções. Nesta simplicidade aterradora está uma força telúrica inexplicável. Fenómeno? Talvez. Na singularidade ímpar da sua pessoa criou-se a sua lenda - a lenda da Amália, a lenda "Amalista".
Uma actriz popular, enraizada no Brasil há muito, quando lhe perguntaram a sua opinião sobre Amália, disse:
- Esta é que é grande. Canta o Fado e deita-se às 6 da manhã! -
Fadista grande, a maior fadista!
Ganha milhões e troca-os em moedas que espalha como pétalas de flores.
Na sua rua, todos estão ansiosos por vê-la quando ela sai. Lisboa adora Amália. Portugal idolatra Amália. Os presos chamam-lhe consoladora e os exilados irmã.
Para ser eterna só lhe falta calar-se.
Mas até lá Amália vai cantando, cantando, cantando sempre, com a força do peito, com os nervos, com gemidos e ais desgarrados, numa torrente de lágrimas e de angústia. Por tal, o seu caso é ímpar. No Fado, todos o reconhecem. Estila como ninguém.”


A Voz de Portugal (Fevereiro de 1959) - Paris, 12 - "Ouvi-a pela primeira vez em 1948, em Portugal, e cada vez que volto a esse país, compro sempre os discos desta cantora, que vai certamente conquistar o nosso público e causar-lhe a mesma magnífica impressão que em mim despertou. Com efeito, o que ela canta é indefinível, são canções tipicamente portuguesas que contam sempre uma triste história de amor; mas o que é notável é a forma como são cantadas. Não se pode imaginar nada de tão comovedor e, ao mesmo tempo, tão simples. A cantora usa um grande xaile negro e, com os braços cruzados sobre o xaile, não faz um movimento; tudo é exprimido pela fisionomia e pela inflexão da voz" - palavras de Pierre Benoit, da Academia Francesa, ao definir o encanto e o talento de Amália Rodrigues, quando se encontrava em Paris, para actuar no "Olympia", que também foi escolhido por Josephine Baker para se despedir da sua carreira artística. Amália assistiu a uma recepção em sua honra, à qual esteve presente Pierre Benoit.”

Fernando Dacosta, "Nascido no Estado Novo", Editorial Notícias, Lisboa, Novembro de 2001, cap. "Lágrimas para Amália" - "Amália ficou chocada quando Natália Correia leu, num serão em sua casa, extractos da peça A Pécora, um dos grandes êxitos do teatro português pós-25 de Abril.
Frequentadora das recepções da fadista, com David Mourão-Ferreira, Vitorino Nemésio, Ary dos Santos, Alain Oulman, Vinicius de Morais, a escritora afastou-se delas nos finais da década de 60, para emergir, entre seguidores e admiradores próprios, no Botequim - onde se fixaria, imporia até ao fim da vida.
Demasiado voluntariosas e caprichosas, as duas depressa desconvergiriam: "Está uma beata horrenda", exclamava-me, de Amália, Natália; "Tornou-se uma herege insuportável", contrapunha-me, de Natália, Amália. (...)
Foi uma Amália irónica, por vezes mordaz que vi, numa noite de homenagem, pela última vez. Esquivando-se (magnificamente) às questões incómodas, só falou do que quis, como quis, quando quis, revelando uma argúcia, uma intuição, um conhecimento, um autocontrolo notáveis.
Sedutora, evocava com graça peripércias passadas, com ternura gente querida, com ambiguidade figuras políticas, com melancolia universos íntimos. (...)
Amália sabia jogar como poucos nas entrelinhas, sugerindo o contrário do que queria dizer para melhor o dizer. (...)
Refugiava-se na casa de São Bento (a sua pirâmide mágica) como uma castelã. Dela contemplava os outros e o mundo - nela aguardava a morte. (...)
Os deuses deram-lhe alturas de incenso, mas a sua vida não. Entre o entregar-se e o negar-se ao destino, queimou a alma, a voz, a existência.
Tocada pelo absoluto, precisava no seu quotidiano de pessoas simples, vulgares, que lhe restituíssem o equilíbrio psicológico necessário para se sentir apaziguada. Tinha a obsessão do reverso do negrume: a cor, as flores, a gargalhada, o convívio, o sol.(...)"

Jornal de Letras, 4-17 Jan. 2006 – Vítor Pavão dos Santos: “Era uma pessoa muito complexa. E sobretudo de uma grande verdade. Era incapaz de fazer uma coisa que não sentisse.”


5.Opiniões de Amália sobre os outros

Eva (Fevereiro 1951) - "Amália diz sempre que nunca houve no mundo nenhum violista como Santos Moreira, nem nenhum guitarrista como Raúl Nery. E estes dois últimos dizem que nunca houve no mundo uma cantadeira como Amália, nem alguém que, como ela, seja tão amiga do seu amigo." Armindo Blanco.

6. Carreira internacional: locais onde actuou

Canção do Sul (16-1-1947) - "No próximo mês de Fevereiro, deve seguir para a América do Norte, a artista Amália Rodrigues, que possivelmente se fará acompanhar de Jaime Santos, guitarrista e Santos Moreira, violista.”

Século Ilustrado (14-6-1947) - (entrevista com Amália) Amália conta a história da sua próxima deslocação ao México: "Ah! Essa história é bem pequena. Conta-se em meia-dúzia de palavras. Quando o toureiro mexicano Paco Gorraez, que é hoje agente artístico, esteve em Portugal, ouviu-me cantar. E parece que gostou. Antes [ ] era de opinião que o fado tinha muitas condições para agradar em cheio ao público mexicano. Se vai agradar ou não é coisa de que, neste momento, não faço a menor ideia. Apenas sei que em meados de Agosto devo estar a cantar no "Sond Souci", da capital do México. Paco Gorraez cumpriu a sua palavra.
- Está contente com isso?
- Ora! Mais contentes do que eu estão o Santos Moreira e o Jaime Santos, que me vão acompanhar neste cruzeiro com as suas viola e guitarra. Eu, por mim, sou uma preguiçosa e, na realidade, talvez preferisse ficar por aqui, a desfrutar do remanso de Lisboa, com as suas "boites" e restaurantes típicos.
- Quando regressa?
- Isso agora, como diria o António Silva, é "outra ordem de ideias". Tenho propostas para actuar em Havana e nas colónias de portugueses dos Estados Unidos. Propostas vantajosas que devo aceitar. Já vê, portanto, que me é muito difícil calcular a data do regresso, tanto mais que penso aproveitar a excursão ao Norte da América para descer novamente ao Sul.
- Ao Brasil?
- Exactamente. Parece que, por lá, há grandes desejos de me ouvirem novamente. E como não há duas sem três, e eu já fui duas vezes ao Brasil...”

Eva (Maio de 1954) – “Amália regressou em Abril dos EUA e outros estados americanos.
PAÍSES E CIDADES QUE JÁ OUVIRAM Amália Rodrigues:
Europa:
Espanha - Madrid e S. Sebastien
França - Paris e Biarritz
Alemanha - Berlim
Itália - Roma
Trieste
Inglaterra - Londres
Holanda - Harlem
Irlanda - Dublin
Suíça - Berne e Genève
Portugal - Em quase todo o país, Madeira e Açores
América do norte:
Nova Iorque, Hollywood, Providence, S. Francisco, San Diego, Oakland, New Bredford
América central:
Cidade do México, Acapulco
América do sul:
Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos, Campinas
África:
Dakar, Luanda, Lobito, Benguela, Lourenço Marques, Beira, Vila João Belo, Nampula, Inhambane, etc.
Locais onde deve actuar em 1954:
Junho - "tournée" por Espanha (Barcelona, Valência, Madrid, Sevilha, S. Sebastien)
A seguir - Paris e Líbano
Fins de Agosto - voltar a Nova Iorque e México.”

7. Projectos abandonados

Século Ilustrado (14-6-1947) - entrevista com Amália: "Quando voltar [da digressão pelo continente americano], penso fundar a minha própria "boite", a "boite" que usará o meu nome e na qual, todas as noites, eu cantarei para os meus amigos. Isto é um velho sonho meu que só mais tarde poderei realizar. Quem me dera que fosse já amanhã...”

Plateia (nº 2, 15-1-1958) - noticia que, após as filmagens de "Sangue Toureiro", Amália contracenará com Joselito, de 9 anos, na primeira película luso-espanhola.

Plateia (15-3-1958) - Amália pediu o "cachet" de 600 contos para interpretar o filme e o produtor só dava 400.

8. Carreira cinematográfica

Filmagem (1946) - num pequeno artigo que atesta Amália como a vedeta nº 1 de Portugal e a sua comprovada categoria, noticia-se que a DOPERFILME tomou a iniciativa de produzir uma série de 12 complementos com Amália a cantar, dos quais os primeiros seis se encontravam já em exibição com grande êxito no Eden: "Fado Amália", "Fado Malhoa", "A Rua do Sol", "Fado Lamentos", "Só à Noitinha" e "Fado Mouraria". Cinematizados por Augusto Fraga, fotografia de Cecílio Paniagua, som de António Roces e acompanhamento à viola por Santos Moreira e Jaime Santos. Os acompanhamentos eram desejados pela província e pelo Brasil.

Filmagem (1946) - Augusto Fraga explica como nasceu a ideia da série de fados: "Sei apenas que, um dia, o produtor Ribeiro Belga (que é, como sabe, um exemplo raro de inteligência e trabalho com largo prestígio cá e lá fora, bem merecedor de um ambiente muito mais amplo) falou-me da possibilidade de se fazer uma série de pequenos filmes com Amália Rodrigues e, logo, fiquei entusiasmado com a dupla oportunidade que se me oferecia: trabalhar com uma artista de tão grande temperamento, como prestígio, e experimentar a direcção cinematográfica, num trabalho singelo, sem grandes complicações..."

Flama (Maio de 1946) - noticia que Amália vai participar num filme chamado "Capas Negras".

Século Ilustrado (14-6-1947) - Amália declara em entrevista que, após concluir as filmagens de "O Fado", partirá para S. Sebastian, onde interpretará um filme curto sobre o fado para o famoso jornal espanhol de actualidades NODO. (...)
“- E a respeito de filmes?
- Se tiver contratos, continuarei a trabalhar nos estúdios. Começo a apaixonar-me pelo cinema. No teatro, a proximidade do público intimida-me. Nos estúdios estou mais à vontade. Mas acredite que só agora começo a ter uma certa confiança em mim própria. Quando foi da estreia de "Capas Negras", não tive coragem para assistir. Tinha um medo horrível da desilusão que pensava ir sofrer. Afinal, ao que me têm dito, parece que não vou tão mal como isso.
- Ao que lhe têm dito?
- Sim, porque eu ainda não fui ver o filme. E não me pergunte quando irei, porque eu própria não o sei.” (Armindo Blanco)

Cinema (Junho de 1947 - com foto escura de Santos Moreira) – “Está satisfeita com o trabalho que tem nesta película?
- Sim... muitíssimo. Encontro-me maravilhada com a personagem que vou fazer viver. Vou esforçar-me ao máximo para conseguir oferecer à figura que interpreto a tonalidade viva da verdade.
- Ó Amália... isso é a sério? Está assim tão sensibilizada?
- É como lhe digo, meu amigo. O meu entusiasmo é grande e digo-lhe isto com toda a sinceridade.
- Que diz dos seus companheiros de trabalho?
- Bons "camaradões"... uns caras direitas.
- Para terminar, diga-nos: gosta de trabalhar no cinema?
- Muitíssimo... E agora, se me permitem, retiro-me. O almoço espera e eu estou mortinha de fome... Trabalho tanto...”

Eva (Abril de 1950) - num longo artigo sobre Amália afirma que ela vai partir para o Brasil após ter filmado "Eram duzentos irmãos".

Flama (2-6-1950 ou 16-6-1950) - "Ainda não comecei a filmar, mas posso adiantar que o argumento é bom e o papel que me deram é do género que gosto.", afirma Amália, sobre "Eram duzentos irmãos".
(...) - Gostou de actuar em "Vendaval Maravilhoso" sob a direcção de Leitão de Barros?
- Gostei. Leitão de Barros é um grande artista e eu senti-me à vontade ao ser dirigida por ele.
Amália falou-nos também dos realizadores Perdigão Queiroga e Armando Miranda, com quem já trabalhou, salientando a simpatia de ambos."

Público (26-12-1999) - João Silva, operador de câmara, conta como Amália lhe confessou ter pavor de Leitão de Barros, realizador de Vendaval Maravilhoso, mas que Leitão de Barros também tinha medo de Amália, pois sabia que ela era mulher capaz de dar um pontapé naquilo tudo.

Flama (29-11-1957) - entrevista de Rolo Duarte: "(...) - Amália: falaram-nos das suas ambições artísticas, arredadas do sector a que se tem dedicado. Que há de verdade?
A nossa entrevistada não respondeu logo. Começou por fazer um gesto de indecisão, que nós ajudámos:
- Por exemplo: o trabalho neste filme é do seu agrado?
Com espontaneidade:
- Não, ainda não é desta vez que faço o papel da minha preferência!
- Então?
- Sabe: eu gostava, de facto, de fazer uma alta comédia, ou em cinema ou em teatro. Sei que o posso fazer e tinha muito interesse em me apresentar como actriz e não como cantadeira.
Amália pormenoriza a sua ideia:
- O que eu gostava é que um autor tivesse o trabalho de estudar a minha sensibilidade artística e escrevesse uma peça séria, de acordo com o meu temperamento.
- Sente que o podia fazer?
- Absolutamente!
- Nós gostámos de a ver no Monumental...
- Sim, mas conquanto não me desgostasse "A Severa", eu pretendia, como já lhe disse, um trabalho que exigisse mais e onde pudesse mostrar o que porventura possa ter de actriz...(...)"

9. Carreira teatral

1944: "Rosa Cantadeira", Teatro Apolo, de Ribeirinho, com Ribeirinho, Hermínia Silva, Santos Carvalho, Morgado Maurício, Armando Machado

Eva (Abril de 1955) - A peça "A Severa", de Júlio Dantas estreou-se no dia 8 de Março de 1955, no Teatro Monumental. Também entravam na peça Santos Moreira e Raúl Nery. "Amália a Severa 1955 - não se fala noutra coisa!" O povo de Lisboa apinhou-se no átrio do Teatro só para ver os espectadores em traje de gala. O público foi o espectáculo da multidão de mirones, que criticava no meio de um frio cortante. Orquestra dirigida por Fernando de Carvalho abria o espectáculo, de três horas. "A encenação estava perfeita, a indumentária das personagens irrepreensível". Júlio Dantas e esposa vieram assistir. Vasco Morgado foi recebê-los. Presentes: o governador civil Mário Madeira, entre outras entidades oficiais. Raul e Carvalho veio felicitá-los; Madalena Sotto, Pinto de Campos, Manuel Santos Carvalho, Ribeirinho e irmão, Celeste Rodrigues. Assis Pacheco contracena com Amália.




Fotos: de Silva Tavares e outros.